Textos sobre Vítimas

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Textos de vítimas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Colectiva

Produto de dois s√©culos de falsa educa√ß√£o fradesca e jesu√≠tica, seguidos de um s√©culo de pseudo-educa√ß√£o confusa, somos as v√≠timas individuais de uma prolongada servid√£o colectiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccion√°ria, por livres-pensadores para quem o c√ļmulo do livre-pensamento era impedir uma prociss√£o de sair, de ma√ß√£os para quem a Ma√ßonaria (longe de a considerarem a deposit√°ria da heran√ßa sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbon√°ria ritual. Produto assim de educa√ß√Ķes dadas por criaturas cuja vida era uma perp√©tua trai√ß√£o √†quilo que diziam que eram, e √†s cren√ßas ou ideias que diziam servir, t√≠nhamos que ser sempre dos arredores…

Fomos Vítimas de uma Ilusão

N√£o creio que tenhamos falhado. Fomos v√≠timas de uma ilus√£o que n√£o foi s√≥ nossa, a de que Portugal fosse capaz de arrancar-se √† ¬ętristeza vil e apagada¬Ľ em que mais ou menos sempre tem vivido. Imagin√°mos que seria poss√≠vel tornarmo-nos melhores do que √©ramos, e foi tanto maior o tamanho da decep√ß√£o quanto era imensa a esperan√ßa. Ficou a democracia, dizem-nos. A democracia pode ser muito, pouco ou quase nada. Escolha cada qual o que lhe pare√ßa corresponder melhor √† situa√ß√£o do pa√≠s…

O Medo do Aborrecimento

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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Nada nos Faz Acreditar Mais do que o Medo

Nada nos faz acreditar mais do que o medo, a certeza de estarmos amea√ßados. Quando nos sentimos v√≠timas, todas as nossas ac√ß√Ķes e cren√ßas s√£o legitimadas, por mais question√°veis que sejam. Os nossos opositores, ou simplesmente os nossos vizinhos, deixam de estar ao nosso n√≠vel e transformam-se em inimigos. Deixamos de ser agressores para nos convertermos em defensores. A inveja, a cobi√ßa ou o ressentimento que nos movem ficam santificados, porque pensamos que agimos em defesa pr√≥pria. O mal, a amea√ßa, est√° sempre no outro. O primeiro passo para acreditar apaixonadamente √© o medo. O medo de perdermos a nossa identidade, a nossa vida, a nossa condi√ß√£o ou as nossas cren√ßas. O medo √© a p√≥lvora e o √≥dio o rastilho. O dogma, em √ļltima inst√Ęncia, √© apenas um f√≥sforo aceso.

Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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A M√°scara Falsa da Felicidade

Um erro sem d√ļvida bem grosseiro consiste em acreditar que a ociosidade possa tornar os homens mais felizes: a sa√ļde, o vigor da mente, a paz do cora√ß√£o s√£o os frutos tocantes do trabalho. S√≥ uma vida laboriosa pode amortecer as paix√Ķes, cujo jugo √© t√£o rigoroso; √© ela que mant√©m nas cabanas o sono, fugitivo dos grandes pal√°cios. A pobreza, contra a qual somos prevenidos, n√£o √© tal como pensamos: ela torna os homens mais temperantes, mais laboriosos, mais modestos; ela os mant√©m na inoc√™ncia, sem a qual n√£o h√° repouso nem felicidade real na terra.
O que √© que invejamos na condi√ß√£o dos ricos? Eles pr√≥prios endividados na abund√Ęncia pelo luxo e pelo fasto imoderados; extenuados na flor da idade por sua licenciosidade criminosa; consumidos pela ambi√ß√£o e pelo ci√ļme na medida em que est√£o mais elevados; v√≠timas orgulhosas da vaidade e da intemperan√ßa; ainda uma vez, povo cego, que lhe podemos invejar?
Consideremos de longe a corte dos príncipes, onde a vaidade humana exibe aquilo que tem de mais especioso: aí encontraremos, mais do que em qualquer outro lugar, a baixeza e a servidão sob a aparência da grandeza e da glória, a indigência sob o nome da fortuna,

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O Grito

Corria pela rua acima quando a s√ļbita explos√£o dum grito o fez parar instantaneamente. Todo o seu corpo estremeceu. O que ele desde sempre receara acabara de ocorrer: algures, nesse momento, uma caneta come√ßara a deslizar sobre uma folha de papel, dando assim corpo √†quele grito que de h√° muito, como as esculturas no interior da pedra, se mantinha na expectativa desse simples gesto dum escritor para atingir a realidade. Tapou os ouvidos com as m√£os. O grito mais n√£o era que um sinal, mas o que esse sinal lhe transmitia deixava-o aterrado. Acabara de ser posta a funcionar uma engrenagem que a partir de agora nada nem ningu√©m, e muito menos ele, iria alguma vez poder travar, um mecanismo de que ele pr√≥prio iria inapelavelmente ser a maior v√≠tima. Mais tarde ou mais cedo isso teria de se dar, mas agora que, sem qualquer aviso pr√©vio, se soubera propulsado para outra dimens√£o da sua vida, como se os fios que a governavam tivessem repentinamente mudado de m√£os, o facto de h√° longo tempo o pressentir n√£o o impediu de olhar √† sua volta com estranheza, uma estranheza que antes de mais nascia de tudo √† primeira vista ter ficado como estava,

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Amor como Deprava√ß√£o do Nervo √ďptico

Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, √© uma deprava√ß√£o do nervo √≥ptico. A imagem objectiva, que fere o √≥rg√£o visual no estado patol√≥gico, adquire atributos fict√≠cios. A alma recebe a impress√£o quim√©rica tal como sens√≥rio lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excel√™ncias que a mais esmerada natureza denega √†s suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima se modifica a generalidade da defini√ß√£o v√™m a ser aqueles em que o bom senso n√£o pode atinar com o porqu√™ dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e est√ļpidas que nos enchem de espanto, quando nos n√£o fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida deprava√ß√£o do nervo que preside √†s fun√ß√Ķes da vista quanto a alma da pessoa enferma, v√≠tima de sua ilus√£o, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e m√©ritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.

Técnicas de Narrador

Os que me conheceram aos quatro anos dizem que era pálido e ensimesmado e que só falava para contar disparates, mas os meus relatos eram em grande parte episódios simples da vida diária, que eu tornava mais atraentes com pormenores fantásticos para que os adultos me prestassem atenção. A minha melhor fonte de inspiração eram as conversas que os mais velhos mantinham diante de mim, porque pensavam que não as entendia, ou as que cifravam de propósito para que não as entendesse. E, de facto, acontecia o contrário: absorvia-as como uma esponja, desmontava-as em peças, alterava-as para escamotear a origem, e quando as contava aos mesmos que as tinham contado ficavam perplexos pelas coincidências entre o que eu dizia e o que eles pensavam.

Às vezes não sabia o que fazer com a minha consciência e procurava dissimular com um rápido pestanejar. Tanto era assim que algum racionalista da família decidiu que eu fosse observado por um médico da vista, que atribuiu o meu pestanejar a uma infecção das amígdalas e me receitou um xarope de rábano iodado que me fez muito bem para aliviar os adultos. A avó, por seu lado, chegou à conclusão providencial de que o neto era adivinho.

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√ďdios e Rancores

Recusa ser testemunha em processos: serias necessariamente alvo do rancor de uma das partes. Nunca forne√ßas informa√ß√Ķes acerca de um homem que n√£o seja bem nascido – e menos ainda se √© de baixa extrac√ß√£o -, e faz como se tudo ignorasses a seu respeito. Se, em conversa, resolveres lan√ßar uma ofensa contra algu√©m, sobretudo n√£o tomes um ar pesado, mas continua a falar como se nada fosse. Em presen√ßa de terceiros, n√£o manifestes a ningu√©m favores especiais, pois considerar-se-ia que desprezas os outros e serias votado a um √≥dio constante.
Evita avan√ßar na carreira de modo demasiado r√°pido ou vistoso. √Č necess√°rio que, perante uma luz que se torna cada vez mais brilhante, os olhos se habituem a pouco e pouco; caso contr√°rio, desviam-se. Nunca v√°s contra o que agrada √† gente do povo, quer se trate de simples tradi√ß√Ķes ou mesmo de h√°bitos que te repugnam.
Se és forçado a admitir que cometeste uma acção odiosa, não atices o ódio que desperta dando a impressão que não a lastimas ou, pior ainda, troçando das tuas vítimas, ou orgulhando-te do que fizeste: serias odiado duas vezes mais. O melhor é ausentares-te, deixares agir o tempo e não te manifestares.

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O Perd√£o e a Promessa

Se n√£o f√īssemos perdoados, eximidos das consequ√™ncias daquilo que fizemos, a nossa capacidade de agir ficaria por assim dizer limitada a um √ļnico acto do qual jamais nos recuperar√≠amos; ser√≠amos para sempre as v√≠timas das suas consequ√™ncias, √† semelhan√ßa do aprendiz de feiticeiro que n√£o dispunha da f√≥rmula m√°gica para desfazer o feiti√ßo. Se n√£o nos obrig√°ssemos a cumprir as nossas promessas n√£o ser√≠amos capazes de conservar a nossa identidade; estar√≠amos condenados a errar desamparados e desnorteados nas trevas do cora√ß√£o de cada homem, enredados nas suas contradi√ß√Ķes e equ√≠vocos – trevas que s√≥ a luz derramada na esfera p√ļblica pela presen√ßa de outros que confirmam a identidade entre o que promete e o que cumpre poderia dissipar. Ambas as faculdades, portanto, dependem da pluralidade; na solid√£o e no isolamento, o perd√£o e a promessa n√£o chegam a ter realidade: s√£o no m√°ximo um papel que a pessoa encena para si mesma.

Assumir a Dor

Quanto mais uma pessoa que foi traída tenta anular a pessoa que a traiu, mais raiva sentirá e, consequentemente, mais a dor da traição será arquivada no centro da sua memória. Quanto mais uma pessoa tentar esquecer a crise financeira que atravessa, mais penetrará nas janelas que financiam a sua hiperpreocupação, mais se perturbará, perderá o sono e descarregará a ansiedade no seu corpo, gerando sintomas psicossomáticos. Essas defesas do Eu não são apenas ineficientes como também aumentam os níveis de stresse.

Nunca tente apagar os seus arquivos. N√£o conseguir√°. N√£o gaste energia tentando esquecer as pessoas que o magoaram. O seu desgaste torn√°-las-√° inesquec√≠veis. A melhor t√©cnica, como veremos, √© assumir sempre a dor, recicl√°-la com maturidade, nunca se colocar no lugar de v√≠tima, conversar sem medo com os seus fantasmas, rev√™-los por outros √Ęngulos e reescrever as janelas onde est√£o inscritas.

O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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Um Ser Humano não é Grande Coisa

N√£o tenhamos ilus√Ķes: um ser humano n√£o √© grande coisa. De facto, h√° tantos que os governos n√£o sabem o que fazer com eles. Seis mil milh√Ķes de humanos √† face da Terra e apenas seis ou sete mil tigres de Bengala – ora digam l√° qual das esp√©cies necessita de mais prote√ß√£o, de cuidados especiais. Sim, escolham voc√™s mesmos. Um negro, um chin√™s, um escoc√™s, ou um belo tigre que cai v√≠tima de um ca√ßador. Um tigre, com a sua pelagem listrada de cores incompar√°veis e os seus olhos coruscantes, √© bastante mais belo do que um velhote cheio de varizes como eu. Que diferen√ßa de porte. Comparem a agilidade de um com a in√©pcia do outro. Vejam como se movem. Metam-nos em jaulas do jardim zool√≥gico, lado a lado. Diante da jaula do velho concentram-se as crian√ßas que riem ao v√™-lo catar-se e p√īr-se de c√≥coras para defecar; diante da do tigre, arregalam os olhos de admira√ß√£o. Acabou essa ilus√£o segundo a qual o homem √© o centro do universo. √Č verdade que no animal humano distinguimos os gestos, os rostos e as vozes, o que estimula a nossa empatia, mas tamb√©m distinguimos caracter√≠sticas particulares, que associamos a sentimentos,

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N√£o Est√°s a Ver

Todos os dias, todos nós assistimos Рseja como utentes, vítimas ou observadores Рa uma prática irritantemente portuguesa.
Algu√©m faz uma longa e pormenorizada descri√ß√£o de uma coisa extraordin√°ria (ou, mais ami√ļde, banal) que lhe aconteceu. N√≥s ouvimos, com paci√™ncia e empatia exageradas, e comentamos conforme as mais bem equilibradas expectativas.
Descrevem-nos um momento de horror (“atravessou-se um gato na estrada, tive de desviar-me e quase bati noutro carro”) e, quando n√≥s simpatizamos (muitos de n√≥s tendo passado pela mesma experi√™ncia de medo de morrer ou matar), o nosso interlocutor d√° como perdidos os quartos de hora que gastou a dar-nos uma narrativa completa e, apesar da nossa sincera afirma√ß√£o de empatia (“Coitado! Sei exactamente o que sentiste!”), atira-nos invariavelmente √† cara a mesma psicop√°tica acusa√ß√£o: “N√£o est√°s a ver!”
√Č portugu√™s pensar que aquilo que se sente ou que nos acontece n√£o pode ser sentido ou acontecer a mais ningu√©m. Temos a ideia est√ļpida, avan√ßada por Cam√Ķes – do saber de experi√™ncia feito -, que cada um sabe o que sabe e vive o que vive. Dizer “n√£o est√°s a ver” a quem v√™ perfeitamente – o mais das vezes espontaneamente – √© uma esp√©cie de distancia√ß√£o.

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Quem te Injuria n√£o te Injuria

Reconsidera o seguinte: quem te injuria não te injuria; quem te agride não te agride; quem te ultraja não te ultraja. Então quem te ultraja, agride e injuria? O juízo, o julgamento, a sentença de quem assim procede contigo Рe também a tua opinião sobre o acto de que foste vítima. Assim, pois, quando alguém provocar a tua ira, sabe que essa tua opinião é que irado te torna. Sendo assim as coisas, não te precipites e doma as tuas ideias. Porque segura é uma coisa: se ganhares tempo e pausa a fim de ponderares o acontecido Рentão, facilmente, serás senhor de ti mesmo.

A Sabedoria do Romance

O homem deseja um mundo em que o bem e o mal sejam nitidamente discern√≠veis, porque nele h√° o desejo, inato e indom√°vel, de julgar antes de compreender. Sobre esse desejo s√£o fundadas as religi√Ķes e as ideologias. Estas n√£o se podem conciliar com o romance a n√£o ser que traduzam a linguagem de relatividade e de ambiguidade dele para o seu discurso apod√≠tico e dogm√°tico. Exigem que algu√©m tenha raz√£o: ou Anna Karenina √© v√≠tima de um d√©spota limitado, ou Karenine √© v√≠tima de uma mulher imoral; ou ent√£o K., inocente, √© esmagado por um tribunal injusto, ou ent√£o, por tr√°s do tribunal, est√° escondida a justi√ßa divina e K. √© culpado.
Neste ¬ęou ent√£o-ou ent√£o¬Ľ est√° contida a incapacidade de suportar a relatividade essencial das coisas humanas, a incapacidade de olhar de frente a aus√™ncia do Juiz supremo. Por causa desta incapacidade, a sabedoria do romance (a sabedoria da incerteza) √© dif√≠cil de aceitar e de compreender.

Temos que o Saber Conquistar

Estou completamente cansado de pessoas que só pensam numa coisa: queixar-se e lamentar-se num ritual em que nos fabricamos mentalmente como vítimas. Choramos e lamentamos, lamentamos e choramos. Queixamo-nos até à náusea sobre o que os outros nos fizeram e continuam a fazer. E pensamos que o mundo nos deve qualquer coisa. Lamento dizer-vos que isto não passa de uma ilusão. Ninguém nos deve nada. Ninguém está disposto a abdicar daquilo que tem, com a justificação de que nós também queremos o mesmo. Se quisermos algo temos que o saber conquistar. Não podemos continuar a mendigar, meus irmãos e minhas irmãs.