Textos sobre Acusação de Miguel Esteves Cardoso

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Textos de acusação de Miguel Esteves Cardoso. Leia este e outros textos de Miguel Esteves Cardoso em Poetris.

O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos,

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N√£o Est√°s a Ver

Todos os dias, todos nós assistimos Рseja como utentes, vítimas ou observadores Рa uma prática irritantemente portuguesa.
Algu√©m faz uma longa e pormenorizada descri√ß√£o de uma coisa extraordin√°ria (ou, mais ami√ļde, banal) que lhe aconteceu. N√≥s ouvimos, com paci√™ncia e empatia exageradas, e comentamos conforme as mais bem equilibradas expectativas.
Descrevem-nos um momento de horror (“atravessou-se um gato na estrada, tive de desviar-me e quase bati noutro carro”) e, quando n√≥s simpatizamos (muitos de n√≥s tendo passado pela mesma experi√™ncia de medo de morrer ou matar), o nosso interlocutor d√° como perdidos os quartos de hora que gastou a dar-nos uma narrativa completa e, apesar da nossa sincera afirma√ß√£o de empatia (“Coitado! Sei exactamente o que sentiste!”), atira-nos invariavelmente √† cara a mesma psicop√°tica acusa√ß√£o: “N√£o est√°s a ver!”
√Č portugu√™s pensar que aquilo que se sente ou que nos acontece n√£o pode ser sentido ou acontecer a mais ningu√©m. Temos a ideia est√ļpida, avan√ßada por Cam√Ķes – do saber de experi√™ncia feito -, que cada um sabe o que sabe e vive o que vive. Dizer “n√£o est√°s a ver” a quem v√™ perfeitamente – o mais das vezes espontaneamente – √© uma esp√©cie de distancia√ß√£o.

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