Passagens sobre R√°dio

28 resultados
Frases sobre r√°dio, poemas sobre r√°dio e outras passagens sobre r√°dio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A r√°dio foi para a m√ļsica o que o jornalismo foi para a literatura. Da mesma maneira que n√£o h√° Cervantes que resista entre duas colunas de uma gazeta, n√£o h√° Beethoven que se aguente entre dois fados da Mouraria.

Alheamento

Meu corpo estira√ßado, l√Ęnguido, ao logo do leito.

O cigarro vago azulando os meus dedos.

O r√°dio… a m√ļsica…

A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da m√ļsica…

Ausência!, minha doce fuga!

Estranha coisa esta, a poesia,
que vai entornando m√°goa nas horas
como um orvalho de l√°grimas, escorrendo dos vidros
duma janela,

numa tarde vaga, vaga…

O Tele-Lixo

Se a √ļnica coisa que oferecerem √†s pessoas for tele-lixo e omitirem que existem outras coisas, elas acreditar√£o que n√£o existe mais nada para l√° do lixo. Nestes momentos, a audi√™ncia √© a rainha e por causa dela √© l√≠cito uma pessoa at√© matar a av√≥. Os meios de comunica√ß√£o t√™m grande parte da responsabilidade nisto, embora seja necess√°rio perguntar quem move os seus fios. Por detr√°s h√° sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma r√°dio livre? Uma televis√£o objectiva? Isso n√£o existe. Essa mistura, o tele-lixo e os meios de comunica√ß√£o dependentes, provoca que a sociedade esteja gravemente doente.

A comunicação de massas, a rádio, e especialmente a televisão, tem tentado, não sem sucesso, aniquilar toda a possibilidade de estarmos sós e reflectirmos.

Eu sei criar sil√™ncio. √Č assim: ligo o r√°dio bem alto ‚Äď ent√£o de s√ļbito desligo. E assim capto o sil√™ncio. Sil√™ncio estelar. O sil√™ncio da lua muda. P√°ra tudo: criei o sil√™ncio. (…) O sil√™ncio n√£o √© o vazio, √© a plenitude.

O homem é um animal que adora tanto as novidades que se o rádio fosse inventado depois da televisão haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem.

Os pensamentos e os sentimentos que passam pela nossa mente espalham-se por todo o Universo como as ondas de rádio. Mesmo que os disfarcemos com nossa fisionomia ou os controlemos com nossa força de vontade, eles voam como sementes transportadas pelo vento e germinam em algum lugar.

Observando os doentes, noto que quase todos pretendem acreditar em Deus se forem curados. Mas eles est√£o invertendo a ordem: ser√£o curados se acreditarem em Deus. Acreditar em Deus significa sintonizar o ‚Äėradiorreceptor mental‚Äô com Deus. Se n√£o sintonizarmos o r√°dio com a emissora, n√£o poderemos ouvir suas transmiss√Ķes. Quem diz que n√£o √© imagem feita de mat√©ria, nem esp√≠rito que possui apegos. Deus verdadeiro √© √ļnico, √© nosso criador e salvador. E para nos comunicarmos com Deus, devemos ajustar nosso ‚Äėreceptor mental‚Äô √† mesma frequ√™ncia dEle.

Desejos em Função das Necessidades

O desejo tem mais fantasia do que a inclinação, e nem sempre ocorre segundo a necessidade. Pode-se desejar uma coisa da qual não se tem experiência. Por isso não existe limite aos desejos que os inventores nos possam dar, como o avião, o rádio, a televisão, ir à lua, etc. Deseja-se o novo. A sensatez exige que estabeleçamos os nossos desejos a partir das nossas necessidades e mesmo (afinal, adquirem-se necessidades) a partir do nível médio dos homens.

Uma lembran√ßa forte √© minha m√£e ouvindo r√°dio, cantando e me ensinando a amar a m√ļsica brasileira.

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
√Č dia de passar a m√£o pelo rosto das crian√ßas,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
√Č dia de pensar nos outros ‚Äď coitadinhos ‚Äď nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que n√£o merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
√Č s√≥ abrir o r√°dio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
N√£o seja est√ļpido! Compre imediatamente um rel√≥gio de pulso antimagn√©tico.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela,

Continue lendo…

No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós

O comum das gentes (de Portugal) que eu n√£o chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum √© bom. Mas √© exactamente porque √© bom, que abusam dele. Os pr√≥prios v√≠cios v√™m da sua ingenuidade, que √© onde a bondade tamb√©m mergulha. S√≥ que precisa sempre de lhe dizerem onde aplic√°-la. N√≥s somos por instinto, com intermit√™ncias de consci√™ncia, com uma generosidade e delicadeza incontrol√°veis at√© ao rid√≠culo, astutos, comunic√°veis at√© ao dislate, corajosos at√© √† temeridade, orgulhosos at√© √† petul√Ęncia, humildes at√© √† subservi√™ncia e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes t√™m assim o seu lado negativo, ou seja, o seu v√≠cio. √Č o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular √© disso que vive.
Mas, no fim de contas, que √© que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma ¬ęciviliza√ß√£o planet√°ria¬Ľ? Que significa o regionalismo em face da r√°dio e da TV? O rasoiro que nivela a prov√≠ncia √© o que igualiza as na√ß√Ķes. A anula√ß√£o do indiv√≠duo de facto √© o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, lingu√≠stica, freudismo, comunismo, tecnocracia s√£o faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Gr√©cia,

Continue lendo…

Um bigode é muito mais do que uma pilosidade: é uma metafísica. Vem acompanhado de conversas sobre a necessidade de estudar para ser alguém na vida, a utilidade de amortizar o crédito à habitação, a urgência de substituir as velas do carro, a saudade de quando o fado era o fado, a rádio era a rádio e a Amália Rodrigues cantava o fado na rádio, tanto na Emissora Nacional como na Voz de Lisboa.

Pensar Custa

Pensar √© a todo momento e a todo custo. Pensar d√≥i, cansa e s√≥ traz aborrecimentos. Melhor √© n√£o pensar. Mas pensar n√£o √© facultativo. Se o c√©rebro, a m√≠nima parte dele que seja, deixa de estar alerta por um momento, penetram l√°, como parasitas dif√≠ceis de erradicar, ¬ęideias¬Ľ vindas da imprensa, do r√°dio, da televis√£o, da propaganda geral, dos produtos em s√©rie, do consumo degenerado, dos doutores em lei, arte, literatura, ci√™ncia, pol√≠tica, sociologia. Essa massa de desinforma√ß√£o, n√£o s√≥ in√ļtil como nociva, nos √©, ali√°s, imposta de maneira criminosa nos primeiros anos de nossa vida. E se, algum dia, chegamos a pensar no verdadeiro sentido do termo, todo o restante esfor√ßo da exist√™ncia √© para nos livrarmos de uma lament√°vel heran√ßa cultural. Pois, infelizmente, o c√©rebro humano √© um dos poucos √≥rg√£os do corpo que n√£o t√™m uma v√°lvula excretora. E as fezes culturais ficam l√°, nos envenenando pelo resto da vida, transformando o mais complexo e mais nobre √≥rg√£o do corpo numa imensa fossa, imunda e fedorenta. Um lament√°vel erro da Cria√ß√£o.

Poema da Necessidade

√Č preciso casar Jo√£o,
é preciso suportar António,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

√Č preciso salvar o pa√≠s,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

√Č preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

√Č preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.

Fico Sozinho com o Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares v√°rios da acumula√ß√£o da vida…
Calaram o piano no terceiro andar…
N√£o oi√ßo j√° passos no segundo andar…
No r√©s-do-ch√£o o r√°dio est√° em sil√™ncio…

Vai tudo dormir…

Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que c√©u anticitadino! ‚ÄĒ
Antes, recluso,
Num desejo de n√£o ser recluso,
Escuto ansiosamente os ru√≠dos da rua…
Um autom√≥vel ‚ÄĒ demasiado r√°pido! ‚ÄĒ
Os duplos passos em conversa falam-me…
O som de um port√£o que se fecha brusco d√≥√≠-me…

Vai tudo dormir…

Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma…
Qualquer coisa.

O Poder das Palavras

A humanidade entrar√° no terceiro mil√©nio sob o imp√©rio das palavras. N√£o √© verdade que a imagem esteja a suplant√°-las nem que possa extingui-las. Pelo contr√°rio, est√° a potenci√°-las: nunca houve no mundo tantas palavras com tanto alcance, autoridade e arb√≠trio como na imensa Babel da vida atual. Palavras inventadas, maltratadas ou sacralizadas pela imprensa, pelos livros descart√°veis, pelos cartazes de publicidade; faladas e cantadas pela r√°dio, pela televis√£o, pelo cinema, pelo telefone, pelos altifalantes p√ļblicos: gritadas √† brocha nas paredes da rua ou sussurradas ao ouvido nas penumbras do amor. N√£o: o grande derrotado √© o sil√™ncio. As coisas t√™m agora tantos nomes em tantas l√≠nguas que j√° n√£o √© f√°cil saber como se chamam em nenhuma. Os idiomas dispersam-se √† r√©dea solta, misturam-se e confundem-se, desembestados rumo ao destino inelut√°vel de uma l√≠ngua global.

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
p√īr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por c√° mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.

Continue lendo…

Versos A Um Coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, tr√™s, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em f√ļlgidos letreiros,
Na progress√£o dos n√ļmeros inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pit√°goras da √ļltima aritm√©tica,
Continua a contar na paz ascética
Dos t√°bidos carneiros sepulcrais

T√≠bias, c√©rebros, cr√Ęnios, r√°dios e √ļmeros,
Porque, infinita como os pr√≥prios n√ļmeros
A tua conta n√£o acaba mais!