Passagens sobre Liras

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Como Está Sereno o Céu

Como está sereno o céu,
como sobe mansamente
a Lua resplandecente
e esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
das frescas √°guas do rio
interrompe o murm√ļrio
de longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza;
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.

Mas, se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.

Czardas Para Serrotes Com Arcos De Violino E Berimbau De Lata

Esta anábase é de hora aberta desnudada
t√£o desmedida como foi a minha vida
de nada me arrependo apenas me perd√īo
por que meu v√īo nem sequer se iniciou

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas
trapos e cordas dissonantes dessa lira
s√£o acidentes de percurso em que recorro
como um Zen√£o o parafuso desse v√īo

Assim nessa colméia em ziper me percorro
como um zang√£o no zigue-zague nos hex√°gonos
ando à procura de uma abelha desvairada

que me acompanhe na aventura pelos p√Ęntanos
exorcizando a desrazão desses escorços
essa n√£o-ave desgarrada do meu nada

O Incêndio De Roma

Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.

E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.

Longe, reverberando o clar√£o purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
Impassível, porém, no alto do Palatino,

Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.

Comparar-te a um Dia de Ver√£o?

Comparar-te a um dia de ver√£o?
H√° mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do ver√£o que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano ver√£o
ser√° eterno; sempre crescer√°s
indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te ver√° respirar na minha lira.

Tradução de Carlos de Oliveira

De Mayseder Gentil O Vulto Ingente

De Mayseder gentil o vulto ingente
De Corelli, de Spohr e de Nardini,
De Ole Bull supernal, de Veracini
Inspirados por Deus c’o plectro ardente;

Dessa lira febril, √°urea, potente
Do artista sem par, de Paganini;
De Viotti dinal, do herói Tardini,
De Lafont, de Baillot, Eck e Laurenti:

Sois rival feliz! e nesse cr√Ęnio
Há em jorros, oh céus! extravasando
O ardor musical, o ardor tit√Ęneo…

J√° bem cedo, veloz, ides galgando
L√° da gl√≥ria os degraus, o suped√Ęneo
Sobre um trono de luz rindo e cantando.

Da Mundana Lida, Eis Que Cansado

“Minha vida √© um mont√£o de ru√≠nas em √°rido deserto
Um abismo de ais e de suspiros”.

Da mundana lida, eis que cansado,
Co’a lira toda espeda√ßada,
A alma de suspiros retalhada,
Cumpre o infeliz seu triste fado.

Ai! que viver mais desgra√ßado!…
Que sorte t√£o crua e desazada!…
Quem assim tem a vida amargurada
Antes j√° morrer, ser sepultado.

Só eu triste padeço feras dores,
Imensas e de fel, sem terem fim,
Envolto no véu dos dissabores.

Oh! Cristo eu não sei se só a mim
Deste essa vida d’amargores,
Pois que é demais sofrer-se assim!

Carpe Diem

Que faço deste dia, que me adora?
Peg√°-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou coloc√°-lo em m√ļsica, em palavra,
Ou grav√°-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas j√° se sombras vejo que se cobre
T√£o surdo ao sonho de ficar ‚Äď t√£o nobre.
J√° nele a luz da lua ‚Äď a morte ‚Äď mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

Carta (a um Amigo que me Pediu Versos)

Como hei-de ser um Petrarca,
Cantar como um rouxinol,
Se o meu termómetro marca
Quarenta e dois graus ao sol!

Da lira b√°rbara e tosca
Nem saem trovas d’Alfama.
Enxota o Pégaso a mosca,
E eu durmo a sesta na cama.

A hipocondria maciça
Conduzo-a, não há remédio,
Na jumenta da preguiça
Pelas charnecas do tédio.

Eu trago a inspiração oca,
Ando abatido, ando mono;
Meus versos abrem a boca,
Como os porteiros com sono.

N√£o tenho a rima imprevista,
Os guizos d’oiro ou de opala,
Que à asa da estrofe o artista
Sublime prende ao larg√°-la.

P’ra lapidar √† vontade
Um belo verso radiante,
Falta-me a tenacidade,
Que é como o pó do diamante.

A musa foi-se-me embora;
Para onde foi nem me lembro;
Só a torno a ver agora
L√° para os fins de Setembro.

Anda talvez nas florestas
Fazendo orgias pag√£s,
Entre os aromas das giestas
E os braços dos Egipãs.

Deix√°-la andar l√° dois meses
Colhendo imagens e flores,

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Gonçalves Crespo

Esta musa da p√°tria, esta saudosa
Niobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas n√£o esquece a morte gloriosa.

E p√°lida, e chorosa,
Ao Tejo voa, onde no chão caída
Jaz aquela evadida
Lira da nossa América viçosa.

Com ela torna, e, dividindo os ares,
Trépido, mole, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.

Não é a asa do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os p√°trios lares.

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao p√© que no bolero… ao p√© pequeno;
P√© que, al√≠gero e c√©lere, saltita…

Lira do amor, que o amor n√£o mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no √ļltimo treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses l√°bios, enfim, de n√°car vivo,
Virgens dos l√°bios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

Cam√Ķes I

Tu quem és? Sou O século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Pen√ļria, ermo, desgra√ßa.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa obla√ß√£o?… √Č-lhe devida.
Paga?… Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glória apetecida.
N√≥s, que o cantamos?… Volvereis √† morte.
Ele, que √© morto?… Vive a eterna vida.

3A Sombra – Ester

Vem! no teu peito c√°lido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a cl√Ęmide aos ventos – ro√ßagante…
T√ļmido o l√°bio, onde o salt√©rio gira…
√ď musa de Israel! pega da lira…
Canta os martírios de teu povo errante!

Mas n√£o… brisa da p√°tria al√©m revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir… e parte… e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro…
Linda Ester! teu perfil se esvai… s’escoa…
S√≥ me resta um perfume… um canto… um rastro…

Falas de amor, e eu ou√ßo tudo e calo! O amor na humanidade √© uma mentira. √Č. E √© por isto que na minha lira De amores f√ļteis poucas vezes falo.

Se A Fortuna Inquieta E Mal Olhada

Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do Céu consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;

pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama.
fizera ao Tejo l√° na p√°tria cama
adormecer co som da lira amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta;

a vossa de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vós ao mundo se apresenta.

A Gonçalves Dias

Celebraste o domínio soberano
Das grandes tribos, o tropel fremente
Da guerra bruta, o entrechocar insano
Dos tacapes vibrados rijamente,

O marac√° e as flechas, o estridente
Troar da in√ļbia, e o canitar indiano…
E, eternizando o povo americano,
Vives eterno em teu poema ingente.

Estes revoltos, largos rios, estas
Zonas fecundas, estas seculares
Verdejantes e amplíssimas florestas

Guardam teu nome: e a lira que pulsaste
Inda se escuta, a derramar nos ares
O estridor das batalhas que contaste.

Ode Marítima

Sozinho, no cais deserto, a esta manh√£ de Ver√£o,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atr√°s de si a orla v√£ do seu fumo.
Vem entrando, e a manh√£ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de tr√°s dos navios que est√£o no porto.
H√° uma vaga brisa.
Mas a minh’alma est√° com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele est√° com a Dist√Ęncia, com a Manh√£,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manh√£ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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As Minhas Ilus√Ķes

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invis√≠vel lira …
O sol √© um doente a enlanguescer …

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num √ļltimo suspiro, a estremecer!

O sol morreu … e veste luto o mar …
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilus√Ķes, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim … uma por uma …

Esta Dor que me Faz Bem

As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha m√£e?

Este cheiro de além-vida
e de indizível tristeza,
do tempo morto, esquecido…
Tão desbotada e puída
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega à cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas jóias falsas
que usavas todos os dias,
do princípio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha m√£e, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este √°lbum de retratos,
de veludo cor de tília?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?

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Todos os Homens S√£o Propriet√°rios

Todos os homens s√£o propriet√°rios, mas na realidade nenhum possui. N√£o s√£o propriet√°rios apenas porque at√© o √ļltimo dos pedintes tem sempre alguma coisa al√©m do que traz em cima, mas porque cada um de n√≥s √©, a seu modo, um capitalista.
Al√©m dos propriet√°rios de terras, de mercadorias, de m√°quinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os propriet√°rios de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. S√£o os propriet√°rios e locadores de for√ßa f√≠sica – camponeses, oper√°rios, soldados – e propriet√°rios e prestadores de for√ßas intelectuais – m√©dicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus m√ļsculos, o seu saber ou o seu engenho obt√©m um rendimento, que pressup√Ķe um patrim√≥nio.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milh√Ķes de homens est√£o dispostos a obedecer a uma palavra sua, √©, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milh√Ķes de liras, possui milh√Ķes de vontades. O talento visual de um pintor, a eloqu√™ncia de um advogado, o esp√≠rito inventivo de um mec√Ęnico s√£o verdadeiros capitais e medem-se pelo pre√ßo que deve pagar, para obter os seus produtos, quem n√£o os possui e carece deles.

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Benedicite

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do ch√£o abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que al√ßou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!