Citação de

O Embuste dos Artistas e Escritores

Estamos habituados, perante tudo o que √© perfeito, a omitir a quest√£o do seu processo evolutivo, regozijando-nos antes com a sua presen√ßa, como se ele tivesse sa√≠do do ch√£o por artes m√°gicas. Provavelmente, estamos ainda, neste caso, sob o efeito residual de um antiqu√≠ssimo sentimento mitol√≥gico. Quase nos sentimos ainda (por exemplo, num templo grego como o de Pesto) como se, numa manh√£, um deus, brincando, tivesse constru√≠do a sua morada com t√£o gigantescos fardos. Outras vezes, como se um esp√≠rito tivesse subitamente sido metido por encanto dentro duma pedra e quisesse, agora, falar atrav√©s dela. O artista sabe que a sua obra s√≥ produz pleno efeito, se fizer crer numa improvisa√ß√£o, numa miraculosa instantaneidade da sua cria√ß√£o; e, assim, ele ajuda mesmo a essa ilus√£o, introduzindo na arte, ao come√ßo da sua cria√ß√£o, aqueles elementos de entusi√°stica inquieta√ß√£o, de desordem que tacteia √†s cegas, de sonho atento, como forma de iludir, a fim de dispor o esp√≠rito do espectador ou do ouvinte de modo a que ele creia no s√ļbito brotar da perfei√ß√£o.
A ci√™ncia da arte, como √© evidente, tem de contradizer essa ilus√£o da maneira mais determinada e apontar as conclus√Ķes err√≥neas e os maus h√°bitos do intelecto, gra√ßas aos quais este cai na rede do artista.