Textos sobre Palavras de Arthur Schopenhauer

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Textos de palavras de Arthur Schopenhauer. Leia este e outros textos de Arthur Schopenhauer em Poetris.

Vontade Intuitiva

Devemos tomar como guias das nossas considera√ß√Ķes n√£o as imagens da fantasia, mas sim conceitos claramente pensados. Na maioria das vezes, entretanto, ocorre o contr√°rio. Mediante uma investiga√ß√£o mais minuciosa, descobriremos que, em √ļltima inst√Ęncia, o que decide as nossas resolu√ß√Ķes n√£o s√£o, na maioria das vezes, os conceitos e ju√≠zos, mas uma imagem fantasiosa que representa e substitui uma das alternativas.
(…) Em especial na juventude, a meta da nossa felicidade fixa-se na forma de algumas imagens que pairam diante de n√≥s e am√≠ude persistem pela metade da vida, ou at√© mesmo por toda ela. S√£o verdadeiros fantasmas provocadores: se alcan√ßados, esvaecem-se, e a experi√™ncia ensina-nos que nada realizam do outrora prometido.
(…) √Č bem natural que assim se passe, pois, por ser imediato, o que √© intuitivo faz efeito mais directo sobre a nossa vontade do que o conceito, o pensamento abstracto, que fornece apenas o universal sem o particular. √Č justamente este √ļltimo que cont√©m a realidade: ele s√≥ pode agir indirectamente sobre a nossa vontade. E, no entanto, s√≥ o conceito mant√©m a palavra: portanto, √© √≠ndice de forma√ß√£o cultural confiar apenas nele. Decerto, por vezes precisar√° de elucida√ß√£o e par√°frase mediante certas imagens,

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Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

A Amizade Verdadeira e Genuína

Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, tamb√©m no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade aut√™ntica, circulam as suas demonstra√ß√Ķes exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural poss√≠vel. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se h√° pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um c√£o leal do que a cem daquelas demonsta√ß√Ķes e gestos.
A amizade verdadeira e genu√≠na pressup√Ķe uma participa√ß√£o intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participa√ß√£o que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o ego√≠smo pr√≥prio √† natureza humana √© t√£o contr√°rio a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence √†quelas coisas que n√£o sabemos se s√£o mera f√°bula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, h√° muitas rela√ß√Ķes entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos ego√≠stas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um gr√£o daquela amizade verdadeira e genu√≠na, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa raz√£o, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfei√ß√Ķes. Elas elevam-se muito acima dos v√≠nculos ordin√°rios,

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O Mundo é a Minha Representação

O mundo é a minha representação. Esta proposição é uma verdade para todo o ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstracto e reflectido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra; mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; numa palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem.
Se existe uma verdade que se possa afirmar √† priori √© bem esta, pois ela exprime o modo de toda a experi√™ncia poss√≠vel e imagin√°vel, conceito muito mais geral mesmo que os de tempo, espa√ßo e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princ√≠pio de raz√£o, apenas √© aplic√°vel a uma ordem determinada de representa√ß√Ķes; a distin√ß√£o entre sujeito e objecto √©, pelo contr√°rio, o modo comum a todas, o √ļnico sob o qual se pode conceber uma qualquer representa√ß√£o, abstracta ou intuitiva, racional ou emp√≠rica.

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N√£o Amar nem Odiar

Se possível, não devemos alimentar animosidade contra ninguém, mas observar bem e guardar na memória os procedimentos de cada pessoa, para então fixarmos o seu valor, pelo menos naquilo que nos concerne, regulando, assim, a nossa conduta e atitude em relação a ela, sempre convencidos da imutabilidade do carácter. Esquecer qualquer traço ruim de uma pessoa é como jogar fora dinheiro custosamente adquirido. No entanto, se seguirmos o presente conselho, estaremos a proteger-nos da confiabilidade e da amizade tolas.
¬ęN√£o amar, nem odiar¬Ľ, eis uma senten√ßa que cont√©m a metade da prud√™ncia do mundo; ¬ęnada dizer e em nada acreditar¬Ľ cont√©m a outra metade. Decerto, daremos de bom grado as costas a um mundo que torna necess√°rias regras como estas e como as seguintes.
Mostrar c√≥lera e √≥dio nas palavras ou no semblante √© in√ļtil, perigoso, imprudente, rid√≠culo e comum. Nunca se deve revelar c√≥lera ou √≥dio a n√£o ser por actos; e estes podem ser praticados tanto mais perfeitamente quanto mais perfeitamente tivermos evitado os primeiros. Apenas animais de sangue frio s√£o venenosos.
Falar sem elevar a voz: essa antiga regra das gentes do mundo tem por alvo deixar ao entendimento dos outros a tarefa de descobrir o que dissemos.

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A Armadilha do Imediato

Como guia das nossas pr√≥prias aspira√ß√Ķes n√£o devemos tomar imagens da fantasia, mas conceitos. Geralmente ocorrer o inverso. Na juventude, em especial, a meta da nossa felicidade fixa-se na forma de algumas imagens que se implantam na nossa mente, frequentemente pela vida inteira ou por metade dela, mas na realidade n√£o passam de fantasmas que zombam de n√≥s: pois, no momento em que as alcan√ßamos, desfazem-se no nada, e vemos que n√£o cumprem nada daquilo que prometem.
Enquadram-se aqui determinadas cenas da vida dom√©stica, citadina, campestre, imagens da casa, do ambiente, etc. Chaque fou a sa marotte [cada louco com sua mania]. √Č comum tamb√©m fazer parte disso a imagem da amada. √Č natural que seja assim: pois o que √© evidente, justamente por ser imediato, tamb√©m age sobre a nossa vontade de modo mais directo do que o conceito, o pensamento abstracto, que fornece somente o universal, n√£o o detalhe, e tem uma rela√ß√£o apenas indirecta com a vontade. Em contrapartida, o conceito mant√©m a palavra. √Č ele que deve sempre guiar-nos e orientar-nos, embora seja certo que sempre necessitar√° da ilustra√ß√£o e da par√°frase por meio de imagens.

Dist√Ęncia e Longa Aus√™ncia Prejudicam Qualquer Amizade

Dist√Ęncia e longa aus√™ncia prejudicam qualquer amizade, por mais desgostoso que seja admiti-lo. As pessoas que n√£o vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo at√© ao estado de no√ß√Ķes abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, de tradi√ß√£o. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estima√ß√£o. T√£o presa aos sentidos √© a natureza humana. Por isso, aqui tamb√©m s√£o s√°bias as palavras de Goethe: O tempo presente √© um deus poderoso.
Os amigos da casa s√£o chamados assim com justeza, pois s√£o amigos mais da casa do que do dono, portanto, assemelham-se antes aos gatos do que aos c√£es.
Os amigos dizem-se sinceros; os inimigos o são. Sendo assim, deveríamos usar a censura destes para nosso autoconhecimento, como se fosse um remédio amargo.
Os amigos são raros na necessidade? Não, pelo contrário! Mal fazemos amizade com alguém, e logo ele estará em dificuldade, pedindo dinheiro emprestado.

Insultar é uma Honra

Assim como ser insultado √© uma vergonha, insultar √© uma honra. Por exemplo, mesmo que a verdade, o direito e a raz√£o estejam do lado do meu advers√°rio, n√£o deixo de insult√°-lo; desse modo, todas as suas qualidades passam a ser desconsideradas, e o direito e a honra passam a estar do meu lado. Ele, pelo contr√°rio, perdeu provisoriamente a sua honra – at√© conseguir restabelec√™-la, n√£o mediante direito e raz√£o, mas por tiros e estocadas. Logo, a rudeza √© uma qualidade que, no ponto de honra, substitui ou se sobrep√Ķe sobre as outras. O mais rude tem sempre raz√£o: para qu√™ tantas palavras? Qualquer estupidez, insol√™ncia, maldade que algu√©m possa ter feito, uma rudeza retira-lhes essa caracter√≠stica e elas s√£o de imediato legitimadas. Se, numa discuss√£o ou conversa, outro indiv√≠duo mostra conhecimento mais correcto do assunto, um amor mais austero √† verdade, um ju√≠zo mais saud√°vel, mais entendimento que n√≥s, ou se em geral exibe m√©ritos intelectuais que nos deixam na sombra, ent√£o podemos de imediato suprimir semelhantes superioridades e a nossa pr√≥pria mesquinhez por elas revelada e sermos, por nosso turno, superiores, tornando-nos ofensivos e rudes.
Pois uma rudeza derrota todo o argumento e eclipsa qualquer espírito;

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Quem n√£o Ama a Solid√£o, n√£o Ama a Liberdade

Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas.
Assim como o nosso corpo est√° envolto em vestes, o nosso esp√≠rito est√° revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ac√ß√Ķes, todo o nosso ser √© mentiroso, e s√≥ por meio desse inv√≥lucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo.

Antes de mais nada, toda a sociedade exige necessariamente uma acomoda√ß√£o m√ļtua e uma temperatura; por conseguinte, quanto mais numerosa, tanto mais enfadonha ser√°. Cada um s√≥ pode ser ele mesmo, inteiramente, apenas pelo tempo em que estiver sozinho. Quem, portanto, n√£o ama a solid√£o, tamb√©m n√£o ama a liberdade: apenas quando se est√° s√≥ √© que se est√° livre.
A coerção é a companheira inseparável de toda a sociedade, que ainda exige sacrifícios tão mais difíceis quanto mais significativa for a própria individualidade. Dessa forma, cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade.

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O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por n√≥s: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que est√° a aprender a escrever refaz com a pena as linhas tra√ßadas a l√°pis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar √©-nos subtra√≠do em grande parte. Isso explica o sens√≠vel al√≠vio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar √† leitura. Por√©m, enquanto lemos, a nossa cabe√ßa, na realidade, n√£o passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se v√£o, o que resta? Essa √© a raz√£o pela qual quem l√™ muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como algu√©m que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal √© a situa√ß√£o de muitos eruditos: √† for√ßa de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o esp√≠rito mais do que o trabalho manual cont√≠nuo, visto que, na execu√ß√£o deste √ļltimo, √© poss√≠vel entregar-se aos seus pr√≥prios pensamentos.
No entanto, como uma mola que, pela press√£o constante acarretada por meio de um corpo estranho,

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A Import√Ęncia de Aprender v√°rias L√≠nguas

Pessoas com poucas capacidades n√£o conseguir√£o realmente assimilar com facilidade uma l√≠ngua estrangeira: embora aprendam as suas palavras, empregam-nas apenas no significado do equivalente aproximado da sua l√≠ngua materna e continuam a manter as constru√ß√Ķes e frases pr√≥prias desta √ļltima. Com efeito, esses indiv√≠duos n√£o conseguem assimilar o esp√≠rito da l√≠ngua estrangeira, que depende essencialmente do facto do seu pensamento n√£o se dar por meios pr√≥prios, mas, em grande parte, de ser emprestado pela l√≠ngua materna, cujas frases e locu√ß√Ķes habituais substituem os seus pr√≥prios pensamentos. Eis, portanto, a raz√£o de eles sempre se servirem, tamb√©m na pr√≥pria l√≠ngua, de express√Ķes idiom√°ticas desgastadas, combinando-as de modo t√£o in√°bil, que logo se percebe qu√£o pouco se d√£o conta do seu significado e qu√£o pouco todo o seu pensamento supera as palavras, de modo que tudo se reduz a um palrat√≥rio de papagaios. Pela raz√£o oposta, a originalidade das locu√ß√Ķes e a adequa√ß√£o individual de cada express√£o usada por algu√©m s√£o o sintoma inequivoc√°vel de um esp√≠rito preponderante.
Por conseguinte, de tudo isso resultam os seguintes factores: no aprendizado de toda a língua estrangeira, são formados novos conceitos para dar significado a novos signos; certos conceitos separam-se uns dos outros, enquanto antes constituíam juntos um conceito mais amplo e,

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A Vida Real de um Pensamento

A vida real de um pensamento dura apenas at√© ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele lapidifica-se, morre, portanto, mas continua indestrut√≠vel, tal como os animais e as plantas f√≥sseis dos tempos pr√©-hist√≥ricos. Essa realidade moment√Ęnea da sua vida tamb√©m pode ser comparada ao cristal, no instante da cristaliza√ß√£o.
Pois, assim que o nosso pensamento encontra as palavras, ele j√° n√£o √© interno, nem est√° realmente no √Ęmago da sua ess√™ncia. Quando come√ßa a existir para os outros, ele deixa de viver em n√≥s, como o filho que se desliga da m√£e ao iniciar a pr√≥pria exist√™ncia. Mas diz tamb√©m o poeta:

N√£o me confundais com contradi√ß√Ķes!

Tão logo se fala, já se começa a errar.

N√£o Deixes Transparecer o Teu √ďdio e a Tua Ira

Deixar transparecer a ira ou o √≥dio em palavras ou express√Ķes faciais √© in√ļtil, perigoso, pouco inteligente, rid√≠culo e vulgar. Sendo assim, a ira ou o √≥dio devem ser demonstrados unicamente nas ac√ß√Ķes, e isso poder√° ser feito t√£o mais perfeitamente quanto mais perfeitamente forem evitadas as atitudes anteriores.

Os Escritores Medíocres

Essas mentes med√≠ocres simplesmente n√£o se conseguem decidir a escrever como pensam, pois acham que depois o resultado poderia adquirir uma apar√™ncia muito simpl√≥ria. […] Desse modo, apresentam o que t√™m a dizer com constru√ß√Ķes for√ßadas e dif√≠ceis, neologismos e per√≠odos extensos, que circundam o pensamento e acabam por o ocultar. Oscilam entre o esfor√ßo de o comunicar e o esfor√ßo de o esconder. Querem guarnecer o texto de modo que ele adquira uma apar√™ncia erudita ou profunda, para que as pessoas pensem que ele cont√©m mais do que se consegue perceber no momento da leitura. Sendo assim, esbo√ßam partes do seu pensamento em express√Ķes curtas, amb√≠guas e paradoxais, que parecem significar muito mais do que dizem; logo voltam a apresentar os seus pensamentos com uma torrente de palavras e uma verbosidade insuport√°vel, como se fossem necess√°rias sabe-se l√° que medidas para tornar compreens√≠vel o seu sentido profundo, enquanto, na verdade, se trata de uma ideia bastante simples, para n√£o dizer at√© trivial.