Passagens de Joel Neto

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Frases, pensamentos e outras passagens de Joel Neto para ler e compartilhar. Os melhores escritores estão em Poetris.

Conheço vários solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condição de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. Não se casam por inércia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas é por uma vida a dois que suspiram.

Pais Aprisionados

As crianças tornaram-se uma arma de arremesso à medida de quase tudo. Justificam as discussões entre marido e mulher, justificam a falta de generosidade para com o próximo, justificam a indisponibilidade e a inacção em geral – e no fim, em muitos casos (…), ainda nos absolvem pelo fracasso a que, pulverizados os sonhos da infância, os objectivos da juventude e as agendas da primeira idade adulta, nos vemos a certa altura obrigados a resumir o balanço das nossas vidas. E talvez haja, afinal, uma certa racionalidade no cosmos. Talvez haja uma razão para nunca, até hoje, nós não termos tido filhos, eu e outros como eu. Talvez nenhum de nós esteja ainda pronto para resistir à inevitável tentação de transformar os filhos num desmentido oficial para a nossa frustração. Talvez, no dia em que os tivermos, estejamos já preparados para conter o impulso de culpá-los por essa frustração. E talvez sejamos nós, enfim, os primeiros a fugir à inclinação para considerar que a nossa vida apenas começou no dia em que começou a vida dos nossos filhos. Até porque, disto tenho eu a certeza, filhos de pais cuja memória alcança para além do dia do primeiro parto resultam sempre em adultos mais saudáveis,

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As pessoas zangam-se pouco, hoje em dia. Pouco e mal. Anda tudo cheio de “social skills” e de terapia comportamental e de sei lá mais o quê.

Não havia elegância como a da mulher em cujos silêncios se podia desvendar o mundo, dos pequenos mistérios ao próprio segredo da Criação.

Onde quer que haja mais de dois homens, há também duas capelinhas, formadas e desfeitas ao sabor dos pactos de circunstâncias e das susceptibilidades acumuladas.

Era sempre assim, quando eu voltava à terra: as coisas começavam por parecer pequenas, quase mirradas submetidas pelo meu olhar de Lisboa, e só depois iam crescendo, até recuperarem as formas grandiloquentes da infância. Era então que me considerava de volta a casa.

Mantenha-se longe da política e tão longe dos políticos quanto conseguir. E, sempre que der por si de candeias às avessas com as pessoas, refugie-se na paisagem.

A culpa podia não passar de um luxo burguês. Mas toda a gente tinha direito ao seu.

Era uma criatura simpática e terna – o tipo de pessoa a quem o tímido se dirige, em busca de protecção, ao entrar numa sala que lhe parece hostil. Não haveria muitas qualidades francamente superiores a essa.

A vida já é um buraco de agulha tão estreitinho, e as suas obrigações, camelos tão gordos e abastecidos, que passar três quartos do ano a magicar numa distinção maniqueísta entre mulheres decentes e galdérias perniciosas, entre cãezinhos de rua e príncipes encantados, é matemática tão intricada como a dos fanatismos religiosos, políticos ou mesmo clubísticos: passamos uma vida inteira a identificar bons e maus – e, quando finalmente percebemos a soma zero do problema, já estamos com a pele encarquilhada e a tomar comprimidos para a tensão arterial.

O Lugar Certo

O tempo mudava de um momento para o outro, juntando, no curto espaço de vinte e quatro horas, a Primavera e o Outono, o Verão e até Inverno. Mas José Artur sentia-se vivo como um lobo das estepes libertado. Tinha a tensão alta dos heróis românticos e, em muitas circunstâncias, dava por si a citar Thoreau:

“Fui para os bosques viver de livre vontade. Vara sugar todo o tutano da vida, para aniquilar tudo o que não era vida e para, quando morrer, não descobrir que não vivi.”

Lamentava que Darwin ou Twain não tivessem encontrado naquelas ilhas o mesmo que ele encontrava agora, mas percebeu que, no século dezanove, ainda restavam outros paraísos no planeta. E, de qualquer modo, havia Chateaubriand, Raul Brandão, até Melville, impressionado com a valentia dos marinheiros das ilhas a leste de Nantucket. Não, ele não estava louco. Havia uma sabedoria naquilo — havia ecos e refracções, como se algo de mais profundo se insinuasse. Tinha a certeza de que, se a terra tremesse agora, conseguiria senti-la.

Aquele era o seu lugar. Não havia por que sentir falta dos privilégios da cidade. Um homem que soubesse povoar-se tinha alimento para uma vida na fotografia de um labandeira,

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[Futebol] O penálti é coragem, mais até do que habilidade – e é nos penáltis que o futebol se aproxima em definitivo da vida.

Gosto de uma mulher com defeitos – e um ponderado excesso de carnes, às vezes, é o mais belo deles. Bem vistas as coisas, a formosura pode conviver com a gordura. O que não pode nunca é conviver com a transparência, com a falta de história, com a ausência de profundidade.

[Futebol] É uma fórmula, o penálti. Uma equação com três parcelas: força, colocação e dissimulação. Observar duas delas é sempre suficiente para penetrar nos jardins do Olimpo. Um penálti marcado com força, bem colocado, e em que o guarda-redes seja enganado, entra sempre. Mas um penálti forte e colocado também entra, mesmo sem dissimulação. Um penálti dissimulado e forte sobreviverá sem colocação. E um penálti colocado e dissimulado é sempre golo, ainda que não tenha muita força. É a ciência ao serviço da arte. Sim: o penálti é o mínimo múltiplo comum entre arte e ciência.

Vender seguros, e por muito que de início me tenha entusiasmado a ideia de ter um emprego a sério, uma vaga independência financeira e uma determinada margem de progressão hierárquica, tão mais considerável quanto me encontrava rodeado de retardados mentais, está muito longe de constituir, para mim, a concretização de um sonho de infância.

“Mulher solteira e feliz” é uma contradição de termos tão grande como “homem solteiro e feliz”. Chamem-me nomes, se quiserem – até este dia em que vos escrevo, não encontrei um só caso que contradissesse essa ideia, por muito que homens e mulheres solteiros me rodeassem de manifestações de autoconfiança, verdades absolutas sobre o conhecimento interior e provas iniludíveis da mais autêntica e inabalável felicidade a um.

Um bigode é muito mais do que uma pilosidade: é uma metafísica. Vem acompanhado de conversas sobre a necessidade de estudar para ser alguém na vida, a utilidade de amortizar o crédito à habitação, a urgência de substituir as velas do carro, a saudade de quando o fado era o fado, a rádio era a rádio e a Amália Rodrigues cantava o fado na rádio, tanto na Emissora Nacional como na Voz de Lisboa.