Passagens sobre Costumes

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Frases sobre costumes, poemas sobre costumes e outras passagens sobre costumes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ver Correr a Esperança

De bru√ßos sobre o lavat√≥rio, abro a torneira, tapo o ralo, fico alguns momentos a ver correr a esperan√ßa, que vai enchendo aos poucos a bacia. Depois fecho a torneira e, retirando a tampa, vejo-a escoar-se em gorgolejos que cada vez s√£o mais humanos e mais fundos. √Č a respira√ß√£o do ralo, que s√≥ ent√£o dou conta de que est√° dentro de mim, por uma dessas distor√ß√Ķes a que √© costume eu ser atreito e que me impede ainda de me ver no pr√≥prio espelho, que, apesar de se encontrar √† minha frente, n√£o consigo deslocar do avesso dos meus olhos.

Os meus sentidos rangem, solid√°rios com os canos, eles que eu gostaria de poder assimilar ao mar, a um c√©u azul, desanuviado, e que jamais me d√£o do esp√≠rito vis√Ķes onde n√£o se encastoem nuvens e rebentem tempestades.

Repito a operação. Mergulho às vezes as mãos na minha esperança, mas retiro-as ao cabo de algum tempo, antes que se transformem em raízes. Destapo uma vez mais o ralo. Assim corre a amizade Рpenso, olhando o redemoinho -, assim correm os afectos, que, depois de encherem a bacia onde a custo nos lavamos sem os fazermos transbordar,

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O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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√Č costume de um tolo, quando erra, queixar-se dos outros. √Č costume de um s√°bio queixar-se de si mesmo.

O Destino Desconhece a Linha Recta

O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, n√£o conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em fun√ß√£o de um resultado final, portanto conhecido, √© imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princ√≠pio, sem se mover. Ora, pelo contr√°rio, o destino hesita muit√≠ssimo, tem d√ļvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.

A Ordem das Coisas

Natura deficit, fortuna mutatur, deus omnia cernit. A natureza trai-nos, a sorte muda, um deus v√™ do alto todas estas coisas. Apertava ao dedo a mesa de um anel onde, num dia de amargura, mandava gravar estas palavras tristes; ia mais longe no desengano, talvez na blasf√©mia; acabava por achar natural, sen√£o justo, que dev√≠amos perecer. As nossas letras esgotam-se; as nossas artes adormecem; P√Ęncrates n√£o √© Homero; Arriano n√£o √© Xenofonte; quando tentei imortalizar na pedra a forma de Ant√≠noo n√£o encontrei Prax√≠teles. Depois de Arist√≥teles e de Arquimedes, as nossas ci√™ncias n√£o progridem; os nossos progressos t√©cnicos n√£o resistiriam ao desgaste de uma longa guerra; mesmo os nossos voluptuosos desgostam-se da felicidade. O abrandamento dos costumes, o avan√ßo das ideias no decorrer do √ļltimo s√©culo √© obra de uma infima minoria de bons esp√≠ritos; a massa continua ignara, feroz, quando pode, de qualquer forma ego√≠sta e limitada, e h√° raz√Ķes para apostar que ficar√° sempre assim. Procuradores a mais, publicanos √°vidos, demasiados senadores desconfiados, demasiados centuri√Ķes brutais comprometeram adiantadamente a nossa obra; e os imp√©rios, como os homens, j√° n√£o t√™m tempo para se instru√≠rem √† custa das suas faltas. Onde quer que um tecel√£o remendar o seu pano,

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Bens Ilusórios

Por nosso mal l√° chega a idade, em que n√£o queremos mais fortunas, que o viver; conhecemos a ilus√£o delas, e se as buscamos, √© como por costume, mas sem √Ęnsia, e sem desassossego; o desejo de as alcan√ßar, √© como um resto de calor, que apenas se faz sentir. N√£o reflectimos sobre o pouco tempo, que devemos gozar um bem, sen√£o depois de o ter: s√≥ ent√£o consideramos o muito que custou a alcan√ßar, e o pouco que o havemos possuir.
Em cada país há um modo com que as cousas se imaginam; o que é fortuna em uma parte, é desgraça em outra, o que aqui se busca com empenho, ali se despreza totalmente. Os objectos que entretêm a vaidade, e estimação dos homens, são como ídolos, que só se veneram em lugar determinado, e fora daquele tal espaço, a adoração se troca em vitupério; o mesmo mármore de que em Atenas se faria uma Minerva, transportado a outro lugar, apenas servirá de base a uma coluna; assim é a vaidade, por mais que seja universal nos homens, os motivos dela não são universais.

As Virtudes da Cidade

Amo o ru√≠do e a constante agita√ß√£o das grandes cidades. O movimento cont√≠nuo obriga √† observa√ß√£o dos costumes. O ladr√£o, por exemplo, ao ver toda a actividade humana, pensa involuntariamente que √© um patife, e esta imagem alegre em movimento pode vir a melhorar a sua natureza decadente e arruinada. O bo√©mio sente-se talvez mais modesto e pensativo quando v√™ todas as for√ßas produtivas, e o devasso diz possivelmente a si mesmo, quando lhe salta aos olhos a docilidade das massas, que n√£o √© mais do que um sujeito miser√°vel, est√ļpido e vaidoso, que s√≥ sabe ufanar-se com soberba. As grandes cidades ensinam, educam, e n√£o com doutrinas roubadas aos livros. N√£o h√° aqui nada de acad√©mico, o que √© lisonjeiro, pois o saber acumulado rouba-nos a coragem.
E depois h√° aqui tanto que incentiva, que sustenta e ajuda. Quase n√£o conseguimos diz√™-lo. √Č t√£o dif√≠cil dar uma express√£o viva ao que √© refinado e bom. Agradecemos as nossas vidas modestas, sentimo-nos sempre um pouco gratos quando somos empurrados, quando temos pressa. Quem tem tempo para esbanjar n√£o sabe o que o tempo significa, √© por natureza um ingrato. Nas grandes cidades qualquer mo√ßo de recados conhece o valor do tempo e nenhum ardina quer perder o seu tempo.

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A Palavra e o Espírito

Uma palavra que é proferida passa a fazer parte do círculo das restantes forças naturais necessariamente activas. Age com tanto mais vigor quanto, no limitado espaço em que a humanidade vai percorrendo o seu caminho, se colocam constantemente as mesmas necessidades e as mesmas exigências.
E contudo √© t√£o pouca a seguran√ßa que oferece a transmiss√£o das palavras ao longo do tempo! √Č costume dizer-se que nos devemos ater ao esp√≠rito e n√£o √† palavra. Mas o que acontece em geral √© que o esp√≠rito aniquila a palavra ou a transforma de tal modo que pouca coisa permanece da anterior significa√ß√£o e valor estil√≠stico.

A Crise do Idealismo

Cada vez ser√° menor a ¬ęelite¬Ľ que os possui [valores], perante o desvairo do nosso tempo em que a sede dos prazeres materiais e a dissolu√ß√£o dos costumes, apoiadas por uma organiza√ß√£o industrial ad hoc, corromperam a riqueza e as suas fontes, o trabalho e as suas aplica√ß√Ķes, a fam√≠lia e o seu valor social. H√° no Mundo uma grande crise do idealismo, do espiritualismo de virtudes c√≠vicas e morais, e n√£o parece que sem eles possamos vencer as dificuldades do nosso tempo. Sem rectificarmos a s√©rie de valores com que lidamos – valores econ√≥micos e morais – , sem outro conceito diverso da civiliza√ß√£o e do progresso humano, sem ao esp√≠rito ser dada primazia sobre a mat√©ria e √† moral sobre os instintos, a humanidade n√£o curar√° os seus males e nem sequer tirar√° lucro do seu sofrimento.

Em geral, quanto mais um povo é civilizado, educado, menos os seus costumes são poéticos; tudo se atenua ao se tornar melhor.

Quando falamos de hist√≥ria, temos o costume de nos refugiar no passado. √Č nele que se pensa encontrar o seu come√ßo e o seu fim. Na realidade, √© o inverso: a hist√≥ria come√ßa hoje e continua amanh√£.

O Prolongamento da Adolescência

No dia a seguir ao casamento os noivos est√£o mais velhos cinco anos. Biol√≥gicamente, a idade madura come√ßa com o casamento, porque o descuidoso brincar de at√© ali substitui-se pelo trabalho e pela responsabilidade, a paix√£o cede diante das limita√ß√Ķes da ordem social – a poesia passa a prosa. Esta mudan√ßa varia com os costumes e o clima; o casamento vem mui tardiamente nas cidades modernas, facto que prolonga a adolesc√™ncia; mas entre os povos do Sul e do Oriente realiza-se em idade bem verde. Os rapazes orientais, diz Stanley Hall, come√ßam a exercer as fun√ß√Ķes de marido aos treze anos, e aos trinta, j√° gastos, recorrem a afrodis√≠acos… Aos trinta anos as mulheres dos climas quentes j√° est√£o velhas. Est√° verificado que o dilatar da adolesc√™ncia prolonga a vida. Se pud√©ssemos retardar a nossa maturidade sexual de modo a coincidir com a nossa maturidade econ√≥mica, prolongando assim a adolesc√™ncia e a fase educativa, erguer√≠amos a civiliza√ß√£o a n√≠vel jamais alcan√ßado.

A Fraqueza dos Nossos Sentidos

A fraqueza dos nossos sentidos impede-nos o gozar das cousas na sua simplicidade natural. Os elementos n√£o s√£o em si como n√≥s os vemos: o ar, a √°gua, e a terra a cada instante mudam, o fogo toma a qualidade da mat√©ria que o produz, e tudo enfim se altera, e se empiora para ser proporcionado a n√≥s. A virtude muitas vezes se acha com mistura de algum v√≠cio; no v√≠cio tamb√©m se podem encontrar alguns raios de virtude; incapazes de um ser constante, e s√≥lido, dificilmente se pode dar em n√≥s virtude sem mancha, ou perfeito v√≠cio: a justi√ßa tamb√©m se comp√Ķe de iniquidade, semelhante √† harmonia, que n√£o pode subsistir sem disson√Ęncia, antes com correspond√™ncia certa, a disson√Ęncia √© uma parte da harmonia. Vemos as cousas pelo modo com que as podemos ver, isto √©, confusamente, e por isso qu√°si sempre as vemos como elas n√£o s√£o.
As paix√Ķes formam dentro de n√≥s um intrincado labirinto, e neste se perde o verdadeiro ser das cousas, porque cada uma delas se apropria √† natureza das paix√Ķes por onde passa. Tomamos por subst√Ęncia, e entidade, o que n√£o √© mais do que um costume de ver, de ouvir, e de entender;

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Da √ćndole dos Homens

A √≠ndole √©, muitas vezes, ocultada; outras, subjugada; quase nunca extinta. A for√ßa faz a √≠ndole mais violenta, em repres√°lia; a doutrina e o discurso tornam-a menos importuna; somente o costume alcan√ßa alter√°-la e refre√°-la. √Äquele que busca vencer a sua pr√≥pria √≠ndole n√£o se deve propor tarefas nem muito grandes nem muito pequenas; as primeiras tornar-le-√£o desalentado ante os sucessivos fracassos; as outras, devido √†s repetidas vit√≥rias, tornar-le-√£o convencido. A princ√≠pio, deve-se adestrar com aux√≠lios, como o fazem os nadadores com bexigas ou corti√ßas; mas ao cabo de certo tempo, √© mister se adestre com desvantagens, como os dan√ßarinos com sapatos pesados. Chega-se a grande perfei√ß√£o quando a pr√°tica √© mais √°rdua do que o uso. Quando a √≠ndole √© pujante e, por consequ√™ncia, dif√≠cil de vencer, o primeiro passo ser√° resistir-lhe e deter-lhe os √≠mpetos a tempo, a exemplo daquele que, quando estava irado, repetia as vinte e quatro letras do alfabeto; em seguida, racion√°-la em quantidade, como o que, proibido de beber vinho, passou dos repetidos brindes a um trago nas refei√ß√Ķes; por fim, anul√°-la de todo.
Não erra o antigo preceito em recomendar que, para endireitar a índole, se a encurve até ao extremo contrário,

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O costume de cair endurece o corpo, ter chegado ao chão, só por si, já é um alívio, Daqui não passarei.

A nossa identidade constr√≥i-se pelo que fazemos. Assim, quando nos deixamos prender e arrastar pelas algemas da monotonia, muitos de n√≥s perdem a oportunidade de uma exist√™ncia plena por n√£o ousarem remar contra as suas pr√≥prias mar√©s de costumes e tradi√ß√Ķes…

A mudan√ßa de costumes √© o √ļnico meio de que dispomos para nos mantermos vivos e rejuvenescermos. √Č esse o objectivo da mudan√ßa de ares e do lugar da viagem de recreio.