Textos sobre Anjos

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Textos de anjos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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A Certeza do Nosso Amor

A certeza do nosso amor era calma. Ao escrever, algo de nós se tocava. Ao escrever, sentia-a passar por mim, sentia-a atravessar-me. Depois, fechava os olhos e via-a sorrir. Ainda dentro de mim, mas um pouco do seu rosto de anjo e da lonjura do seu olhar e dos seus gestos brandos a existir na página, no texto. Às vezes, levantava-me, segurava as folhas a tremerem-me na mão e lia devagar. Após cada frase, parava e ouvia-a lida na memória. Ela era o texto. Cada palavra a dizia, cada palavra era o nome dos seus gestos e de tudo o que em si era belo. Ela era o sentido das palavras. Ela não era nem material, nem imaterial. Ela era o sentido das palavras. Nem sequer terra, nem sequer céu, estrelas, noite. Existia para lá do que podemos tocar ou entender. Ela era aquilo que existia, porque era sentida por mim. Existia dentro de mim e existia no texto para quem o lesse. Existia porque existia, porque existia para ser sentida. As noites passavam e conhecíamo-nos. Por ela estar dentro de mim e dentro do texto escrito pela minha mão, cheguei a pensar que era parte de mim. Enganei-me. Ela era maior do que eu.

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O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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Mau Feitio

Amo demasiado o universo para viver com um √ļnico ser. Como entender-me com um ser humano sem o ofender em nome de todos? Dem√≥nio, n√£o consigo entender-me com Deus; anjo, com o dem√≥nio.

O Amor Maior

O amor é preocupação. Ter o coração já previamente ocupado. Ter medo que alguma coisa de mal aconteça à pessoa amada. Sofrer mais por não poder aliviar o sofrimento da pessoa amada do que ela própria sofre.
O amor √© banal. √Č por isso que √© t√£o bonito. O que se quer da pessoa amada: antes que ela nos ame tamb√©m, √© que ela seja feliz, que seja saud√°vel, que tudo lhe corra bem. Embora se saiba que o mundo n√£o o permite, passa-se por cima da realidade, do racioc√≠nio do que √© poss√≠vel, e quer-se, e espera-se, que Deus abra, no caso dela, uma excep√ß√£o.

A paix√£o pode parecer mais interessante. Mas irrita-me que se compare com o amor. Como se pode comparar dois sentimentos que n√£o t√™m uma √ļnica semelhan√ßa? Se o amor e a paix√£o coincidem, √© como a cor do c√©u e do mar num dia de Ver√£o ‚ÄĒ √© uma alegria, mas nada nos diz acerca do que distingue o ar da √°gua.
Dizer que o amor pode começar como paixão é uma forma falaciosa de estabelecer uma continuidade entre uma e outra, geralmente pejorativa para o amor, que é entendido como um resíduo da paixão,

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Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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A Riqueza de Espírito no Estado de Doença

Considerando como a doen√ßa √© comum, como √© tremenda a mudan√ßa espiritual que traz, como √© espantoso quando as luzes da sa√ļde se apagam, as regi√Ķes por descobrir que se revelam, que extens√Ķes desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe nos faz ver, que precip√≠cios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura exp√Ķe, que antigos e rijos carvalhos s√£o desenraizados em n√≥s pela ac√ß√£o da doen√ßa, como nos afundamos no po√ßo da morte e sentimos as √°guas da aniquila√ß√£o fecharem-se acima da cabe√ßa e acordamos julgando estar na presen√ßa de anjos e harpas quando tiramos um dente, vimos √† superf√≠cie na cadeira do dentista e confundimos o seu ¬ębocheche… bocheche¬Ľ com sauda√ß√£o da divindade debru√ßada no ch√£o do c√©u para nos dar as boas-vindas – quando pensamos nisto, como tantas vezes somos for√ßados a pensar, torna-se realmente estranho que a doen√ßa n√£o tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, as batalhas e o ci√ļme, por entre os principais temas da literatura.

A Vida como Luta entre a Realidade e o Sonho

Somos um sonho divino que n√£o se condensou, por completo, dentro dos nossos limites materiais. Existe, em n√≥s, um limbo interior; um vago sentimental e original que nos d√° a faculdade mitol√≥gica de idealizar todas as coisas. (…) Se f√īssemos um ser definido, ser√≠amos ent√£o um ser perfeito, mas limitado, materializado como as pedras. Ser√≠amos uma est√°tua divina, mas n√£o poder√≠amos atingir a Divindade. Ser√≠amos uma obra de arte e n√£o vivente criatura, pois a vida √© um excesso, um √≠mpeto para al√©m, uma for√ßa imaterial, indefinida, a alma, a imperfei√ß√£o.
A vida √© uma luta entre os seus aspectos revelados e o limbo em que eles se perdem e ampliam at√© √† suprema dist√Ęncia imagin√°vel; uma luta entre a realidade e o sonho, a Carne e o Verbo.
Entre n√≥s, o Verbo n√£o encarnou inteiramente. Somos corpo e alma, verbo encarnado e verbo n√£o encarnado, a mat√©ria e o limbo, o esqueleto de pedra e um fumo que o enconbre e ondula em volta dele, e dan√ßa aos ventos da loucura…
E aí tendes um pobre tolo sentimental, uma caricatura elegíaca.
Neste limbo interior, neste infinito espiritual, vive a lembrança de Deus que alimenta a nossa esperança,

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O Homem Pensador e a Mulher Faladora

O homem pensador √© necessariamente taciturno. A mulher faladora n√£o consegue atordoar-lhe o esp√≠rito, mas faz-lhe nos ouvidos a traquinada intoler√°vel de uma matraca. A matraca afuguenta do cora√ß√£o todas as quimeras do amor. N√£o vos caseis com homem pensador, mulheres que falais um momento antes de pensar o que direis. O amor ‚ÄĒse vo-lo pode inspirar tal homem‚ÄĒfar√° que n√£o fecheis olhos velando-lhe a doen√ßa; far√° que lhe sacrifiqueis os haveres, a reputa√ß√£o e a vida; far√° tudo que humanamente pode fazer um anjo de sacrif√≠cio, mas n√£o vos far√° calar. O feudo mais pesado que uma tal mulher p√īde imp√īr a um homem √© ‚ÄĒ a obriga√ß√£o de ouvi-la.

A ofensa que tal mulher nunca perdoa √© ‚ÄĒ a insol√™ncia de ouvi-la, sem escut√°-la. Vejam num dicion√°rio a diferen√ßa das duas palavras. Escutar √© querer ouvir. Uma bela mulher, capaz de extremos, tentou a franqueza do amante que, em v√©speras de matrimonio, lhe disse: ¬ęn√£o faltes tanto.¬Ľ A noiva pesou estas palavras, reflectiu, calculou as suas for√ßas, chorou, atormentou-se, e disse: ¬ęn√£o me casarei: √© imposs√≠vel calar-me.¬Ľ Para que me n√£o tomem isto como anedota, √© preciso dizer-lhes que esta mulher foi acerbamente ferida no seu orgulho.

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Crónica de Natal

Todos os anos, por esta altura, quando me pedem que escreva alguma coisa sobre o Natal, reajo de mau modo. ¬ęOutra vez, uma hist√≥ria de Natal! Que chatice!¬Ľ ‚ÄĒ digo. As pessoas ficam muito chocadas quando eu falo assim. Acham que abuso dos direitos que me s√£o conferidos. Os meus direitos s√£o falar bem, assim como para outros n√£o falar mal. Uma vez, em Paris, um chauffeur de t√°xi, desses que se fazem casti√ßos e dizem palavr√Ķes para corresponder √† fama que t√™m, aborreceu-me tanto que lhe respondi com palavr√Ķes. Ditos em franc√™s, a mim n√£o me impressionavam, mas ele levou muito a mal e ficou amuado. Como se eu pisasse um terreno que n√£o era o meu e cometesse um abuso. Ele era malcriado mas eu – eu era injusta. Cada situa√ß√£o tem a sua justi√ßa pr√≥pria, √© isto √© duma complexidade que o c√≥digo civil n√£o alcan√ßa.

Mas dizia eu: ¬ęOutra vez o Natal, e toda essa boa vontade de encomenda!¬Ľ Ponho-me a percorrer as imagens que s√£o de praxe, anjos trombeteiros, pastores com capotes de burel e meninos pobres do tempo da Revolu√ß√£o Industrial inglesa. Pobres e explorados, mas, entretanto, n√£o exclu√≠dos do trato social atrav√©s dos seus conflitos pr√≥prios,

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Em Louvor das Crianças

Se h√° na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino √© o da inf√Ęncia. A esse pa√≠s inocente, donde se √© expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados ‚ÄĒ a tais regressos se chama, √†s vezes, poesia. Essa esp√©cie de terra m√≠tica √© habitada por seres de uma t√£o grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi √†s crian√ßas, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Para√≠so.
A sedu√ß√£o das crian√ßas prov√©m, antes de mais, da sua proximidade com os animais ‚ÄĒ a sua rela√ß√£o com o mundo n√£o √© a da utilidade, mas a do prazer. Elas n√£o conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que s√£o, como disse Saint-Exup√©ry, o dinheiro e a vaidade. Estas fr√°geis criaturas, as √ļnicas desde a origem destinadas √† imortalidade, s√£o tamb√©m as mais vulner√°veis ‚ÄĒ elas t√™m o peito aberto √†s maravilhas do mundo, mas est√£o sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, n√£o diminui nem se extingue.
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que,

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O Monstro Incompreensível

√Č perigoso mostrar ao homem at√© que ponto se assemelha aos animais sem lhe mostrar a sua grandeza. Tamb√©m √© perigoso mostrar-lhe muito a grandeza sem a baixeza. √Č ainda mais perigoso deix√°-lo ignorar uma e outra. Mas √© muito vantajoso representar-lhe as duas.
O homem não é anjo nem besta, e por desgraça quem quer ser anjo acaba por ser besta.
Se se exalta, humilho-o; se ele se humilha, exalto-o: e contradigo-o sempre, até que ele compreenda que é um monstro incompreensível.
Condeno igualmente os que tomam o partido de louvar o homem, e os que tomam de o condenar, e os que tomam o de se divertir; e n√£o posso aprovar sen√£o aqueles que buscam gemendo.

A Minha √ļnica Felicidade √©s Tu

At√© agora ainda nada te disse da nossa vida de fam√≠lia. Devo dizer-te algumas palavras para que saibas com que contar. Temos uma vida muito tranquila, vida que sempre desejei e a que estou realmente habituado. A m√ļsica ou o teatro v√™m por vezes interromper a monotonia desta vida quase mon√°stica. Quando vieres faremos mais ou menos a mesma vida interrompendo no entanto a monotonia pelo teatro, pequenos ser√Ķes musicais e mesmo dan√ßantes se isso te agradar. Sem isso passaremos os nossos ser√Ķes ao lado um do outro a conversar e a dar gra√ßas ao bom Deus pela nossa felicidade. Devo tamb√©m falar-te dos meus gostos e das minhas qualidades tanto quanto posso conhec√™-los. Sou um grande fumador, um ca√ßador bastante bom, apaixonado pela m√ļsica e dan√ßarino med√≠ocre. Quanto √†s qualidades e aos defeitos, j√° que todos os temos, tenho mais dificuldade em falar deles, j√° que ningu√©m √© bom juiz em causa pr√≥pria. Contudo todas as minhas qualidades se fundir√£o numa s√≥, a de te adorar e n√£o amar a mais ningu√©m no mundo, anjo da minha vida. Quando estivermos unidos, s√≥ viveremos juntos, onde um ir√°, o outro seguir√°, o que um quiser o outro tamb√©m h√°-de querer.

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Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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Uma Revolução Mental e Moral nos Portugueses

As ideias que, no modo de ver do Governo, devem constituir as bases do futuro estatuto constitucional n√£o s√£o s√≥ para ser aceites pela nossa intelig√™ncia, mas para ser sentidas, vividas, executadas. Passadas para uma Constitui√ß√£o, n√£o vamos julgar ter encontrado o rem√©dio de todos os males pol√≠ticos. Mortas, enterradas em textos de lei, podem ser inofensivas ‚ÄĒ o que √© j√° uma vantagem, porque outras o n√£o s√£o ‚ÄĒ mas n√£o ser√£o eficazes. As leis, verdadeiramente, fazem-nas os homens que as executam, e acabam por ser na pr√°tica, por debaixo do v√©u da sua pureza abstracta, o espelho dos nossos defeitos de entendimento e dos nossos desvios de vontade.
√Č este o motivo por que, sempre que olho para o futuro, para a consolida√ß√£o e prosseguimento do que se h√° feito em favor da ordem, da disciplina, da economia e do progresso do Pa√≠s, eu vejo nitidamente n√£o se estar construindo nada de s√≥lido fora de uma revolu√ß√£o mental e moral nos portugueses de hoje, e de uma cuidadosa prepara√ß√£o das gera√ß√Ķes de amanh√£. Eu pergunto se na alma dos que dizem acompanhar-nos h√° o amor da P√°tria at√© ao sacrif√≠cio, o desejo de bem servir, a vontade de obedecer ‚ÄĒ √ļnica escola para aprender a mandar ‚ÄĒ,

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O Homem e a Mulher

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono; para a mulher fez um altar.
O trono exalta e o altar santifica.
O homem é o cérebro; a mulher, o coração. O cérebro produz a luz; o coração produz amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.
O homem é o génio; a mulher é o anjo. O génio é imensurável; o anjo é indefenível;
A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher é a virtude extrema; A glória promove a grandeza e a virtude, a divindade.
O homem tem a supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia significa a força; a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão; a mulher, invencível pelas lágrimas.
A raz√£o convence e as l√°grimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece e o martírio purifica.
O homem pensa e a mulher sonha. Pensar é ter uma larva no cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é a águia que voa;

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Este é o Verdadeiro Amor de que Tanto se Fala

Estranho e inexplic√°vel sentimento este! Que quando sinto transbordar-me do cora√ß√£o toda esta imensa ventura, acomete-me ent√£o um terror grande – parece-me que √© imposs√≠vel ser t√£o feliz – que o Mundo n√£o comporta esta ventura celeste, e que chegado ao √°pice de todas as felicidades j√° ser√° for√ßoso declinar. (…) Sucede-te isto tamb√©m a ti, esposa querida do meu cora√ß√£o? Conheces tu tamb√©m este tormento, anjo divino?
Ai, Rosa, minha doce Rosa, este que n√≥s sentimos, este √© o verdadeiro amor de que tanto se fala, e t√£o pouco se sabe o que √©. S√£o regi√Ķes pouco conhecidas em que a cada passo se encontram belezas nunca sonhadas, terrores inexplic√°veis, felicidades sem par e tristezas que n√£o t√™m nome.

(…) Oh! Como se riria de mim quem lesse esta carta, Rosa! – De mim que eles julgam um incr√©dulo, um c√©ptico, e cujas palavras sarc√°sticas no Mundo n√£o significam sen√£o a mais perfeita indiferen√ßa por tudo! H√° dois homens em mim, vida desta alma; um √© o que v√™em todos, o que fez a experi√™ncia, a sociedade e o conhecimento de suas mis√©rias e nulidades – o outro √© o que tu fizeste, √© a cria√ß√£o do teu amor,

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Espero Curar-me em Tua Intenção

O que me eleva, o que em mim perdurar√°, √© a felicidade de ser amado por ti. Veneza, o Grande Canal, a Piazzetta, a Pra√ßa de S. Marcos – um mundo desvanecido. Tudo se torna objectivo como uma obra de arte. Instalei-me num imenso pal√°cio debru√ßado para o Grande Canal, de que neste momento sou o √ļnico habitante. Salas enormes, espa√ßosas, onde vagueio √† minha vontade. Tendo a minha instala√ß√£o uma import√Ęncia grande no aspecto t√©cnico e material do meu trabalho, nela ponho todo o meu cuidado. Escrevi logo para que me mandem o ¬ęErard¬Ľ. Soar√° admiravelmente nos sal√Ķes do meu pal√°cio. O singular sil√™ncio do Canal conv√©m-me √†s mil maravilhas. S√≥ deixo a casa pelas cinco horas, para ir comer. Depois passeio pelo jardim p√ļblico; breve paragem na Pra√ßa de S. Marcos, de um t√£o teatral efeito, por entre uma multid√£o que me √© completamente estranha e apenas me distrai a imagina√ß√£o. Pelas nove horas regresso de g√īndola, encontro o candeeiro aceso, e leio um pouco antes de adormecer…

Esta solid√£o, √ļnico alvo que procuro e que aqui se torna agrad√°vel, anima-me. Sim, espero curar-me em tua inten√ß√£o. Conservar-me para ti significa consagrar-me √† minha arte. Tornar-me tua consola√ß√£o,

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Amo-te com Toda a Loucura dos Meus Primeiros Anos

Meu anjo, minha vida, que sei eu mais? Amo-te com toda a loucura dos meus primeiros anos. Volto a ser para ti o irmão da Amélie; esqueço tudo desde que tu consentiste que eu caísse a teus pés. Sim, espero-te à beira mar, onde tu quiseres, muito longe do Mundo. Enlacei finalmente esse sonho de felicidade que há tanto tempo persigo. Foi a ti que eu adorei tanto tempo antes de te conhecer. Serás a minha vida; verás o que ninguém poderá saber senão após a minha morte; depositá-lo-ei nas mãos daquele que virá depois de nós. Acolhe tudo o que aqui ponho para ti. Amanhã às duas horas serei eu quem irá pedir-to.