Passagens sobre Agulhas

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Frases sobre agulhas, poemas sobre agulhas e outras passagens sobre agulhas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Poema da Profundidade Horizontal

Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso est√° a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez c√£es que h√° dentro de um c√£o vadio,
os cem homens que h√° dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a √ļnica salva√ß√£o
a m√£o do mar eternamente
na nossa fronte.

Como é que se Esquece Alguém que se Ama?

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa Рcomo é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas t√™m de morrer; os amores de acabar. As pessoas t√™m de partir, os s√≠tios t√™m de ficar longe uns dos outros, os tempos t√™m de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. √Č preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem p√īr-se processos e ac√ß√Ķes de despejo a quem se tem no cora√ß√£o, fazer os maiores escarc√©us, entrar nas maiores peixeiradas, mas n√£o se podem despejar de repente. Elas n√£o saem de l√°. Est√ļpidas! √Č preciso aguentar. J√° ningu√©m est√° para isso, mas √© preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura √© aceitar-se que se est√° doente. √Č preciso paci√™ncia. O pior √© que vivemos tempos imediatos em que j√° ningu√©m aguenta nada. Ningu√©m aguenta a dor. De cabe√ßa ou do cora√ß√£o.

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A Mais Perfeita Imagem

Se eu varresse todas as manh√£s as pequenas
agulhas que caem deste arbusto e o ch√£o
que lhes d√° casa, teria uma met√°fora perfeita para
o que me levou a desamar-te. Se todas as manh√£s
lavasse esta janela e, no fulgor do vidro, além
do meu reflexo, sentisse distrair-se a transparência
que o nada representa, veria que o arbusto n√£o passa
de um inferno, ausente o decassílabo da chama.
Se todas as manh√£s olhasse a teia a enfeitar-lhe os
ramos, também a entendia, a essa imperfeição
de Maio a Agosto que lhe corrompe os fios e lhes
desarma geometria. E a cor. Mesmo se agora visse
este poema em tom de conclus√£o, notaria como o seu
verso cresce, sem rimar, numa prosódia incerta e
descontínua que foge ao meu comum. O devagar do
vento, a eros√£o. Veria que a saudade pertence a outra
teia de outro tempo, não é daqui, mas se emprestou
a um neur√īnio meu, unia mem√≥ria que teima ainda
uma qualquer beleza: o fogo de uma pira funer√°ria.
A mais perfeita imagem da arte. E do adeus.

As M√£es?

Fossem estes dias uma fonte que
brotasse.
Manchas de azul, um rasto de neve em pleno céu,
colmeias,
mel, uma exaltação de asas.

Mas é assim:
metais que revestem a pele e as armaduras,
bronze, ferro, formas que perduram, malhas, ameaçados
tecidos que nos moldam ‚ÄĒ
quem borda ainda,
quem se atreve √† min√ļcia das rendas?

As m√£es?
elas vinham cedo, eram como um rumor de levadas,
atravessando as terras.
Eram as mesmas m√£os trabalhando sedas, afagos e
uma conspiração de cores e agulhas frias,
mães de silêncio bordando a treva e o sono, a longa
noite dos filhos.

Herdei uma beleza amarga,
o temor das sombras, dos rel√Ęmpagos que embatiam
na inf√Ęncia,
no dorso das colinas,
no coração mais triste.

Um estrondo de muralhas, diques, batalhas que
deflagram,
uma ciência aterradora:
não quero outra véspera de espadas, a coroação do
sangue,
patíbulos onde a cabeça se expande,
rolando como a poeira e os astros,
repercutindo como um sino no choro das m√£es.

N√£o quero um bordado de horas antigas,

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Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus l√°bios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser m√ļsica
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e naveg√°vel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas √°guas nuas.

A Quimera da Felicidade

(…) do alto de uma montanha, inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, atrav√©s de um nevoeiro, uma cousa √ļnica. Imagina tu, leitor, uma redu√ß√£o dos s√©culos, e um desfilar de todos eles, as ra√ßas todas, todas as paix√Ķes, o tumulto dos imp√©rios, a guerra dos apetites e dos √≥dios, a destrui√ß√£o rec√≠proca dos seres e das cousas. Tal era o espect√°culo, acerbo e curioso espect√°culo. A hist√≥ria do homem e da terra tinha assim uma intensidade que n√£o lhe podiam dar nem a imagina√ß√£o nem a ci√™ncia, porque a ci√™ncia √© mais lenta e a imagina√ß√£o mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensa√ß√£o viva de todos os tempos. Para descrev√™-la seria preciso fixar o rel√Ęmpago. Os s√©culos desfilavam num turbilh√£o, e, n√£o obstante, porque os olhos do del√≠rio s√£o outros, eu via tudo o que passava diante de mim, – flagelos e del√≠cias, – desde essa cousa que se chama gl√≥ria at√© essa outra que se chama mis√©ria, e via o amor multiplicando a mis√©ria, e via a mis√©ria agravando a debilidade. A√≠ vinham a cobi√ßa que devora, a c√≥lera que inflama, a inveja que baba,

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Somos demasiado pequenos, somos muito pouco. Somos uma agulha de pinheiro diante de um incêndio, somos um grão de terra diante de um terramoto, somos uma gota de orvalho diante de uma tempestade.

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era ver√£o
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras m√£os que lentas barcas
vai-se aproximando a √°gua

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
t√£o fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Louvor A Unidade

“Escafandros, arp√Ķes, sondas e agulhas
“Debalde aplicas aos heterog√™neos
“Fen√īmenos, e, h√° in√ļmeros mil√™nios,
“Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas!

“Une, pois, a irmanar diamantes e hulhas,
“Com essa intui√ß√£o mon√≠stica dos g√™nios,
“√Ä hirta forma falaz do are perennius
“A transitoriedade das fagulhas!”

– Era a estrangula√ß√£o, sem retumb√Ęncia,
Da multimilen√°ria disson√Ęncia
Que as harmonias siderais invade…

Era, numa alta aclamação, sem gritos,
O regresso dos √°tomos aflitos
Ao descanso perpétuo da Unidade!

Talvez o Vento Saiba

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas n√£o transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.

As sereias que ouvi n√£o mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a inf√Ęncia teceu entre sarga√ßos
as agulhas do tempo j√° n√£o bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por in√ļteis, n√£o concordam

sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

Atrás é onde melhor se vê e menos se é visto. Certo é o ditado: se a agulha cai no poço muitos espreitam, mas poucos descem a buscá-la.

A vida j√° √© um buraco de agulha t√£o estreitinho, e as suas obriga√ß√Ķes, camelos t√£o gordos e abastecidos, que passar tr√™s quartos do ano a magicar numa distin√ß√£o manique√≠sta entre mulheres decentes e gald√©rias perniciosas, entre c√£ezinhos de rua e pr√≠ncipes encantados, √© matem√°tica t√£o intricada como a dos fanatismos religiosos, pol√≠ticos ou mesmo club√≠sticos: passamos uma vida inteira a identificar bons e maus ‚Äď e, quando finalmente percebemos a soma zero do problema, j√° estamos com a pele encarquilhada e a tomar comprimidos para a tens√£o arterial.

M√£e

Intacta como o silêncio. Terra
Na terra, dela te alimentas e, serena,
A adubas, como orvalho às manhãs.
Fantasma de ti, não; e, como espírito, ardes
Por entre. Ciprestes e ventos. E sóis e
Noites. Mas ardes. E falas. Fétida mi-
Nera√ß√£o de ossos transl√ļcidos
Do azul que me legaste
Ao descer-te as p√°lpebras na hora verdadeira.
Intacta como os ventos que n√£o vieram
E aguardam a hora de soltar-se.
Intacta por sob. Mas intacta. Pura,
De terra e de sonho. N√£o sa-u-d-a-
De nem fantasma, n√£o. Alegria.
Como o ser. Como a ladainha que te cantei, tu sabes

Quando. ALEGRIA. Como quando os olhos
N√£o sabiam de l√°grimas. Ou sabiam,
Como se n√£o existissem sen√£o para.
Saber-te lá onde és (aqui, tão pertinho,
Onde o teu sopro se fechou… ) Alegria
Ainda e sempre… Intacta. Casta toda
Como os m√°rmores que n√£o quis a emoldurar
Teu corpo de terra. Casta como os ventos.
Ardência solar da meia-tarde de cada dia,
Claridade que me nasces no ¬ębom-dia¬Ľ
Que nos damos, por sob o sol e a chuva
Das horas e dos dias.

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O Amor

Estou a amar-te como o frio
corta os l√°bios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulner√°vel

A marcar sobre os teus flancos
o itiner√°rio da espuma

Assim é o amor: mortal e navegável.

Mais do que Amor

O amor veio afirmar todas as coisas velhas de cuja exist√™ncia apenas sabia sem nunca ter aceito e sentido. O mundo rodava sob seus p√©s, havia dois sexos entre os humanos, um tra√ßo ligava a fome √† saciedade, o amor dos animais, as √°guas das chuvas encaminhavam-se para o mar, crian√ßas eram seres a crescer, na terra o broto se tornaria planta. N√£o poderia mais negar… o qu√™? ‚ÄĒ perguntava-se suspensa. O centro luminoso das coisas, a afirma√ß√£o dormindo em baixo de tudo, a harmonia existente sob o que n√£o entendia.

Erguia-se para uma nova manh√£, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na √°gua. Cada acontecimento vibrava em seu corpo como pequenas agulhas de cristal que se espeda√ßassem. Depois dos momentos curtos e profundos vivia com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-se a tudo. Parecia-lhe fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente ter-se distanciado dos homens. Apesar de que nesse per√≠odo conseguia estender-lhes a m√£o com uma fraternidade de que eles sentiam a fonte viva. Falavam-lhe das pr√≥prias dores e ela, embora n√£o ouvisse, n√£o pensasse, n√£o falasse, tinha um olhar bom ‚ÄĒ brilhante e misterioso como o de uma mulher gr√°vida.

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