O homem está acima do cidadão. Não há Estado que valha Shakespeare.
Passagens de Fernando Pessoa
1382 resultadosQuando, Despertos Deste Sono, A Vida
Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador;Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, Espírito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.
E não sei oque sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste.
Quando há amor a gente não conversa: Ama-se, e fala-se para se sentir.
O sentimento abre as portas da prisão com que o pensamento fecha a alma.
Por mais que se avance em cada ciência, chega-se a um ponto onde ou se tem de decretar arbitrariamente que além de ali se não quer ir, ou de parar de cansaço, tão de inexplicável em inexplicável se vai – e em qualquer dos casos fica, quer queiramos quer não, o vago para além do ponto onde, cansados ou teimosos, paramos.
Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.
Tudo é ousado para quem a nada se atreve.
Saber ser supersticioso ainda é uma das artes que, realizadas a auge, marcam o homem superior.
Definir o belo é não o compreender.
Baste-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se não compreende.
Em tudo sou o que não sente, para que sinta.
A filosofia é a lucidez intelectual chegando à loucura.
Ver será sempre a melhor metáfora de conhecer.
Vejo em, tudo, de facto, não o abstracto mas o não-concreto: é esta a natureza da minha abstracção de espírito — não o infinito mas o não-finito. Desta maneira eu, que me dedicava sempre à pura abstracção, não via senão os objectos em si próprios. Tenho medo de tudo, é verdade, mas não de todas as maneiras, apenas duma maneira só, isto é, abstracta e sonhadoramente, como na consciência do opiómano.
Contentar-se com o que lhe dão é próprio dos escravos. Pedir mas é próprio das crianças. Conquistar mais é próprio dos loucos porque toda a conquista é (…)
O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação.
O êxito está em ter êxito e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio senão o fizerem ali?
Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!