Citação de

O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos, o amor mete sempre a paix√£o ao barulho. ¬ęApaixonar-se¬Ľ √© ficar amorosamente rendido a outra pessoa, e tanto o verbo como a carne encontram a sua raiz n√£o tanto no amor como na paix√£o. O que talvez distinga os portugueses √© n√£o distinguirem o amor da paix√£o. Em Portugal, ama-se sempre apaixonadamente e a maior das paix√Ķes, a mais violenta e conturbada, tem sempre o seu bom bocado de delambida meiguice. Os extremos, entre n√≥s, s√≥ existem quando se tocam.

O amor portugu√™s n√£o √© um fen√≥meno ternurento. √Č grave, como um crime. Os crimes passionais em que somos pr√≥digos s√£o pouco mais do que epis√≥dios de amor. Leopardi escreveu uma vez que h√° duas coisas belas no mundo: o Amor e a Morte. Para os portugueses, essas coisas n√£o s√£o assim t√£o duas. S√£o s√≥ uma. Morrer de amor √© mais frequente que amar at√© √† morte. Alguns grandes poetas castelhanos, como Lope de Vega, pasmaram-se com esta confus√£o em que escolhemos andar. A felicidade jamais √© chamada para o assunto. O amor, sempre misturado com a paix√£o, nunca se v√™ como um caminho para nada ‚ÄĒ quanto mais para a felicidade. Na melhor das hip√≥teses, consiste em ir adiando engra√ßadamente a desgra√ßa. Todos esperam uma trag√©dia e ningu√©m se surpreende muito quando ela acontece.

O amor portugu√™s est√° para a felicidade como uma montanha russa para o contentamento: n√£o est√°. Com o cora√ß√£o na boca √© dif√≠cil dizer-se seja o que for. Apetece trinc√°-lo ,e, quando n√£o apetece, √© a outra pessoa que enfia o dente. Bem-vinda, como sempre. O amor √© a nossa dilecta doen√ßa contagiosa. Ci√ļmes doentios, cenas doentias, alegrias e desilus√Ķes, expectativas e saudades… √© sempre tudo deliciosamente doentio. A √ļnica coisa que n√£o se pode dizer do amor em Portugal √© que ele seja s√≥ sa√ļde. N√£o √©.
Entre n√≥s, a paix√£o n√£o √© capaz de surgir separada. As enfatua√ß√Ķes, as paixonetas e os amoques s√£o problemas que s√≥ raramente conseguimos ter. Em cada ¬ęfraquinho¬Ľ que se tenha por algu√©m, h√° sempre a for√ßa latente de uma paix√£o e o desejo bem dormido de um grande amor. A atrac√ß√£o exclusivamente f√≠sica √© considerada √† parte. Os ¬ęfraquinhos¬Ľ s√£o as predisposi√ß√Ķes de quem est√° absolutamente disposto a amar.

A atrac√ß√£o exclusivamente f√≠sica √© normalmente considerada ¬ę√† parte¬Ľ. Por que √© que os homens portugueses dizem das mulheres que acham sexualmente atraentes que s√£o ¬ęboas¬Ľ? Que querer√° dizer esta estranha conota√ß√£o com a bondade? Os restantes povos latinos dizem coisas bastante mais rudes. Os portugueses acham que as mulheres atraentes s√£o ¬ęboas¬Ľ porque, ao contr√°rio daquelas que amam, s√£o insuscept√≠veis de lhes causar grande maldade. As mulheres por quem nos apaixonamos √© que s√£o m√°s. D√£o-nos cabo da vida, n√≥s damos cabo da vida delas e, se n√£o fosse uma alegria essa guerra, seria uma paz-de-alma, que √© como quem diz, uma mis√©ria.

A raz√£o por que os portugueses querem dizer ¬ęamor¬Ľ e n√£o lhes chega a boca √©, porque nada lhes chega jamais. No amor √© tecnicamente imposs√≠vel exagerar. O que √© de mais tamb√©m n√£o farta. √Č tudo important√≠ssimo. Qualquer caso √© de vida ou de morte. A m√≠nima com√©dia √© um drama. A faca na liga acaba sempre no alguidar. Se ela se serve primeiro do a√ß√ļcar, se ele chega com um atraso de dois minutos, √© porque, de certeza absoluta, j√° arranjou outro amante. Se a pol√≠cia estiver a tentar arrombar-lhe a porta e ele disser ¬ęAgora tenho mesmo de desligar o telefone, meu amorzinho¬Ľ, √© porque ele est√° a tentar ¬ędespach√°-la¬Ľ. Se ele √© preso, √© apenas uma maneira que arranjou para fugir dela. Se ela espirra, ele imagina logo que ela passou a madrugada num jardim ventoso, nos bra√ßos suados de um turco qualquer. Se ela se veste mal, √© porque j√° n√£o quer saber dele. Se se veste bem, √© porque quer impressionar outro. N√£o h√° gesto, por muito in√≥xio, que n√£o seja uma facada. O sangue come√ßa logo a jorrar e, mais uma vez, pela sexta vez desde as tr√™s da tarde, assiste-se a mais uma chacina. Adoram.

O verbo portugu√™s que significa ¬ęamar e ser amado¬Ľ √© geralmente desconhecido, precisamente porque n√£o cabe na cabe√ßa ou no cora√ß√£o de portugu√™s nenhum que a sua enorme paix√£o possa ser correspondida. N√≥s amamos e os outros fingem que nos amam, s√≥ para nos enganar. Em Portugal, o amor n√£o coexiste jamais com a confian√ßa. Quem ama, desconfia, e quem confia √© porque n√£o ama. √Č por isso que o verbo n√£o se usa, apesar de ser bonito (¬ęredamar¬Ľ).

Da mesma maneira, os portugueses que n√£o est√£o apaixonados passam o tempo a arejar os tornozelos nas salas de espera do costume (bares, discotecas, an√ļncios classificados), ansiosos por encontrarem um grande amor, e os que j√° est√£o apaixonados amaldi√ßoam o dia em que o encontraram. Cada um acha o descontentamento de uma maneira diferente. A patognom√≥nica portuguesa ‚ÄĒ a nossa ci√™ncia das paix√Ķes ‚ÄĒ √© mais ¬ęmagda-patol√≥gica¬Ľ do que cient√≠fica. Em portugu√™s, ¬ęfeiticeira¬Ľ tamb√©m significa ¬ęsedutora¬Ľ e, quando um amor corre mal, vai-se mais √† bruxa do que √† vida. Andamos todos √†s aranhas, e aos rabos das serpentes, e √†s asas de morcego porque encaramos o amor como um encanto, no bom sentido e no pior.

Que repercuss√Ķes poder√° ter a amatividade portuguesa? Em primeiro lugar, v√™-se nas caras das pessoas aquele ar sofredor mal dormido que mais n√£o √© que o resultado f√≠sico da aus√™ncia ou da presen√ßa do amor, das noites passadas em claro, quer pela primeira raz√£o quer pela segunda. Quando se v√™em namorados, h√°-de se reparar que um deles est√° sempre sisudo e perturbado e o outro est√° sempre a rir-se (porque o primeiro est√° a acusar o segundo de qualquer grande gravidade, e este disfar√ßa como pode). Ou ent√£o est√£o os dois sisudos e perturbados. Se, por algum estranho acaso, estiverem ambos a rir-se, n√£o √© por serem felizes, √© porque est√£o os dois a reagir simultaneamente √†s acusa√ß√Ķes de trai√ß√£o um do outro.

Em segundo lugar, os homens e mulheres de Portugal andam sempre afragatados, vestidos de um modo esquisito, calculado para induzir no incauto a s√ļbita apet√™ncia de paix√£o. S√£o as unhas compridas dos homens, as unhas pintadas dos p√©s das mulheres, as camisas com gola comprida Boeing 707, as botifarras de salto alto de camur√ßa amarelo-torrado. Os estrangeiros n√£o compreendem e n√≥s tamb√©m n√£o.

Se os portugueses conseguissem amar sem paix√£o, ou sofrer grandes paix√Ķes sem amar, seriam todos mais felizes, mas menos interessantes. Confundir o amor com a paix√£o √© a nossa arte particular ‚ÄĒ o artesanato t√≠pico dos nossos trabalhados cora√ß√Ķes. Somos infelizes, √© certo, mas n√£o os trocar√≠amos por nada. (