Textos sobre Alma de Vergílio Ferreira

6 resultados
Textos de alma de Vergílio Ferreira. Leia este e outros textos de Vergílio Ferreira em Poetris.

Nós Trazemos na Alma uma Bomba

A causa depois do efeito. A minha tese √© esta, minha querida ‚Äď n√≥s trazemos na alma uma bomba e o problema est√° em algu√©m fazer lume para a rebentar. N√≥s escolhemos ser santos ou her√≥is ou traidores ou cobardes e assim. O problema est√° em vir a haver ou n√£o uma oportunidade para isso se manifestar. N√≥s fizemos uma escolha na eternidade. Mas quantos sabem o que escolheram? Alguns t√™m a sorte ou a desgra√ßa de algu√©m fazer lume para rebentarem o que s√£o, ver-se o que estava por baixo do que estava por cima. Mas outros v√£o para a cova na ignor√Ęncia. √Äs vezes fazem ensaios porque a press√£o interior √© muito forte. Ou passam a vida √† espera de um sinal, um ind√≠cio elucidativo. Ou passam-na sem saberem que trazem a bomba na alma que √†s vezes ainda rebenta, mesmo j√° no cemit√©rio. Ou quem diz bomba diz por exemplo uma flor para pormos num sorriso. Ou um penso para pormos num lanho. Mas n√£o sabem.

Afirmação da Verdade

Se queres convencer alguém da tua verdade, não a expliques ou demonstres Рafirma-a. E ela será tanto mais convincente quanto mais força puseres na afirmação. A afirmação é compacta, a demonstração é cheia de buracos. Uma pedra não tem intervalos para os ratos se intervalarem nela. Se queres ser chefe e dominador e senhor, berra o teu sim ou o teu não e deixa aos fracos o talvez. E terás ocupado o baldio das almas humanas em que elas não sabem que semear. E serás histórico, se fores grande, mesmo no crime. Porque o homem é míope de sua natureza e só vê acima do tamanho do boi.

Um Difuso Sentir

Ter uma ideia, um pensamento sobre o que nos aflige é estar longe dele. Sofrer é não pensar ainda, para fora do sentir as coisas num baque na alma. Mas pensar é ao menos ainda viver ao pé do que nos comove. Não me é fácil pensar hoje seja sobre o que for. Como água por borracha, as coisas passam por mim e deixam-me intacto. Que significa no fim da vida o que problematizámos na plenitude? O que ficou foi apenas um difuso sentir com um grande encolher de ombros no meio e um manguito na consciência.

A Verdade é um Modo de Estarmos a Bem Connosco

Cada √©poca, como cada idade da vida, tem o seu secreto e indiz√≠vel e injustific√°vel sentido de equil√≠brio. Por ele sabemos o que est√° certo e errado, sensato e rid√≠culo. E isto n√£o √© s√≥ vis√≠vel no que √© produto da emotividade. √Č vis√≠vel mesmo na manifesta√ß√£o mais neutral como uma not√≠cia ou um an√ļncio de jornal. Donde nasce esse equil√≠brio? Que √© que o constitui? O destr√≥i? Porque √© que se n√£o rebentava a rir com os an√ļncios de h√° cento e tal anos?¬†¬†¬†(Rebent√°mos n√≥s, aqui h√° uns meses, em casa dos Paix√Ķes, ao ler um jornal de 186…). Mas a raz√£o deve ser a mesma por que se n√£o rebentou a rir com a moda que h√° anos us√°mos, os livros rid√≠culos que nos entusiasmaram, as anedotas com que rimos e de que dev√≠amos apenas rir. O homem √©, no corpo como no esp√≠rito, um equil√≠brio de tens√Ķes. S√≥ que as do esp√≠rito, mais do que as do corpo, se reorganizam com mais frequ√™ncia. Equilibrado o esp√≠rito, mete-se-lhe uma ideia nova. Se n√£o √© expulsa, h√° nela a verdade. Porque a verdade √© isso: a inclus√£o de seja o que for no nosso mecanismo sem que lhe rebente as estruturas.

Continue lendo…

A Import√Ęncia de Dostoievski na Literatura

Os dois grandes monumentos do romance que o século passado (XIX) nos legou, ou seja aqueles em que poderemos reconhecer-nos, foram os erguidos por Tolstoi e por Dostoievski. Mas se a lição do primeiro foi facilmente assimilada, a do segundo levou tempo Рe tanto, que só hoje acabámos de entendê-la bem. Significa isto que Tolstoi, com incidências menores de moralização, continua um Balzac, é bem do século XIX. E foi por se pretender à força ligar a esse século também um Dostoievski que ele só tarde se nos revelou, para dominar ainda hoje, diga-se o que se disser, todo o romance europeu. Para usar uma expressão que já usei, não com inteira originalidade, e a que a crítica me ligou, direi que Tolstoi continua o romance-espectáculo e que Dostoievski inaugura o romance-problema.

Dir-se-ia, e com razão, que todo o romance é problema e espectáculo, já que o espectáculo resiste num romance de Kafka ou Dostoievski, e o problema implicita-se numa qualquer narrativa, nem que seja o Amadis de Gaula. Mas é tão visível a deslocação do acento na obra de Dostoievski, que ela foi defendida, para existir, pelo que lhe é inessencial (como por um Brunetière e recentemente um Ernst Fischer,

Continue lendo…

Há Dentro de Nós um Poço

H√° dentro de n√≥s um po√ßo. No fundo dele √© que estamos, porque est√° o que √© mais n√≥s, o que nos individualiza, a fonte do que nos enriquece no em que somos humanos. E a vida exterior, o assalto do que nos rodeia, o que visa √© esse √≠ntimo de n√≥s para o ocupar, o preencher, o esvaziar do que nos pertence e nos faz ser homens. Jamais como hoje esse assalto foi t√£o violento, jamais como hoje fomos invadidos do que n√£o √© n√≥s. √Č l√° nesse fundo que se gera a espiritualidade, a gravidade do sermos, o encantamento da arte. E a nossa luta √© terr√≠vel, para nos defendermos no √ļltimo recesso da nossa intimidade. Porque tudo nos expulsa de l√° Quando essa intimidade for preenchida pelo exterior, quando a materialidade se nos for depositando dentro, o homem definitivamente ter√° em n√≥s morrido.
J√° h√° exemplos disso. Um dos mais perfeitos chama-se robot. √Č invenc√≠vel pensarmos o que ser√° o homem amanh√£. E nenhuma outra imagem se nos imp√Ķe com mais for√ßa. Mas o que desse visionar mais nos enriquece a alma √© que o homem ent√£o ser√° possivelmente feliz. Porque ser homem n√£o √© ter felicidade mas apenas ser humano.

Continue lendo…