Passagens sobre Juiz

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Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.

Usos Deste Mundo

Nas praças uns perguntam novidades;
Outros dão volta às ruas, ao namoro;
Este usuras cobrar, esse as demandas
Lembrar corre ao Juiz que se diverte.
Ir de Jano aprender a ser bifronte,
De Merc√ļrio, no trato, a ser bilingue,
Franco no prometer, no dar escasso.
C’os olhos fitos no √°vido interesse
Ser consigo leal, com todos falso
√Č ser homem capaz, home’ entendido.
Assim, que vemos nós por este esconso
Mundo? Vemos logr√Ķes, vemos logrados;
Ningu√©m v√™s ir com c√Ęndido desejo
Aos Sénecas, aos Sócrates de agora
Perguntar as li√ß√Ķes t√£o necess√°rias
De ser honrado, ser com todos justo.
Tão sobejos se crêem de honra e virtude,
Que cuida cada um poder de sobra
Mostrar na Ocasi√£o virtude a rodo,
E chega a Ocasi√£o, falha a virtude.

Títulos e Diplomas

Parece que a humanidade s√≥ se esfor√ßa enquanto tem a esperar diplomas idiotas, que pode exibir em p√ļblico para obter proveitos, mas, quando j√° tem na m√£o tais diplomas idiotas em n√ļmero suficiente, deixa-se levar. Ela vive em grande parte s√≥ para obter diplomas e t√≠tulos, n√£o por qualquer outra raz√£o, e, depois de ter obtido o n√ļmero de diplomas e t√≠tulos que, na sua opini√£o, √© suficiente, deixa-se cair na cama macia desses diplomas e t√≠tulos. Ela n√£o parece ter qualquer outro objectivo para a vida. N√£o tem, segundo parece, qualquer interesse numa vida pr√≥pria, independente, numa exist√™ncia pr√≥pria, independente, mas apenas nesses diplomas e t√≠tulos, sob os quais a humanidade h√° j√° s√©culos amea√ßa sufocar.
As pessoas não procuram independência e autonomia, não procuram a sua própria evolução natural, mas apenas esses diplomas e títulos e estariam, a todo o momento, prontas a morrer por esses diplomas e títulos, se lhos entregassem e dessem sem qualquer condição, esta é que é a verdade desmascaradora e deprimente. Tão pouco estimam elas a vida em si que só vêem os diplomas e títulos e nada mais. Elas penduram nas paredes das suas casas os diplomas e títulos, nas casas dos mestres talhantes e dos filósofos,

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Cada Homem Habita em Todos os Outros

Vossemec√™ aprendeu a desenhar v√°-se l√° saber onde e os seus desenhos parecem-se muito com as coisas, n√£o haja d√ļvida. Mas nenhum homem consegue p√īr o mundo inteiro num livro. Assim como um livro onde todas as coisas estivessem desenhadas n√£o seria o mundo.
Muito bem, Marcus, respondeu o juiz.
Mas n√£o me desenhe a mim, disse Webster. Porque eu n√£o quero fazer parte do seu livro.
O meu livro ou outro livro qualquer, disse o juiz. O que h√°-de vir n√£o se desvia nem um bocadinho do livro onde est√° escrito. Como poderia desviar-se? O livro seria falso, e um livro falso nem sequer merece tal nome.
Vossemecê fala por enigmas como ninguém e eu não vou terçar palavras consigo. Só lhe peço que não ponha a minha venerável carantonha nesse seu caderno porque não me agrada que ande a mostrá-la por aí, se calhar a estranhos.
O juiz sorriu. Seja no meu livro ou não, cada homem habita em todos os outros e em troca alberga-os em si e assim por diante numa infindável complexidade de ser e testenunha até aos confins do mundo.

Douto, Prudente, Nobre, Humano, Af√°vel

Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado, casado com uma filha de Sebastião Barbosa, Capitão de infantaria do III da Praça da Bahia.

Douto, prudente, nobre, humano, af√°vel.
Reto, ciente, benigno e aprazível.
Único, singular, raro, inflexível.
Magnífico, preclaro, incomparável.

Do mundo grave juiz. Inimit√°vel.
Admirado, gozais aplauso incrível,
Pois a trabalho tanto e tão terrível,
Dais pronto execução sempre incansável.

Vossa fama, senhor, seja notória
L√° no clima onde nunca chega o dia.
Onde do Erebo só se tem memória

Para que garbo tal, tanta energia!
Pois de toda esta terra é gentil glória,
Da mais remota seja uma alegria.

Juízo

Quando, nos quatro √Ęngulos da Terra,
Troarem as trombetas ressurgentes,
Despertadoras dos mortais dormentes,
Por onde um Deus irado aos homens berra:

Prontos, num campo, em apinhada serra,
Todos nus assistir devem viventes
Ao Juízo Final e ver, patentes,
Seus delitos, que um livro eterno encerra.

Então, aberto o Céu, e o Inferno aberto,
Todos ali ver√£o: e a sorte imensa
Duma m√°goa sem fim, dum gozo certo.

Ver√£o recto juiz pesar a ofensa
Na balança integral, e o justo acerto,
Dando da vida e morte igual sentença.

Julgar os outros leva-nos √† hipocrisia. E Jesus define mesmo como ¬ęhip√≥critas¬Ľ aqueles que se p√Ķem a julgar os outros. Porque a pessoa que julga erra, confunde-se e acaba derrotada. Quem julga engana-se sempre. E engana-se porque assume o lugar de Deus, que √© o √ļnico juiz.

O nosso juiz é o Senhor, e se te vier à boca uma palavra de juízo sobre este ou aquele, fecha a boca.

Um grande objectivo torna-vos superior, n√£o somente √†s vossas ac√ß√Ķes e aos vossos ju√≠zes, mas √† pr√≥pria justi√ßa.

A Juventude e a Literatura

Os jovens s√£o, geralmente, melhores ju√≠zes das obras destinadas a estimular sentimentos e imagens do que os homens maduros ou velhos. Mas por outro lado, v√™-se que os jovens que n√£o s√£o educados para a leitura procuram nela um prazer mais do que humano, infinito, e de caracter√≠sticas absurdas; e n√£o encontrando isso nela, desprezam os escritores; o que por vezes acontece tamb√©m noutras idades, por raz√Ķes id√™nticas, com os iliteratos.

E aqueles jovens que se dedicam √†s letras facilmente preferem, n√£o s√≥ quando escrevem mas tamb√©m quando avaliam as obras dos outros, o excessivo ao moderado, a sumptuosidade ou a afecta√ß√£o das express√Ķes e dos ornamentos ao simples e ao natural, e as belezas ilus√≥rias √†s verdadeiras, em parte devido √† sua pouca experi√™ncia e em parte ao arrebatamento pr√≥prio da idade. Donde se deduz que os jovens, que s√£o sem d√ļvida, entre todos os homens, aqueles que est√£o mais dispostos a louvar o que lhes parece bom, por serem mais sinceros e ing√©nuos, raramente s√£o capazes de apreciar a h√°bil e perfeita boa qualidade das obras liter√°rias. Com o avan√ßar dos anos, aumenta a capacidade que se adquire com o treino e diminui a natural. Contudo,

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A Função do Escritor

Que o mundo ¬ęest√° infestado com a esc√≥ria do g√©nero humano¬Ľ √© perfeitamente verdade. A natureza humana √© imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura √© separar o trigo do joio √© rejeitar a pr√≥pria literatura. A literatura art√≠stica √© assim chamada porque descreve a vida como realmente √©. O seu objectivo √© a verdade – incondicional e honestamente. O escritor n√£o √© um confeiteiro, um negociante de cosm√©ticos, algu√©m que entret√©m; √© um homem constrangido pela realiza√ß√£o do seu dever e a sua consci√™ncia. Para um qu√≠mico, nada na terra √© puro. Um escritor tem de ser t√£o objectivo como um qu√≠mico.
Parece-me que o escritor n√£o deveria tentar resolver quest√Ķes como a exist√™ncia de Deus, pessimismo, etc. A sua fun√ß√£o √© descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunst√Ęncias. O artista n√£o deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objectivo,

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Se a Ciência é Vida, Sábio é só o Néscio

Pesa o decreto atroz do fim certeiro.
Pesa a sentença igual do juiz ignoto
Em cada cerviz n√©scia. √Č entrudo e riem.
Felizes, porque neles pensa e sente
A vida, que n√£o eles!

Se a ciência é vida, sábio é só o néscio.
Quão pouca diferença a mente interna
Do homem da dos brutos! Sus! Deixai
Brincar os moribundos!

De rosas, inda que de falsas teçam
Capelas veras. Breve e vão é o tempo
Que lhes é dado, e por misericórdia
Breve nem v√£o sentido.