Passagens sobre Espectadores

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Frases sobre espectadores, poemas sobre espectadores e outras passagens sobre espectadores para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida n√£o √© um vaidoso √† toa. Ele √© o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca √© gratuita, todo o rendimento poss√≠vel. Nos neg√≥cios, na pol√≠tica, no jornalismo, nas letras, nas artes. √Č t√£o capaz de aceitar uma condecora√ß√£o como de rejeit√°-la.

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Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.

O Todo n√£o Representa Nada

Olhem em redor deste universo. Que enorme profus√£o de seres, animados e organizados, sens√≠veis e activos! Voc√™s admiram esta extraordin√°ria variedade e fecundidade. Mas inspeccionem mais atentamente estas exist√™ncias vivas, os √ļnicos seres que merecem ser observados. Como s√£o hostis e destrutivos uns para os outros! Como todos eles s√£o insuficientes para a sua pr√≥pria felicidade! Como s√£o desprez√≠veis ou abomin√°veis para o espectador! O todo n√£o representa nada a n√£o ser a ideia de uma natureza cega, impregnada de um grande princ√≠pio estimulante, e vertendo do rega√ßo, sem discernimento nem cuidado paternal, os seus filhos mutilados e abortivos.

Mas os homens devem saber que só Deus e os anjos podem ser espectadores do teatro da vida humana.

Apreciação Imparcial

H√° poucos indiv√≠duos a quem √© dado contemplar uma obra de arte como espectadores tranquilos; mas √© dif√≠cil encontrar um que seja capaz ou tenha a vontade, ao mesmo tempo que deixa a obra penetr√°-lo, e escuta as suas impress√Ķes ou as palavras de outro, de permanecer simples observador. Sem se dar conta disso, torna-se cr√≠tico, procurando mostrar a sua for√ßa de ju√≠zo, exercer o seu humor e avaliar a sua pr√≥pria pessoa.
O ing√©nuo f√°-lo inicialmente, √© certo, sem a menor inten√ß√£o mal√©vola; mas mesmo nele, as propriedades naturais do indiv√≠duo n√£o tardam a imp√īr os seus direitos – vaidade e pedantice, desejo de ser superior aos seus pr√≥prios olhos e aos olhos dos outros – de tal modo que depressa estar√° mais decidido a desvelar as fraquezas de uma obra do que a aceitar os seus lados positivos.

A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

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A Necessidade da Compaix√£o

Arrebatavam-me os espect√°culos teatrais, cheios de imagens das minhas mis√©rias e de alimento pr√≥prio para o fogo das minhas paix√Ķes. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e tr√°gicas, se de modo algum deseja suport√°-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que √© isto sen√£o rematada loucura? Com efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos (delet√©rios). Mas ao sofrimento pr√≥prio chamamos ordinariamente desgra√ßa, e √† comparticipa√ß√£o das dores alheias, compaix√£o. Que compaix√£o √© essa em assuntos fict√≠cios e c√©nicos, se n√£o induz o espectador a prestar aux√≠lio, mas somente o convida √† ang√ļstia e a comprazer o dramaturgo na propor√ß√£o da dor que experimenta? E se aquelas trag√©dias humanas, antigas ou fingidas, se representam de modo a n√£o excitarem a compaix√£o, e espectador retira-se enfastiado e criticando. Pelo contr√°rio, se se comove, permanece atento e chora de satisfa√ß√£o.
Amamos, portanto, as l√°grimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ningu√©m apraz ser desgra√ßado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. N√£o gostaremos n√≥s dessas emo√ß√Ķes dolorosas pelo √ļnico motivo de que a compaix√£o √© companheira insepar√°vel da dor?

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Como a Aparência se Torna Ser

O actor acaba por n√£o deixar de pensar na impress√£o causada pela sua pessoa e no efeito c√©nico total, at√© por ocasi√£o da mais profunda m√°goa, por exemplo, mesmo no enterro do seu filho; chorar√° ante o seu pr√≥prio desgosto e respectivas exterioriza√ß√Ķes como sendo o seu pr√≥prio espectador. O hip√≥crita, que desempenha sempre um mesmo papel, acaba por deixar de ser hip√≥crita; por exemplo, sacerdotes, que, enquanto homens novos, s√£o habitualmente, de modo consciente ou inconsciente, hip√≥critas, por fim tornam-se naturais e s√£o, ent√£o, realmente, sem qualquer simula√ß√£o, mesmo sacerdotes; ou se o pai n√£o consegue l√° chegar, ent√£o, talvez, o filho, que se serve do avan√ßo do pai e herda a sua habitua√ß√£o. Se uma pessoa quiser, durante muito tempo e persistentemente, parecer alguma coisa, consegue-o pois acaba por se lhe tornar dif√≠cil ser qualquer outra coisa. A profiss√£o de quase toda a gente, at√© do artista, come√ßa com hipocrisia, com uma imita√ß√£o a partir do exterior, com um copiar de aquilo que √© eficaz. Aquele, que traz sempre a m√°scara das express√Ķes fision√≥micas amistosas, tem de acabar por adquirir poder sobre as disposi√ß√Ķes an√≠micas ben√©volas, sem as quais n√£o √© poss√≠vel for√ßar a express√£o da afabilidade –

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A Boa Vontade

De todas as coisas que podemos conceber neste mundo ou mesmo, de uma maneira geral, fora dele, n√£o h√° nenhuma que possa ser considerada como boa sem restri√ß√£o, salvo uma boa vontade. O entendimento, o esp√≠rito, o ju√≠zo e os outros talentos do esp√≠rito, seja qual for o nome que lhes dermos, a coragem, a decis√£o, a perseveran√ßa nos prop√≥sitos, como qualidades do temperamento, s√£o, indubit√°velmente, sob muitos aspectos, coisas boas e desej√°veis; contudo, tamb√©m podem chegar a ser extrordin√°riamente m√°s e daninhas se a vontade que h√°-de usar destes bens naturais, e cuja constitui√ß√£o se chama por isso car√°cter, n√£o √© uma boa vontade. O mesmo se pode dizer dos dons da fortuna. O poder, a riqueza, a considera√ß√£o, a pr√≥pria sa√ļde e tudo o que constitui o bem-estar e contentamento com a pr√≥pria sorte, numa palavra, tudo o que se denomina felicidade, geram uma confian√ßa que muitas vezes se torna arrog√Ęncia, se n√£o existir uma boa vontade que modere a influ√™ncia que a felicidade pode exercer sobre a sensibilidade e que corrija o princ√≠pio da nossa actividade, tornando-o √ļtil ao bem geral; acrescentemos que num espectador imparcial e dotado de raz√£o, testemunha da felicidade ininterrupta de uma pessoa que n√£o ostente o menor tra√ßo de uma vontade pura e boa,

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O escritor foi sempre um fun√Ęmbulo cego e o leitor √© apenas um espectador de passagem.

Reservando ao pintor a tarefa severa e controlável de começar os quadros, atribuímos ao espectador o papel vantajoso, cómodo e cómico de os acabar pela sua meditação ou pelo seu sonho.

Para a Minha Mulher

Desde que a Maria João casou (oficialmente) comigo há treze anos, damos por nós a casarmo-nos um com o outro, voluntária ou involuntariamente, várias vezes por dia.
Vou contar s√≥ uma. Esta semana, quando volt√°vamos da praia, a Maria Jo√£o estava a pentear-se e deu-me uns cabelos soltos para eu deitar pela janela do carro. Tive ci√ļmes que algu√©m pudesse apanhar os lindos cabelos dela e disse-lhe. Dei-lhes um beijinho e atirei-os ao vento. E a Maria Jo√£o disse: ¬ęAgora tenho eu ci√ļmes que algu√©m apanhe o cabelo com beijinhos teus¬Ľ.

Cas√°mos um com o outro nesse momento. J√° t√≠nhamos casado cinco vezes na praia. Casar √© o que acontece quando duas pessoas descobrem que, por estarem a fazer ou terem feito uma coisa grande ou pequena, s√£o as duas √ļnicas pessoas no mundo. Todas as outras pessoas n√£o podem fazer parte daquele prazer. Aquele prazer s√≥ √© poss√≠vel para duas pessoas concretas: ela e eu.

À nossa volta casavam-se muitas outras pessoas, casando-se mais por nós estarmos de fora, juntamente com todas as outras. Às vezes somos nós os espectadores. Vemos outras pessoas a casarem-se: um homem a rir-se leva uma mulher a rir-se nos braços pelo mar adentro e não a deixa cair até ela pedir.

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Os Momentos Decisivos

Tendemos a pensar que a verdade das pessoas emerge nos momentos decisivos, no fio da navalha, quando se testam os limites. A hora dos santos e dos her√≥is. Ora bem, nesses momentos o comportamento humano n√£o costuma ser nem exemplar nem animador. A chusma que se acotovela para chegar primeiro √† bilheteira da sala de concertos; os espectadores que se atropelam ao fugir de um teatro em chamas, espezinhando os mais fracos sem se aperceberem deles, a crian√ßa, as cansadas carnes do anci√£o, calcadas pelos tac√Ķes das jovens mulheres que se aperaltaram para a sa√≠da noturna; os honrados cidad√£os, incluindo as senhoras ‚ÄĒ de boas fam√≠lias, ou de fam√≠lias humildes, nisso n√£o h√° distin√ß√Ķes ‚ÄĒ, que golpeiam furiosamente com os remos as cabe√ßas dos n√°ufragos que tentam subir para o bote salva-vidas superlotado. Salve-se quem puder.

Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

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√Č preciso querer ser feliz e contribuir para isso. Se ficarmos na posi√ß√£o do espectador impass√≠vel, deixando para a felicidade apenas a entrada livre e as portas abertas, ser√° a tristeza que entrar√°.

Combater é uma Diminuição

Combater √©, em termos absolutos, uma diminui√ß√£o. O homem, quer defenda a p√°tria, quer defenda as ideias, desde que passa os dias aos tiros ao vizinho, mesmo que o vizinho seja o monstro dos monstros, est√° a perder grandeza. Sempre que por qualquer motivo a raz√£o passou a servir a paix√£o, houve um apoucamento do espirito, e √© dif√≠cil que o esp√≠rito se salve num processo onde ele entra diminu√≠do. Mas quando numa comunidade algu√©m endoidece e desata a ferir a torto e a direito, √© preciso dominar o possesso de qualquer forma, e a guerra √© fatal. Ent√£o, embora sabendo que vai empobrecer a sua alma, o homem normal come√ßa a lutar, e s√≥ a morte ou o triunfo o podem fazer parar. √Č tr√°gico, mas √© natural. O que √© contra todas as leis da vida √© ficar ao lado da contenda como espectador. Sendo uma diminui√ß√£o combater, √© uma trai√ß√£o sem nome lavar as m√£os do conflito, e passar as horas de bin√≥culo assestado a contemplar a desgra√ßa do alto dum monte. Assim √© que nada se salva. Fica-se homem sem qualquer sentido, manequim vestido de gente, coisa que n√£o tem personalidade. Porque nem se representa a intelig√™ncia,

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