Passagens sobre Dormentes

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Frases sobre dormentes, poemas sobre dormentes e outras passagens sobre dormentes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

N√£o te Arrependas

N√£o te arrependas, Amada, porque a mim t√£o depressa
te deste!
Podes crer, nem por isso de ti penso coisas insolentes
e vis!
Vária é a acção das setas do Amor: algumas arranham,
E do rastejante veneno languesce pra anos o peito.
Mas, com penas potentes e gume afiado de fresco,
Outras penetram até ao tutano e rápido inflamam
o sangue.
Nos tempos heróicos, quando Deuses e Deusas amavam,
Ao olhar seguia o desejo, ao desejo o prazer.
Crês tu que a Deusa do Amor pensou muito tempo
Quando no bosque de Ida um dia Anquises lhe
agradou?
Se Luna tardasse a beijar o belo dormente,
Auiora, invejosa, em breve o teria acordado.
Hero descobriu Leandro no festim ruidoso, e ligeiro,
Ardente saltou o amante pra a corrente nocturna.
Rhea Sílvia, a virgem princesa, vai descuidosa
Buscar √°gua ao Tibre, e o Deus dela se apossa.
Assim Marte gerou os seus filhos! ‚ÄĒ Uma loba
amamenta
Os Gémeos, e Roma nomeia-se princesa do mundo.

Tradução de Paulo Quintela

A Graça

Que harmonia suave
√Č esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
N√£o sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

√Čs tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solid√£o do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: ¬ęAcorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.¬Ľ
√Čs tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e p√ļrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
√Čs tu, √©s tu!, que ao p√īr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus,

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Romantismo

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pous√°-lo no vento!

Quem tivesse um amor – longe, certo e imposs√≠vel –
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de l√°grimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado…

Quem tivesse um amor, sem d√ļvida e sem m√°cula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria…
Ah! quem tivesse… (Mas, quem teve? quem teria?)

Dispers√£o

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
√Č com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na √Ęnsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida…

Para mim é sempre ontem,
N√£o tenho amanh√£ nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é familia,
√Č bem-estar, √© singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem familia).

O pobre mo√ßo das √Ęnsias…
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas √Ęnsias.

A grande ave dourada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traíu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho,

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Juízo

Quando, nos quatro √Ęngulos da Terra,
Troarem as trombetas ressurgentes,
Despertadoras dos mortais dormentes,
Por onde um Deus irado aos homens berra:

Prontos, num campo, em apinhada serra,
Todos nus assistir devem viventes
Ao Juízo Final e ver, patentes,
Seus delitos, que um livro eterno encerra.

Então, aberto o Céu, e o Inferno aberto,
Todos ali ver√£o: e a sorte imensa
Duma m√°goa sem fim, dum gozo certo.

Ver√£o recto juiz pesar a ofensa
Na balança integral, e o justo acerto,
Dando da vida e morte igual sentença.

A Tua Boca

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um t√ļnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de √°gua
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Podes Ter os Amores que Quiseres…

Podes dizer que me n√£o amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!

Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes…

N√£o creias no remorso
– o remorso n√£o existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
s√£o o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!…

N√£o julgues, n√£o, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
h√°-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!

Bailados do Luar

Pétalas de rosas
tombam lentamente, silenciosas…
E de vagar
vem entrando
a far√Ęndola r√≠tmica
e silente
dos g√≥ticos bailados do luar!…

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido…
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
p√°lido e vencido!…

No espaço azul e vago,
esvoaça subtiltmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!…

Estilhaçam-se, vibrando
numa √Ęnsia doentia,
os meus nervos nost√°lgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado…

As rosas v√£o tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada…
dos esp√°smicos beijos do luar…
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,

a procurar-te!

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À Luz da Lua!

Iamos sós pela floresta amiga,
Onde em perfumes o luar se evola,
Olhando os céus, modesta rapariga!
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos dormentes de fadiga,
Meio cerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa ballada antiga
D’uns noivos mortos ao cingir da estola…

A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
Cobria com os seus os teus cabellos
E dava-te um aspeto de velhinha!

Que linda eras, o luar que o diga!
E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
E ambos scismando na floresta amiga…

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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Monja

√ď Lua, Lua triste, amargurada,
Fantasma de brancuras vaporosas,
A tua nívea luz ciliciada
Faz murchecer e congelar as rosas.

Nas flóridas searas ondulosas,
Cuja folhagem brilha fosforeada,
Passam sombras angélicas, nivosas,
Lua, Monja da cela constelada.

Filtros dormentes d√£o aos lagos quietos,
Ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
Que v√£o pelo ar, noct√Ęmbulos, pairando…

Então, ó Monja branca dos espaços,
Parece que abres para mim os braços,
Fria, de joelhos, tr√™mula, rezando…

Eu Sou Nost√°lgica Demais

De s√ļbito a estranheza. Estranho-me como se uma c√Ęmera de cinema estivesse filmando meus passos e parasse de s√ļbito, deixando-me im√≥vel no meio de um gesto: presa em flagrante. Eu? Eu sou aquela que sou eu? Mas isto √© um doido faltar de sentido! Parte de mim √© mec√Ęnica e autom√°tica ‚ÄĒ √© neurovegetativa, √© o equil√≠brio entre n√£o querer e o querer, do n√£o poder e de poder, tudo isso deslizando em plena rotina do mecanicismo. A c√Ęmera fotogr√°fica singularizou o instante. E eis que automaticamente sa√≠ de mim para me captar tonta de meu enigma, diante de mim, que √© ins√≥lito e estarrecedor por ser extremamente verdadeiro, profundamente vida nua amalgamada na minha identidade. E esse encontro da vida com a minha identidade forma um min√ļsculo diamante inquebr√°vel e radioso indivis√≠vel, um √ļnico √°tomo e eu toda sinto o corpo dormente como quando se fica muito tempo na mesma posi√ß√£o e a perna de repente fica ¬ęesquecida¬Ľ.
Eu sou nostálgica demais, pareço ter perdido uma coisa não se sabe onde e quando.

Musica Misteriosa

Tenda de Estrelas níveas, refulgentes,
Que abris a doce luz de alampad√°rios,
As harmonias dos Estradivarius
Erram da Lua nos clar√Ķes dormentes…

Pelos raios fluídicos, diluentes
Dos Astros, pelos trêmulos velários,
Cantam Sonhos de místicos templários,
De ermit√Ķes e de ascetas reverentes…

C√Ęnticos vagos, infinitos, a√©reos
Fluir parecem dos Azuis etéreos,
Dentre os nevoeiros do luar fluindo…

E vai, de Estrela a Estrela, a luz da Lua,
Na l√°ctea claridade que flutua,
A surdina das l√°grimas subindo…

Nascente

Quando sinto de noite
o teu calor dormente
e devagar
para que n√£o despertes
digo: cedro azul,
terra vegetal,
ou só
amor, amor;
quando te acaricio
e devagar
para que n√£o despertes
tomo na m√£o direita
as duas fontes, iguais, da vida,
procuro a nascente
e adormeço
nela essa m√£o depositando.

A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada.

Entardecer

Sol-posto ungindo o mar: incensos de ouro!

Recolhe funda a tarde em sonho e m√°goa.
Surdina fluida: anda o sil√™ncio a orar ‚Äď
E h√° crep√ļsculos de asas e, na √°gua,
O céu é mármore extático a cismar!

E nas faces marmóreas dos rochedos
Esboçam-se perfis,
– Cintila√ß√Ķes,
Penumbra de segredos!

√ď pain√©is de nuvens sobre a terra,
Ogivas delirantes
Na água refractando…
Encheis de sombra o mar de espumas rasas,
Iniciando
A hora p√Ęnica das asas!

E, à meia luz da tarde,
Na areia requeimada,
S√£o vultos sonolentos
As proas dos navios…

√ď tristeza dos bal√Ķes
Iluminando,
Na √°gua prateada,
Os pegos e baixios…

Dormentes constela√ß√Ķes
Que, em fundos lacustres
E musgosos,
Pondes reverbera√ß√Ķes
Em nossos olhos ansiosos.

√ď tardes de aqu√°tico esplendor,
Descendo em meu olhar!

Num sonho de regresso,
Numa √Ęnsia de voltar,
Em mim todo me esqueço
E fico-me a cismar.

A tarde é toda um sonho moribundo.
√Č j√° olor da cor que amorteceu.

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