Passagens sobre Luar

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Gazel do Amor Imprevisto

O perfume ninguém compreendia
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites,
inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um p√°lido ramo de sementes.
Procurei para dar-te, no meu peito,
as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial em minha boca,
tua boca j√° sem luz para esta morte.

Tradução de Oscar Mendes

IV

Vagueiam suavemente os teus olhares
Pelo amplo céu franjado em linho:
Comprazem-te as vis√Ķes crepusculares…
Tu és uma ave que perdeu o ninho.

Em que nichos doirados, em que altares
Repoisas, anjo errante, de mansinho?
E penso, ao ver-te envolta em véus de luares,
Que vês no azul o teu caixão de pinho.

√Čs a ess√™ncia de tudo quanto desce
Do solar das celestes maravilhas…
– Harpa dos crentes, c√≠tola da prece…

Lua eterna que n√£o tivesse fases,
Cintilas branca, imaculada brilhas,
E poeiras de astros nas sand√°lias trazes…

Cheiro De Esp√°dua

“Quando a valsa acabou, veio √† janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a esp√°dua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paix√£o, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ci√ļme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite √†quela esp√°dua linda!”

À Janela De Garcia De Resende

Janela antiga sobre a rua plana…
Ilumina-a o luar com seu clar√£o…
Dantes, a descansar de luta insana,
Fui, talvez, flor no po√©tico balc√£o…

Dantes! Da minha glória altiva e ufana,
Talvez…Quem sabe?…Tonto de ilus√£o,
Meu rude coração de alentejana
Me palpitasse ao luar nesse balc√£o…

Mística dona, em outras Primaveras,
Em refulgentes horas de outras eras,
Vi passar o cortejo ao sol doirado…

Bandeiras! Pajens! O pend√£o real!
E na tua m√£o, vermelha, triunfal,
Minha divisa: um cora√ß√£o chagado!…

Surdo, Subterr√Ęneo Rio

Surdo, subterr√Ęneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a raz√£o de amar
– surdo, subterr√Ęneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Horas de Saudade

Vou de luar em rosto, descontente:
Meus olhos choram l√°grimas de sal.
‚ÄĒ Adeus, terras e mo√ßas do casal,
‚ÄĒ Adeus, √≥ cora√ß√£o da minha gente.

A hora da saudade é uma serpente:
Quero falar, n√£o posso, e antes que fale
Ela enlaça-me a voz tão cordial
Que as coisas mais me lembram fielmente.

Olhos de amora, e uma ave na garganta
Para enfeitiçar a alma quando canta,
Moças com sua parra de avental;

Graça, Beleza, um verso sem medida,
A Saudade desterrou-me a vida …
Sou um eco perdido noutro vale.

Alma a Sangrar

Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar bra√ßos para os alcan√ßar?!…

Insónia

Noite calada, como num lamento,
A voz das coisas ponho-me a escutar,
E ela vai, vai subindo ao Firmamento,
Num murm√ļrio constante, a solu√ßar.

Noites de Outono, como chora o vento…
Noites sem brilho, noites sem luar.
Noites de Outono, sois o meu tormento,
Tombam as folhas, ponho-me a cismar.

Noite morta. L√° fora a ventania
Passa rezando estranha litania,
Como sinos dobrando ao entardecer.

Vento que choras, dolorido canto,
Unge meus olhos, deixa-mos em pranto,
Para melhor assim adormecer.

Nada Pode Haver de mais Belo

Amigo Bernardo, dos desertos do Ronc√£o d‚Äôel-Rei, na mais bela po√©tica noite de luar que ver se possa, te escreve este teu amigo. Nada pode haver de mais belo; os rouxin√≥is cantam √† desgarrada, o ar rescende dos milhares de loendros (laurier-rose) que cobrem as encostas alcantiladas do Guadiana. Que maravilha, que encanto, que tristeza (tu, com certeza, aqui choravas)! Neste momento, houve-se o sinistro roncar da coruja e o long√≠nquo uivar dos lobos, misturado com o forte ladrar dos rafeiros e os nossos cavalos relincham inquietos nas quadras… √Č √† luz dum prosaico casti√ßal (uma garrafa com uma vela) que te escrevo estas sentidas regras, que espraio sobre este branco papel as ondas da minha melancolia. E como n√£o estar melanc√≥lico se acabamos de fazer dezasseis l√©guas a cavalo em oito horas e n√£o descans√°mos e n√£o dormimos a noite passada sen√£o uma m√≠sera hora e vemos apenas diante de n√≥s umas velhas esteiras, as nossas mantas, e os aparelhos dos nossos cavalos como travesseiros, para passarmos umas noites.

C√Ęntico ao Amor

Somos na obra do Mundo
um corpo em carne e desejo
que alimenta de alquimia
o tumulto do vento
que o tempo do teu corpo espalha
ao passar.

√Čs mar,
és rainha
és o sol da tarde confidente
és acácia perfumada
companheira coroada
voz de inquietação
és insónia de seda
nas paredes do meu corpo.
Sulcas a lembrança
batalhas a meu lado
vives comigo às escondidas
mesmo no dia
do meu suicídio.

Recordas-me a tarde
nos Champs Elysées
mas também em Roma, Veneza ou Madrid
minha companheira coroada
minha ac√°cia perfumada
trazes a tarde incendiada trazes
a tarde no teu olhar
lembras a praia
onde nas ondas mergulh√°mos,
vem contigo a madrugada
beijada de carícias,
meus olhos n√£o se cansam
s√£o fruto do teu reino
oh sempre bela
oh sempre rainha,
tua palavra determinante
tuas m√£os determinadas
tua alma vibrante
tua boca de eternidade
minha ac√°cia perfumada
minha coluna rainha
falas comigo baixinho
d√°s-me tua vontade em surdina.

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Sonho Branco

De linho e rosas brancas vais vestido,
Sonho virgem que cantas no meu peito!…
√Čs do Luar o claro deus eleito,
Das estrelas puríssimas nascido.

Por caminho aromal, enflorescido,
Alvo, sereno, límpido, direito,
Segues radiante, no esplendor perfeito,
No perfeito esplendor indefinido…

As aves sonorizam-te o caminho…
E as vestes frescas, do mais puro linho
E as rosas brancas d√£o-te um ar nevado…

No entanto, √ď Sonho branco de quermesse!
Nessa alegria em que tu vais, parece
Que vais infantilmente amortalhado!

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

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Ontologia do Amor

Tua carne é a graça tenra dos pomares
e abre-se teu ventre de uma a outra lua;
de teus próprios seios descem dois luares
e desse luar vestida é que ficas nua.

√ānsia de voo em asas de ficar
de ti mesma sou o mar e o fundo.
Praia dos seres, quem te viajar
só naufragando recupera o mundo.

Ritmo de céu, por quem és pergunta
de uma azul resposta que n√£o trazes junta
vitral de carne em catedral infinda.

Ter-te amor é já rezar-te, prece
de um imenso altar onde acontece
quem no próprio corpo é céu ainda.

Primeira Comunh√£o

Grinaldas e véus brancos, véus de neve,
Véus e grinaldas purificadores,
V√£o as Flores carnais, as alvas Flores
Do Sentimento delicado e leve.

Um luar de pudor, sereno e breve,
De ignotos e de pr√īnubos pudores,
Erra nos pulcros virginais brancores
Por onde o Amor par√°bolas descreve…

Luzes claras e augustas, luzes claras
Douram dos templos as sagradas aras,
Na comunh√£o das n√≠veas h√≥stias frias…

Quando seios pubentes estremecem,
Silfos de sonhos de vol√ļpia crescem,
Ondulantes, em formas alvadias…

Um sonhador é aquele que só ao luar descobre o seu caminho e que, como punição, apercebe a aurora antes dos outros.

Esta Palavra Saudade

Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Cam√Ķes, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso…

Eis que na rua um c√Ęntico amoroso
subit√Ęneo se ouviu da noite em meio:
J√° se abrem as adufas com receio…
Noites de amores! Que trovar mimoso!

Cam√Ķes acorda e √† gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.

Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Nat√©rcia gentil o vulto amado…

Menino e Moço

Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta Aguia, linda fada,
Que d’antes estendia as azas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz d’essa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa viz√£o de luar que vivia encantada,
N’um castello de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
Ellas, por√©m, Senhor! ellas n√£o voltam mais…

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
√Č como um c√°lix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

Como um beijo de m√°goa e de ansiedade,
Como um terno crep√ļsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

Como um sud√°rio de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

A Essência das Coisas

Nunca me conformei com um conceito puramente científico da Existência, ou aritmético-geométrico, quantitativo-extensivo. A existência não cabe numa balança ou entre os ponteiros dum compasso. Pesar e medir é muito pouco; e esse pouco é ainda uma ilusão. O pesado é feito de imponderáveis, e a extensão de pontos inextensos, como a vida é feita de mortes.
A realidade n√£o est√° nas apar√™ncias transit√≥rias, reflexos palpitantes, simulacros luminosos, um aflorar de quimeras materiais. Nem √© s√≥lida, nem l√≠quida, nem gasosa, nem electromagn√©tica, palavras com o mesmo significado nulo. Foge a todos os c√°lculos e a todos os olhos de vidro, por mais longe que eles vejam, ou se trate dum n√ļcleo at√≥mico perdido no infinitamente pequeno, ou da nebulosa Andr√≥meda, a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!
A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão. Esta apenas descobre um simples jogo de forças repetido ou modificado lentamente, gestos insubstanciais, formas ocas, a casca de um fruto proibido.
Mas o miolo é do poeta. Só ele saboreia a vida até ao mais íntimo do seu gosto amargoso,

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