Textos sobre Cigarras

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Textos de cigarras escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Tive um Cavalo de Cart√£o

Mulher. A tua pele branca foi um verão que quis viver e me foi negado. Um caminho que não me enganou. Enganou-me a luz e os olhos foscos das manhãs revividas. Enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui, a correr pelos campos todo o dia, a medir as searas pelo tamanho dos braços abertos; enganou-me um sonho de poder ser o filho que fui no teu homem e no teu rosto, no teu filho, nosso. Não há manhãs para reviver, sei-o hoje. Não se podem construir dias novos sobre manhãs que se recordam. Inventei-te talvez, partindo de uma estrela como todas estas. Quis ter uma estrela e dar-lhe as manhãs de julho. As grandes manhãs de julho diante de casa e a minha mãe a acabar o almoço bom e o meu pai a chegar e a ralhar, sem ser a sério, por o almoço não estar pronto e eu sentado na terra, talvez a fazer um barroco, talvez a brincar com o cavalo de cartão. Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto. Quando o meu pai mo trouxe,

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O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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A Boa e a M√° Fama

No mundo sempre correu igual risco a boa como a m√° opini√£o, e na opini√£o de muitos, mais arriscada foi sempre a boa que a m√° fama; porque as grandes prendas s√£o muito ruidosas, e muitas vezes foi reclamo para o perigo mais certo o mais estrondoso ru√≠do. O impertinente canto de uma cigarra nunca motivou aten√ß√Ķes ao curioso ca√ßador das aves. A melodia, sim, do rouxinol, que este sempre despertou o cuidado ao ca√ßador, para lhe aparelhar o la√ßo. A primeira cousa que se esconde dos ca√ßadores com instinto natural, suposta a hist√≥ria por verdadeira, que muitos t√™m por fabulosa, √© o carb√ļnculo, aquele diamante de luz, que lhe comunicou a natureza, como quem conhece que, em seu maior luzir, est√° o seu maior perigar. O ru√≠do que faz a grande fama tamb√©m faz com que o grande seja de todos ro√≠do, quando nas asas da fama se v√™ mais sublimado. Quem em as asas da fama voa tamb√©m padece; porque n√£o h√° asas sem penas, ainda que estas sejam as plumagens, com que o benem√©rito se adorna. S√≥ aos mortos costumamos dizer se fazem honras, e ser√° porque, a n√£o acabarem as honras com a morte, a ningu√©m consentiria aplausos o mundo,

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As M√£es

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto Рnão sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catania, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias,

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A Maravilha da Vida é Tudo Nela Ter Justificação

Desabafo dum amigo, que n√£o encontra justifica√ß√£o para o seu pecado mortal, que √© viver. Viver ao sol, gratuitamente, como um lagarto. Respondi-lhe que a maravilha da vida √© tudo nela ter justifica√ß√£o. √Č, da mais rasteira erva ao mais nojento bicho, n√£o haver presen√ßa no mundo que n√£o seja necess√°ria e insubstitu√≠vel. Que, do contr√°rio, era faltar na terra esta admir√°vel plurival√™ncia, que faz de uma tarde de sol, de trigo e de cigarras o mais assombroso espect√°culo que se pode ver. O medir depois a dist√Ęncia que vai da formiga ao le√£o, da urtiga ao castanheiro, de Nero a S. Francisco de Assis, √© uma casu√≠stica que n√£o tem nada que ver com a torrente de seiva que inunda o mundo de p√≥lo a p√≥lo.
Foi-se, e à tarde apareceu-me com um belo poema.

Caminho da Manh√£

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes.

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