CitaçÔes sobre Liras

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Frases sobre liras, poemas sobre liras e outras citaçÔes sobre liras para ler e compartilhar. Leia as melhores citaçÔes em Poetris.

Carta (a um Amigo que me Pediu Versos)

Como hei-de ser um Petrarca,
Cantar como um rouxinol,
Se o meu termĂłmetro marca
Quarenta e dois graus ao sol!

Da lira bĂĄrbara e tosca
Nem saem trovas d’Alfama.
Enxota o PĂ©gaso a mosca,
E eu durmo a sesta na cama.

A hipocondria maciça
Conduzo-a, não hå remédio,
Na jumenta da preguiça
Pelas charnecas do tédio.

Eu trago a inspiração oca,
Ando abatido, ando mono;
Meus versos abrem a boca,
Como os porteiros com sono.

NĂŁo tenho a rima imprevista,
Os guizos d’oiro ou de opala,
Que Ă  asa da estrofe o artista
Sublime prende ao largĂĄ-la.

P’ra lapidar Ă  vontade
Um belo verso radiante,
Falta-me a tenacidade,
Que Ă© como o pĂł do diamante.

A musa foi-se-me embora;
Para onde foi nem me lembro;
SĂł a torno a ver agora
LĂĄ para os fins de Setembro.

Anda talvez nas florestas
Fazendo orgias pagĂŁs,
Entre os aromas das giestas
E os braços dos Egipãs.

DeixĂĄ-la andar lĂĄ dois meses
Colhendo imagens e flores,

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Gonçalves Crespo

Esta musa da pĂĄtria, esta saudosa
Niobe dolorida,
Esquece acaso a vida,
Mas nĂŁo esquece a morte gloriosa.

E pĂĄlida, e chorosa,
Ao Tejo voa, onde no chĂŁo caĂ­da
Jaz aquela evadida
Lira da nossa América viçosa.

Com ela torna, e, dividindo os ares,
Trépido, mole, doce movimento
Sente nas frouxas cordas singulares.

NĂŁo Ă© a asa do vento,
Mas a sombra do filho, no momento
De entrar perpetuamente os pĂĄtrios lares.

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao pĂ© que no bolero… ao pĂ© pequeno;
PĂ© que, alĂ­gero e cĂ©lere, saltita…

Lira do amor, que o amor nĂŁo mais excita,
A um silĂȘncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no Ășltimo treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam, seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardĂȘncia cheios;

A esses lĂĄbios, enfim, de nĂĄcar vivo,
Virgens dos lĂĄbios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

CamÔes I

Tu quem és? Sou O século que passa.
Quem somos nĂłs? A multidĂŁo fremente.
Que cantamos? A glĂłria resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.

Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? PenĂșria, ermo, desgraça.

Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa oblação?… É-lhe devida.
Paga?… Paga-lhe toda a adversa sorte.

Chama-se a isto? A glĂłria apetecida.
NĂłs, que o cantamos?… Volvereis Ă  morte.
Ele, que Ă© morto?… Vive a eterna vida.

3A Sombra – Ester

Vem! no teu peito cĂĄlido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!
Enrola-te na longa cachemira,
Como as judias moles do Levante,

Alva a clĂąmide aos ventos – roçagante…
TĂșmido o lĂĄbio, onde o saltĂ©rio gira…
Ó musa de Israel! pega da lira…
Canta os martĂ­rios de teu povo errante!

Mas nĂŁo… brisa da pĂĄtria alĂ©m revoa,
E ao delamber-lhe o braço de alabastro,
Falou-lhe de partir… e parte… e voa. . .

Qual nas algas marinhas desce um astro…
Linda Ester! teu perfil se esvai… s’escoa…
SĂł me resta um perfume… um canto… um rastro…

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo! O amor na humanidade Ă© uma mentira. É. E Ă© por isto que na minha lira De amores fĂșteis poucas vezes falo.

Se A Fortuna Inquieta E Mal Olhada

Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do CĂ©u consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;

pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama.
fizera ao Tejo lĂĄ na pĂĄtria cama
adormecer co som da lira amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta;

a vossa de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vĂłs ao mundo se apresenta.

A Gonçalves Dias

Celebraste o domĂ­nio soberano
Das grandes tribos, o tropel fremente
Da guerra bruta, o entrechocar insano
Dos tacapes vibrados rijamente,

O maracĂĄ e as flechas, o estridente
Troar da inĂșbia, e o canitar indiano…
E, eternizando o povo americano,
Vives eterno em teu poema ingente.

Estes revoltos, largos rios, estas
Zonas fecundas, estas seculares
Verdejantes e amplĂ­ssimas florestas

Guardam teu nome: e a lira que pulsaste
Inda se escuta, a derramar nos ares
O estridor das batalhas que contaste.

Ode MarĂ­tima

Sozinho, no cais deserto, a esta manhĂŁ de VerĂŁo,
Olho pro lado da barra, olho pro Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nĂ­tido, clĂĄssico Ă  sua maneira.
Deixa no ar distante atrĂĄs de si a orla vĂŁ do seu fumo.
Vem entrando, e a manhĂŁ entra com ele, e no rio,
Aqui, acolĂĄ, acorda a vida marĂ­tima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trĂĄs dos navios que estĂŁo no porto.
HĂĄ uma vaga brisa.
Mas a minh’alma estĂĄ com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele estĂĄ com a DistĂąncia, com a ManhĂŁ,
Com o sentido marĂ­timo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma nåusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independĂȘncia de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente,

Os paquetes que entram de manhĂŁ na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.

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As Minhas IlusÔes

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, Ă  beira-mar, cor de safira,
Soa no ar uma invisĂ­vel lira …
O sol Ă© um doente a enlanguescer …

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num Ășltimo suspiro, a estremecer!

O sol morreu … e veste luto o mar …
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas IlusÔes, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim … uma por uma …

Esta Dor que me Faz Bem

As coisas falam comigo
uma linguagem secreta
que é minha, de mais ninguém.
Quem sente este cheiro antigo,
o cheiro da mala preta,
que era tua, minha mĂŁe?

Este cheiro de além-vida
e de indizĂ­vel tristeza,
do tempo morto, esquecido…
TĂŁo desbotada e puĂ­da
aquela fita escocesa
que enfeitava o teu vestido.

Fala comigo e conversa,
na linguagem que eu entendo,
a tua velha gaveta,
a vida nela dispersa
chega Ă  cama onde me estendo
num perfume de violeta.

Vejo as tuas jĂłias falsas
que usavas todos os dias,
do princĂ­pio ao fim do ano,
e ainda oiço as tuas valsas,
minha mĂŁe, e as melodias
que cantavas ao piano.

Vejo brancos, decotados,
os teus sapatos de baile,
um broche em forma de lira,
saia aos folhos engomados
e sobre o vestido um xaile,
um xaile de Caxemira.

Quantas voltas deu na vida
este ĂĄlbum de retratos,
de veludo cor de tĂ­lia?
Gente outrora conhecida,
quem lhe deu tantos maus tratos?

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Todos os Homens SĂŁo ProprietĂĄrios

Todos os homens sĂŁo proprietĂĄrios, mas na realidade nenhum possui. NĂŁo sĂŁo proprietĂĄrios apenas porque atĂ© o Ășltimo dos pedintes tem sempre alguma coisa alĂ©m do que traz em cima, mas porque cada um de nĂłs Ă©, a seu modo, um capitalista.
AlĂ©m dos proprietĂĄrios de terras, de mercadorias, de mĂĄquinas e de dinheiro, existem, ainda mais numerosos, os proprietĂĄrios de capitais pessoais, que se podem alugar, vender ou fazer frutificar como os outros. SĂŁo os proprietĂĄrios e locadores de força fĂ­sica – camponeses, operĂĄrios, soldados – e proprietĂĄrios e prestadores de forças intelectuais – mĂ©dicos, engenheiros, professores, escritores, burocratas, artistas, cientistas. Quem aluga os seus mĂșsculos, o seu saber ou o seu engenho obtĂ©m um rendimento, que pressupĂ”e um patrimĂłnio.
Um demagogo ou um dirigente de partido pode viver pobremente, mas se milhĂ”es de homens estĂŁo dispostos a obedecer a uma palavra sua, Ă©, na realidade, um capitalista, que, em vez de possuir milhĂ”es de liras, possui milhĂ”es de vontades. O talento visual de um pintor, a eloquĂȘncia de um advogado, o espĂ­rito inventivo de um mecĂąnico sĂŁo verdadeiros capitais e medem-se pelo preço que deve pagar, para obter os seus produtos, quem nĂŁo os possui e carece deles.

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Benedicite

Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu Ă  charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chĂŁo abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano…

Mas bendito entre os mais o que no dĂł profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Guerra Junqueiro

Quando ele do Universo o largo supedĂąneo
Galgou como os clarĂ”es — quebrando o que nĂŁo serve,
Fazendo que explodissem os astros de seu crĂąnio,
As gemas da razĂŁo e os mĂșsculos da verve;

Quando ele esfuziou nos pĂĄramos as trompas,
As trompas marciais — as liras do estupendo,
Pejadas de prodĂ­gios, assombros e de pompas,
Crescendo em proporçÔes, crescendo e recrescendo;

Quando ele retesou os nervos e as artérias
Do verso orbicular — rasgando das misĂ©rias
O ventre do Ideal na forte hematemese.

Clamando — Ă© minha a luz, que o sĂ©culo propague-a,
Quando ele avassalou os pĂ­ncaros da ĂĄguia
E o sol do Equador vibrou-lhe aquelas teses!

Senhora I

No calmo colo pouso meus segredos
Senhora que sabeis minhas fraquezas.
convoco sĂł convosco o que antecedo
na lira ensimesmada da incerteza.

NĂŁo sei se o vero verso do degredo
vem albergado ou presa de represa
das frias ĂĄguas Ă­ntimas do medo
lavando o frĂĄgil lado da tristeza.

A depressiva face nĂŁo mostrada
esplende em vosso espelho que me abriga
lambendo o sal dos olhos da geada.

Águas que são do orvalho da fadiga
de recorrentes gotas espalhadas
regando as vossas mĂŁos de amada e amiga

I

Para cantar de amor tenros cuidados,
Tomo entre vĂłs, Ăł montes, o instrumento;
Ouvi pois o meu fĂșnebre lamento;
Se Ă©, que de compaixĂŁo sois animados:

JĂĄ vĂłs vistes, que aos ecos magoados
Do trĂĄcio Orfeu parava o mesmo vento;
Da lira de AnfiĂŁo ao doce acento
Se viram os rochedos abalados.
Bem sei, que de outros gĂȘnios o Destino,
Para cingir de Apolo a verde rama,
Lhes influiu na lira estro divino:

O canto, pois, que a minha voz derrama,
Porque ao menos o entoa um peregrino,
Se faz digno entre vós também de fama.

Converteu-se-me em Noite o Claro Dia

Apolo e as nove Musas, descantando
Com a dourada lira, me influĂ­am
Na suave harmonia que faziam,
Quando tomei a pena, começando:

Ditoso seja o dia e hora, quando
TĂŁo delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
Estar-se em seu desejo traspassando!

Assim cantava, quando Amor virou
A roda à esperança, que corria
TĂŁo ligeira, que quase era invisĂ­vel.

Converteu-se-me em noite o claro dia;
E, se alguma esperança me ficou,
SerĂĄ de maior mal, se for possĂ­vel.

Aquela que Cantei na Doce Lira

Aquela que cantei na doce lira,
Que jĂĄ do Tempo estragos tem sentido,
Inda veio, com seu garbo fingido,
Tentar meu coração, que em paz respira.

Mas, qual duro rochedo que nĂŁo vira,
Por mais que o bata o mar enfurecido,
Assim firme fiquei, no meu sentido,
Vendo o cepo enfeitado da Mentira.

Encarei-o com dor, mas sem transporte,
Pois de meus longos anos na carreira
Jå do Tempo sofri, também, o corte.

Pensando na minha hora derradeira,
Eu vi sĂł entre nĂłs sentada a Morte,
E ao pé de uma caveira, outra caveira.

Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade Ă© uma mentira.
É. E Ă© por isto que na minha lira
De amores fĂșteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amĂĄ-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois Ă© mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
– Alavanca desviada do seu fulcro –

E haja sĂł amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

A Uma Dama Dormindo Junto A Uma Fonte

À margem de uma fonte, que corria,
Lira doce dos pĂĄssaros cantores
A bela ocasiĂŁo das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme SĂ­lvia, nĂŁo vestia
O céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silĂȘncio entre as flores,
Calava o mar, e rio nĂŁo se ouvia,

Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pĂĄssaros fragrantes,
Nem seu Ăąmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a SĂ­lvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.