Passagens sobre Sal

91 resultados
Frases sobre sal, poemas sobre sal e outras passagens sobre sal para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

L√°grima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma l√°grima
para a analisar.

Recolhi a l√°grima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os √°cidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
√Āgua (quase tudo)
e cloreto de sódio.

Soneto 345 Caet√Ęnico

Arauto da verdade tropical,
cantou nomes de nomes, como Arrigo,
Jacinto Pinto Aquino Rego, digo,
Mattoso, Matos, Tons, Tins, Bens, e tal.

Prop√īs orientar o carnaval,
e a nave conseguiu singrar consigo.
Tratou de igual pra igual o joio e o trigo.
Juntou sopa com mel, mam√£o com sal.

Aos probos proibiu de proibir.
Aos pobres deu licença de brilhar.
Bebeu da juventude um elixir.

Tem mais caetanidade em caetanar
que aos outros antrop√īnimos ser Sir.
Seu Zé não é Caetano, uns nunca é par.

Poeminha Compensatório

Amigas, venham todas
Tragam o sal, o sol, o som, a vida,
O riso, a onda.
Eu sou o Cavalheiro da Triste Figura
Mas tenho uma bela T√°vola Redonda

Saio sempre do cinema
Com o sentimento desagrad√°vel
De que, se n√£o houvesse lido a
Crítica, teria sido formidável!

Portugal

√ď Portugal, se fosses s√≥ tr√™s s√≠labas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento c√£o asm√°tico das praias,
o grilo engaiolado, a grila no l√°bio,
o calend√°rio na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de pl√°stico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Goleg√£,
n√£o h√° ¬ępapo-de-anjo¬Ľ que seja o meu derri√ßo,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: quest√£o que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso,

Continue lendo…

Os gracejos (ditos espirituosos) são como o sal: em dose adequada dão sabor à vida, mas se passarem dos limites, tornam a vida desagradável. Gracejos de bom-gosto são como pargo assado e temperado com sal: agrada ao paladar por seu sabor suave. Assim são os gracejos que de vez em quando saem da boca de pessoas discretas.

Ars Poética

Nesse afago do meu fado afogado
as √°guas j√° me sabem nadador.
A rês na travessia marejada
gado da grei de um mar revelador.

Vou e volto lambendo o sal do fardo
língua no labirinto, ardendo em cor
furtiva, enquanto messe temperada,
da tribo das palavras sou cantor.

Procuro em frio exílio tipográfico
o verbo mais sonoro em melodia
o ritmo para a cal de um pasto c√°ustico.

Sou boi e sou vaqueiro dia a dia
no laço entrelaçado fiz-me prático
catador de capins nas pradarias.

Elegia Marítima

Nasceu da terra. Seu corpo,
feito do limo das grutas,
surgiu cavalgando um rio
por uma estrada de luas.

Através de ondas agrestes
de um oceano vegetal,
de onde acenavam aos olhos
ilhotas de manac√°s,

alcançou o colo das praias
que a m√£o lasciva do mar
aperta, despe e mergulha
em seu aroma de sal.

Ali viveu junto às vagas
essa esquiva amendoeira,
cabelos soltos à brisa,
pés escondidos na areia.

Um dia o mar a arrastou
através de ilhas sem fim.
Parti com ela. E hoje canta
a morte dentro de mim.

Horas de Saudade

Vou de luar em rosto, descontente:
Meus olhos choram l√°grimas de sal.
‚ÄĒ Adeus, terras e mo√ßas do casal,
‚ÄĒ Adeus, √≥ cora√ß√£o da minha gente.

A hora da saudade é uma serpente:
Quero falar, n√£o posso, e antes que fale
Ela enlaça-me a voz tão cordial
Que as coisas mais me lembram fielmente.

Olhos de amora, e uma ave na garganta
Para enfeitiçar a alma quando canta,
Moças com sua parra de avental;

Graça, Beleza, um verso sem medida,
A Saudade desterrou-me a vida …
Sou um eco perdido noutro vale.

Talento é mais barato que sal. O que separa a pessoa talentosa da bem-sucedida é muito trabalho duro.

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Fr√°geis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas √© outra a hist√≥ria:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

A d√ļvida √© o sal do esp√≠rito, sem uma pitada de d√ļvida, todos os conhecimentos em breve apodreceriam.

Coda

In√ļtil escapar. A presen√ßa perdura.
Desde que sinto ch√£o
ou de verde
ou de pedra

é teu rastro que encontro e encontro em ti meu chão.

E quando te pressinto
o de verde é mais terno
e o de mais dura pedra
um sens√≠vel dur√Ęmen.

Tu que arrancas até da rocha viva o sangue,
tu que vens pela foz destes veios de eu te amo:
‚ÄĒ Em que s√©culo, amor, nossas almas se fundem?
Em que terra?

Através de que mar? Ah que céu
velho c√©u j√° chorou por n√≥s ‚ÄĒ perdidos c√ļmulos ‚ÄĒ
guaiando em nosso mundo impossíveis azuis?
E desde quando o amor se abriu aos nossos olhos?
De que abrolhos e sal de amar nos marejou?

Em meu solo és madeiro
e nave
e asa que sonha.
Em todo canto te acho e onde é teu canto eu sou.

Senhora II

No calmo colo meus segredos pouso
Senhora que cavalga meu sendeiro.
Convoco vossa ajuda neste escorço
para viver a vida por inteiro.

N√£o sei se o vero verbo em que repouso
vem me afogar no mais turvo atoleiro
mas sei pela certeza que em meu fosso
nunca se afunda o trato companheiro.

Meu rosto depressivo de exilado
alberga-se em vossa aura na fadiga
trazendo o sal dos olhos marejados.

√Āguas que s√£o garoa da cantiga
de recorrentes gotas despejadas
as vossas m√£os regando, amada e amiga.

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

Continue lendo…

Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

Continue lendo…

Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e j√° em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Toada Para Solo De Ocarina

Fio tênue do céu em claridade
tece esse manto gris meu agasalho
colhido pelos muros da cidade:
mucosa verde musgo que se espalha

como tapete denso em ch√£o de jade
Meus pés de crivo cravam esse atalho
riscando seu grafite no mar que arde
o fogo-de-santelmo em céu talhado

Nesse caminho caio em minha sina
caio no mar que lava essa lavoura
num barco ébrio que sempre desafina

E colho o sal da noite a lua moura
crescente luz de foice me assassina
e me morro no haxixe com Rimbaud

Soneto Da Mulher Ao Sol

Uma mulher ao sol – eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos l√°bios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol – eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pelo √ļmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente – e se deixes a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir…