Textos sobre Efeito de Friedrich Nietzsche

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Textos de efeito de Friedrich Nietzsche. Leia este e outros textos de Friedrich Nietzsche em Poetris.

O Bom Senso como Suporte da Humanidade

Se n√£o tivesse havido em todos os tempos uma maioria de homens para fazer depender o seu orgulho, o seu dever, a sua virtude da disciplina do seu esp√≠rito, da sua ¬ęraz√£o¬Ľ, dos amigos do ¬ębom senso¬Ľ, para se sentirem feridos e humilhados pela menor fantasia, o menor excesso da imagina√ß√£o, a humanidade j√° teria naufragado h√° muito tempo.
A loucura, o seu pior perigo, n√£o deixou nunca, com efeito, de planar por cima dela, a loucura prestes a estalar… quer dizer a irrup√ß√£o da lei do bom prazer em mat√©ria de sentimento de sensa√ß√Ķes visuais ou auditivas, o direito de gozar com o jorro do esp√≠rito e de considerar como um prazer a irris√£o humana. N√£o s√£o a verdade, a certeza que est√£o nos ant√≠podas do mundo dos insensatos; √© a cren√ßa obrigat√≥ria e geral, √© a exclus√£o do bom prazer no ajuizar. O maior trabalho dos homens foi at√© agora concordar sobre uma quantidade de coisas, e fazer uma lei desse acordo,… quer essas coisas fossem verdadeiras ou falsas. Foi a disciplina do esp√≠rito que preservou a humanidade,… mas os instintos que a combatem s√£o ainda t√£o poderosos que em suma s√≥ se pode falar com pouca confian√ßa no futuro da humanidade.

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O Criminoso e o que lhe é afim

O tipo do criminoso √© o tipo do homem forte colocado em condi√ß√Ķes desfavor√°veis, um homem forte posto enfermo. O que lhe falta √© a selva virgem, uma natureza e uma forma de existir mais livres e perigosas, nas quais seja leg√≠timo tudo o que no instinto do homem forte √© arma de ataque e de defesa. As suas virtudes foram proscritas pela sociedade: os seus instintos mais en√©rgicos, que lhe s√£o inatos, misturam-se imediatamente com os efeitos depressivos, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta √© quase a f√≥rmula da degenera√ß√£o fisiol√≥gica. Quem tem de fazer √†s escondidas, com uma tens√£o, uma previs√£o, uma ang√ļstia prolongadas, aquilo que melhor pode fazer, o que mais gosta de fazer, torna-se for√ßosamente an√©mico; e como a √ļnica colheita que obt√©m dos seus instintos √© sempre perigo, persegui√ß√£o, calamidades, tamb√©m o seu sentimento se vira contra esses instintos ‚ÄĒ sente-os como uma fatalidade. √Č assim na nossa sociedade, na nossa domesticada, med√≠ocre, castrada sociedade onde um homem vindo da natureza, chegado das montanhas ou das aventuras do mar degenera necessariamente em criminoso.

O Ponto da Sinceridade no Embuste

Em todos os grandes embusteiros h√° um fen√≥meno digno de nota, ao qual eles devem o seu poder. No pr√≥prio acto do embuste, entre todos os preparativos, com o horripilante na voz, na express√£o, nos gestos, no meio da eficiente encena√ß√£o, acomete-os a cren√ßa em si pr√≥prios: √© esta que, t√£o milagrosa e fascinante, fala ent√£o aos circunstantes. Os fundadores das religi√Ķes distinguem-se desses grandes embusteiros por n√£o sairem deste estado de auto-ilus√£o: ou, muito raramente, l√° t√™m aqueles momentos mais l√ļcidos, em que a d√ļvida os subjuga; mas, habitualmente, consolam-se, atribuindo esses momentos mais l√ļcidos ao maligno Satan√°s. O engano de si pr√≥prio tem de estar presente, para que estes como aqueles fa√ßam um efeito grandioso. Pois as pessoas acreditam na verdade daquilo que, visivelmente, √© crido com veem√™ncia.

O Homem Cruel

Quando o rico ti¬≠ra um pertence ao pobre (por exemplo, um pr√≠ncipe que tira a amante ao plebeu), ent√£o gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta¬≠mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele n√£o sente de modo algum t√£o profunda¬≠mente o valor de um √ļnico pertence, porque est√° ha¬≠bituado a ter muitos: portanto, n√£o se pode trans¬≠por para o esp√≠rito do pobre e n√£o comete tal uma injusti√ßa t√£o grande como este julga. Ambos t√™m um do outro uma concep√ß√£o errada. A injusti√ßa do poderoso, a que mais indigna na Hist√≥ria, n√£o √© as¬≠sim t√£o grande como parece. O mero sentimento heredit√°rio de ser um ser superior, com direitos su¬≠periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consci√™ncia tranquila: at√© todos n√≥s, se a dist√Ęncia entre n√≥s e um outro ente for muito grande, j√° n√£o sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso,

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Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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Reclamar com Espalhafato

Pelo facto de uma situa√ß√£o de crise (por exemplo, os v√≠cios de uma administra√ß√£o, a corrup√ß√£o e o favoritismo em agremia√ß√Ķes pol√≠ticas ou eruditas) ser descrita com forte exagero, essa descri√ß√£o perde, na verdade, o seu efeito junto das pessoas sensatas, mas actua tanto mais fortemente sobre as que o n√£o s√£o (as quais teriam permanecido indiferentes ante uma exposi√ß√£o bem comedida). Como estas, por√©m, constituem uma significativa maioria e albergam em si uma maior for√ßa de vontade e um gosto mais impetuoso pela ac√ß√£o, esse exagero torna-se pretexto para inqu√©ritos, puni√ß√Ķes, promessas, reorganiza√ß√Ķes. √Č nessa medida que √© rent√°vel descrever situa√ß√Ķes cr√≠ticas em termos exagerados.

O Embuste dos Artistas e Escritores

Estamos habituados, perante tudo o que √© perfeito, a omitir a quest√£o do seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presen√ßa, como se ele tivesse sa√≠do do ch√£o por artes m√°gicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiqu√≠ssimo sentimento mitol√≥gico. Quase nos sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa manh√£, um deus, brincando, tivesse constru√≠do a sua morada com t√£o gigantescos fardos. Outras vezes, como se um esp√≠rito tivesse subitamente sido metido por encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar atrav√©s dela. O artista sabe que a sua obra s√≥ produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisa√ß√£o, numa miraculosa instantaneidade da sua cria√ß√£o; e, assim, ele ajuda mesmo a essa ilus√£o, introduzindo na arte, ao come√ßo da sua cria√ß√£o, aqueles elementos de entusi√°stica inquieta√ß√£o, de desordem que tacteia √†s cegas, de sonho atento, como forma de iludir, a fim de dispor o esp√≠rito do espectador ou do ouvinte de modo a que ele creia no s√ļbito brotar da perfei√ß√£o.
A ci√™ncia da arte, como √© evidente, tem de contradizer essa ilus√£o da maneira mais determinada e apontar as conclus√Ķes err√≥neas e os maus h√°bitos do intelecto,

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Moralidade e Êxito

N√£o s√£o s√≥ os espectadores de um acto que, ami√ļde, medem o que √© moral ou imoral no mesmo, consoante o √™xito: n√£o, o pr√≥prio autor tamb√©m o faz. Pois os motivos e as inten√ß√Ķes raramente s√£o suficientemente claros e simples, e, √†s vezes, a pr√≥pria mem√≥ria parece perturbada pelo efeito do acto, de modo que a pessoa atribui ao seu pr√≥prio acto motivos falsos ou trata como essenciais os motivos secund√°rios. O √™xito d√°, muitas vezes, a um acto todo o honesto brilho da boa consci√™ncia, um malogro coloca a sombra do remorso sobre a ac√ß√£o mais respeit√°vel. Da√≠ resulta a conhecida pr√°tica do pol√≠tico, que pensa: ¬ęDai-me simplesmente o √™xito! Com ele, tamb√©m terei posto do meu lado todas as almas honestas… e ter-me-ei tornado honesto, perante mim pr√≥prio¬Ľ. De maneira an√°loga, o √™xito √© suposto substituir a melhor fundamenta√ß√£o.

O Valor Natural do Egoísmo

O ego√≠smo vale o que valer fisiologicamente quem o pratica: pode ser muito valioso, e pode carecer de valor e ser desprez√≠vel. E l√≠cito submeter a exame todo o indiv√≠duo para se determinar se representa a linha ascendente ou a linha descendente da vida. Quando se conclui a aprecia√ß√£o sobre este ponto possui-se tamb√©m um c√Ęnone para medir o valor que tem o seu ego√≠smo. Se se encontra na linha ascendente, ent√£o o valor do seu ego√≠smo √© efectivamente extraordin√°rio, ‚ÄĒ e por amor √† vida no seu conjunto, que com ele progride, √© l√≠cito que seja mesmo levada ao extremo a preocupa√ß√£o por conservar, por criar o seu optimum de condi√ß√Ķes vitais. O homem isolado, o ¬ęindiv√≠duo¬Ľ, tal como o conceberam at√© hoje o povo e o fil√≥sofo, √©, com efeito, um erro: nenhuma coisa existe por si, n√£o √© um √°tomo, um ¬ęelo da cadeia¬Ľ, n√£o √© algo simplesmente herdado do passado, ‚ÄĒ √© sim a inteira e √ļnica linhagem do homem at√© chegar a ele mesmo… Se representa a evolu√ß√£o descendente, a decad√™ncia, a degenera√ß√£o cr√≥nica, a doen√ßa (‚ÄĒ as doen√ßas s√£o j√°, de um modo geral, sintoma da decad√™ncia, n√£o causas desta), ent√£o o seu valor √© fraco,

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H√°bitos Breves

Gosto dos h√°bitos que n√£o duram; s√£o de um valor inapreci√°vel se quisermos aprender a conhecer muitas coisas, muitos estados, sondar toda a suavidade, aprofundar a amargura. Tenho uma natureza que √© feita de breves h√°bitos, mesmo nas necessidades de sa√ļde f√≠sica, e, de uma maneira geral, t√£o longe quanto posso ver nela, de alto a baixo dos seus apetites. Imagino sempre comigo que esta ou aquela coisa se vai satisfazer duradouramente – porque o pr√≥prio h√°bito breve acredita na eternidade, nesta f√© da paix√£o; imagino que sou invej√°vel por ter descoberto tal objecto: devoro-o de manh√£ √† noite, e ele espalha em mim uma satisfa√ß√£o, cujas del√≠cias me penetram at√© √† medula dos ossos, n√£o posso desejar mais nada sem comparar, desprezar ou odiar.
E depois um belo dia, a√≠ est√°: o h√°bito acabou o seu tempo; o objecto querido deixa-me ent√£o, n√£o sob o efeito do meu fastio, mas em paz, saciado de mim e eu dele, como se ambos nos dev√™ssemos gratid√£o e estendemo-nos a m√£o para nos despedirmos. E j√° um novo me aguarda, mas aguarda no limiar da minha porta com a minha f√© – a indestrut√≠vel louca… e s√°bia! – em que este novo objecto ser√° o bom,

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A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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A Dialéctica é o Último Recurso

A dial√©ctica s√≥ se adopta quando n√£o se pode utilizar nenhum outro meio. Sabe-se que com ela se inspira desconfian√ßa, que ela persuade pouco. Nada √© mais f√°cil de suprimir que o efeito de um dial√©ctico: a experi√™ncia de toda a reuni√£o em que haja discursos prova-o. A dial√©ctica s√≥ pode ser um recurso coagido, nas m√£os dos que n√£o t√™m j√° outras armas. √Č preciso que se tenha de conseguir pela for√ßa os pr√≥prios direitos: antes n√£o se faz nenhum uso dela.

Como a Aparência se Torna Ser

O actor acaba por n√£o deixar de pensar na impress√£o causada pela sua pessoa e no efeito c√©nico total, at√© por ocasi√£o da mais profunda m√°goa, por exemplo, mesmo no enterro do seu filho; chorar√° ante o seu pr√≥prio desgosto e respectivas exterioriza√ß√Ķes como sendo o seu pr√≥prio espectador. O hip√≥crita, que desempenha sempre um mesmo papel, acaba por deixar de ser hip√≥crita; por exemplo, sacerdotes, que, enquanto homens novos, s√£o habitualmente, de modo consciente ou inconsciente, hip√≥critas, por fim tornam-se naturais e s√£o, ent√£o, realmente, sem qualquer simula√ß√£o, mesmo sacerdotes; ou se o pai n√£o consegue l√° chegar, ent√£o, talvez, o filho, que se serve do avan√ßo do pai e herda a sua habitua√ß√£o. Se uma pessoa quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, consegue-o pois acaba por se lhe tornar dif√≠cil ser qualquer outra coisa. A profiss√£o de quase toda a gente, at√© do artista, come√ßa com hipocrisia, com uma imita√ß√£o a partir do exterior, com um copiar de aquilo que √© eficaz. Aquele, que traz sempre a m√°scara das express√Ķes fision√≥micas amistosas, tem de acabar por adquirir poder sobre as disposi√ß√Ķes an√≠micas ben√©volas, sem as quais n√£o √© poss√≠vel for√ßar a express√£o da afabilidade –

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Os Quatro Erros

A educa√ß√£o do homem foi feita pelos seus erros: em primeiro lugar, ele nunca se viu sen√£o imperfeitamente; em seguida, atribuiu-se qualidades imagin√°rias; em terceiro, sentiu-se em rela√ß√Ķes falsas diante da natureza e do reino animal; em quarto, nunca deixou de inventar t√°buas do bem sempre novas e tomou cada uma delas durante um certo tempo como eterna e absoluta, de tal maneira que o primeiro lugar foi ocupado sucessivamente por este ou aquele instinto ou este ou aquele estado que enobrece esta aprecia√ß√£o. Ignorar o efeito destes quatro erros √© suprimir a humanidade, o humanitarismo e a ¬ędignidade humana¬Ľ.