Passagens sobre Azedos

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Frases sobre azedos, poemas sobre azedos e outras passagens sobre azedos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a cr√≠tica de arte nem a c√Ęmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele h√° tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda h√° muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite est√° azedo!

Que afinal o que importa √© p√īr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora Рah, lá fora! Рrir de tudo

No riso admir√°vel de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.

Purifique teu coração para permitir que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda no recipiente sujo.

O instinto feminino é o mais próprio para descobrir o lado acessível de certos caracteres azedos e para movê-los sem os magoar.

Se, de vez em quando, o leite azeda por aí, não tenho nada com isso; a vaca não é minha. Escolham melhor na próxima vez.

Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
N√£o creio em teu gasalhado,
Mostras-me em v√£o rosto ledo;
J√° estou muito escaldado,
J√° d’√°guas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em v√£os suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

√Čs como os c√£es esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos √°vidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
P√Ķe a mira em outra parte
Que daqui n√£o tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto j√° dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

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A Sopa Azeda

A dita sopa azeda n√£o se parecia com nada do que tivesse provado at√© √†quele momento. Num √°pice, desfilaram v√°rios sabores vindos como que do pr√≥prio interior do tempo. E, quando ele se p√īs a percorr√™-los, sentiu que se sentavam em volta os seus antepassados, os pais e os av√≥s e os av√≥s destes, e os velhos da Terra Ch√£ e da Terceira, e os a√ßorianos dali at√© ao povoamento, e deste at√© ao pr√≥prio G√©nesis, quando na manh√£ do Sexto Dia o Senhor olhou sobre a sua obra e decidiu que estava, afinal, incompleta.

N√£o se pode colher nada antes que amadure√ßa. A fruta colhida verde √© azeda ou amarga e n√£o faz bem √† sa√ļde.

Fuga do √ďdio

Queres amar a vida e n√£o te deixam. Tens de respirar o √≥dio, o insulto, o bafo azedo do vexame e isso faz-te mal. Emana√ß√Ķes de um p√Ęntano de febres, de esgotos a c√©u aberto com o seu fedor de v√≥mito. Um dos tormentos do inferno medievo era esse, o fedor – a ess√™ncia da podrid√£o. E o que te fazem respirar de uma flor, do aroma de existires? Porque √© que o √≥dio √© assim fundamental para os teus parceiros em humanidade existirem? T√™m uma estrutura diferente de serem, Deus fabricou-os num momento de mau g√©nio.

As Pessoas Sensatas

Platão comparava a vida a um jogo de dados, no qual devêssemos fazer um lance vantajoso e, depois, bom uso dos pontos obtidos, quaisquer que fossem. O primeiro item, o lance vantajoso, não depende do nosso arbítrio; mas receber de maneira apropriada o que a sorte nos conceder, assinalando a cada coisa um lugar tal que o que mais apreciamos nos cause o maior bem e o que mais aborrecemos o menor mal Рisso nos incumbe, se formos sensatos. Os homens que defrontam a vida sem habilidade ou inteligência são como enfermos que não podem tolerar nem o calor nem o frio; a prosperidade exalta-os e a adversidade desalenta-os. São perturbados por uma e por outra, ou melhor, por si próprios, numa ou noutra, não menos na prosperidade que na adversidade.
Teodoro, chamado o Ateu, costumava dizer que oferecia os seus discursos com a m√£o direita, mas os seus ouvintes recebiam-nos com a esquerda; os ignaros frequentemente d√£o mostras da sua in√©pcia oferecendo √† Fortuna uma recep√ß√£o canhestra quando ela se apresenta de modo destro. Mas as pessoas sensatas agem como as abelhas, que extraem mel do tomilho, planta muito seca e azeda; similarmente, as pessoas sensatas muitas vezes obt√™m para si algo de √ļtil e apraz√≠vel das mais adversas situa√ß√Ķes.

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Amizade Condicionada

A amizade √© menos frequente entre pessoas azedas e entre os mais velhos, porque quanto pior for o feitio das pessoas, menor √© o prazer que t√™m no conv√≠vio. Ora o bom feitio e o conv√≠vio social s√£o marcas de amizade e motivos criadores de amizade. Por este motivo, os jovens depressa se tornam amigos, os velhos, n√£o. √Č que n√£o se podem tornar amigos daqueles na presen√ßa dos quais n√£o sentem prazer; de modo semelhante se passa com os que est√£o sempre mal dispostos. Estes tamb√©m podem ser benevolentes entre si porque desejam o bem ao outro e v√£o ao encontro das necessidades do outro. Contudo, n√£o s√£o completamente amigos uma vez que n√£o passam juntos o dia nem sentem prazer na companhia um do outro, coisas que parecem ser marcas distintivas de amizade.
Agora, parece que n√£o √© poss√≠vel ser-se amigo de muitas pessoas, pelo menos no sentido pleno da amizade, do mesmo modo que n√£o √© poss√≠vel amar ao mesmo tempo muitas pessoas (tal parece que, na realidade, seria excessivo; e o amor costuma nascer naturalmente em rela√ß√£o a uma √ļnica pessoa), porque n√£o √© f√°cil de agradar de modo totalmente satisfat√≥rio a muitos ao mesmo tempo.

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