Passagens sobre Barulho

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Frases sobre barulho, poemas sobre barulho e outras passagens sobre barulho para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ode Triunfal

√Ä dolorosa luz das grandes l√Ęmpadas el√©ctricas da f√°brica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

√ď rodas, √≥ engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em f√ļria!
Em f√ļria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De express√£o de todas as minhas sensa√ß√Ķes,
Com um excesso contempor√Ęneo de v√≥s, √≥ m√°quinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes tr√≥picos humanos de ferro e fogo e for√ßa –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

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O Sentimento Religioso é o Mais Inconfessável de Todos

A religi√£o, ou o sentimento religioso, √© o mais inconfess√°vel de todos: n√£o por irracional, mas porque √© da sua mais √≠ntima natureza o sil√™ncio da vida f√≠sica do universo, que s√≥ faz barulho por acaso e n√£o para a gente ouvir. Que mais n√£o fosse, acharia rid√≠cula, e acho, a atitude dos ¬ęlibertos¬Ľ, nascidas da cabe√ßa de J√ļpiter, desirmanados de tudo quanto encarnou as dores e as esperan√ßas de uma humanidade dolorosamente em busca do seu pr√≥prio corpo. Mais que rid√≠cula, criminosa, estulta, digna dos raios divinos, se os houvesse. Neste sentido, me √© respeit√°vel a religi√£o considerada na sua ac√ß√£o interior e na sua simb√≥lica aparente; e, como poeta, n√£o posso deixar de ser sens√≠vel ao paganismo que a Igreja Cat√≥lica n√£o sonha – ou sonha at√© – a que ponto herdou. Quando a religi√£o pretende fixar-se, lutar ligada a interesses materiais que geraram muitas das formas que ela tomou, evidentemente que sou contr√°rio a ela, a aquela, porque sei que n√£o h√° eternidade das formas e das conven√ß√Ķes, mas sim da org√Ęnica simb√≥lica que assume uma ou outra forma, segundo o estado social em que se desenvolve.

Jorge de Sena, carta a sua noiva Mécia Lopes,

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Se nos ‚Äúmolhamos‚ÄĚ, √© porque sa√≠mos da ‚Äúcasa indestrut√≠vel‚ÄĚ, da Imagem Verdadeira, Assustados com o barulho da chuva. Se somos atingidos por coisas externas √© porque nossa mente se apega a elas.

H√° pessoas, de fato muitas, que se riem disso [das queixas a respeito da polui√ß√£o sonora], porque s√£o insens√≠veis ao barulho ‚Äď s√£o, contudo, justamente aquelas que tamb√©m s√£o insens√≠veis a raz√Ķes, a pensamentos, a poesias e a obras de arte, em suma: em rela√ß√£o a qualquer tipo de est√≠mulos ao esp√≠rito. Isso √© devido √† dura constitui√ß√£o e √† textura maci√ßa de sua massa cerebral.

A paz não significa estar num lugar onde não há nenhuma confusão, barulho, ou trabalho árduo. Significa estar no meio de todas essas coisas e ainda assim ter o coração calmo.

Enfrentar-se a Si Próprio

√ďdio da introspec√ß√£o activa. Explica√ß√Ķes da nossa alma, tais como: ontem eu estava assim e assado, por esta ou por aquela raz√£o; hoje estou assim e assado, por qualquer outra raz√£o. N√£o √© verdade, nem por esta raz√£o nem por aquela raz√£o, e por isso tamb√©m nem assim nem assado.
Enfrentar-se a si pr√≥prio calmamente, sem precipita√ß√Ķes, viver como se tem de viver, n√£o andar √† ca√ßa do pr√≥prio rabo como o c√£o.
Adormeci nos arbustos. Um barulho acordou-me. Encontrei um livro nas minhas m√£os, que tinha estado a ler. Deitei-o fora e levantei-me de um salto. Passava pouco do meio-dia; em frente da colina em que eu estava estendia-se uma grande planura com aldeias e lagos e sebes todas iguais, altas, que pareciam feitas de junco. Pus as m√£os nas ancas, examinei tudo com o olhar, e ao mesmo tempo escutei o barulho.

Minha vida √© mon√≥tona. Mas se tu me cativas, minha vida ser√° como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que ser√° diferente de outros…

Amo-te Tanto

amo-te tanto mas hoje tenho de levar o carro ao mec√Ęnico, as rodas fazem um barulho estranho, n√£o deve ser nada, mas √© melhor prevenir, amanh√£ prometo que vamos ver que tal se come naquele restaurante novo junto √† rotunda, e depois levo-te ao cinema, ai n√£o que n√£o levo,
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do mi√ļdo, o treinador ligou e disse-me que temos craque, o nosso menino a jogar como gente grande, v√™ l√° tu, quando chegar com ele v√™ se tens prontinha aquela comida que ele adora, o puto merece, ai n√£o que n√£o merece,
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar at√© tarde no escrit√≥rio, h√° aquele projecto do estrangeiro para fechar, est√° aqui tudo perdido de nervos, n√£o sei se aguento, daqui a pouco ligo-te para saber como vai tudo, o mi√ļdo e as coisas a√≠ em casa, agora tenho de ir mostrar a esta gente toda como se trabalha, ai n√£o que n√£o tenho,
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo, amanhã é aquela reunião importante de que te falei, se conseguir o cliente vamos ser tão felizes, aquela casa, o carro novo, quem sabe?, só tenho de o conseguir convencer,

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Copio e assino essa frase encontrada no velho Schopenhauer: A soma de barulho que uma pessoa pode suportar est√° na raz√£o inversa de sua capacidade mental.

Penetr√°lia

Falei tanto de amor!… de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No rel√Ęmpago breve com que veio…

O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao p√ļblico recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

N√£o proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava… E ainda hoje, t√≠mido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.

Declaração de Amor

Quem é que tem a sorte de ter um amor dele ou dela que ama ou que tem, seja amado ou amada? Tenho eu e conheço muitas pessoas que já têm ou que vão ter. Mas, tal como todos os outros apaixonados e todas as outras apaixonadas, desconfio, com calor na alma, que ninguém tem o amor que eu tenho pela Maria João, meu amor, minha mulher, minha salvação.
O amor sai caro Рmedo de perdê-la, medo do tempo a passar, medo do futuro Рmas paga-se sem se dar por isso. Mentira. Dá-se por isso só nos intervalos de receber, receber, receber e dar, dar, dar.
Basta uma pequena zanga para parecer que todo aquele amor desmoronou: “Onde est√° esse teu apregoado amor por mim (de m√£os nas ancas), agora que eu preciso dele?”
Quanto maior o amor, mais frágil parece. Quanto maior o amor, mais pequeno é o gesto que parece traí-lo. Mas com que alegria nos habituamos a viver nesse regime de tal terror!
Maria João, meu amor: o barulho que faz a felicidade é ouvires-me a perder tempo a resmungar e a pedir que tudo continue exactamente como está, para sempre.

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Os europeus, quando caminham, parecem pedir licença ao mundo. Pisam o chão com delicadeza mas, estranhamente, produzem muito barulho.