Passagens sobre Marfim

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Frases sobre marfim, poemas sobre marfim e outras passagens sobre marfim para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Miser√°vel

A Carvalho Junior.

O noivo, como noivo, é repugnante:
Material√£o, est√ļpido, chorudo,
Arrotando, a propósito de tudo,
O ser comendador e negociante.

Tem a viuvinha, a noiva interessante,
Todo o arsenal de um poeta guedelhudo:
Alabastro, marfim, coral, veludo,
Azeviche, safira e tutti quanti.

Da misteriosa alcova a porta geme,
O noivo dorme n’um len√ßol envolto…
Entra a viuvinha, a noiva… Oh, c√©u, contem-me!

Ela deita-se… espera… Qual! Revolto,
O leito estala… Ela suspira… freme…,
E o miser√°vel dorme a sono solto!…

Quer-te Muito a Tua Mulherzinha

Recebi ontem à noite o telegrama que mandaste da Foz. Desejo que tivesses encontrado tudo bem na nossa casinha. Espero com ansiedade a primeira cartinha tua que já cá devia estar. Estou a escrever-te sentada a uma janela com o papel em cima dum livro e o tinteiro no chão; é 1 hora e meia, a hora de ir até às galinhas a ver se já havia algum ovo.

Há quanto tempo isso foi! Escreve para cá só até ao dia 23 ou 24 porque dia 26 pela manhã partimos para Vila Viçosa. O carnaval é dia 8 e já vejo que para minha desgraça o vou passar no covil enjaulada como as feras perigosas. Pouca sorte a da pobre Bela! Não posso ainda hoje falar com o advogado nem amanhã que é domingo, de forma que só segunda-feira te poderei dizer qualquer coisa a esse respeito. Há só um comboio dia sim dia não para Lisboa de forma que não estranhes nem te inquietes por alguma pequena demora na correspondência.
A√≠ vai um belo soneto que as saudades tuas me trouxeram ontem; s√≥ quando estou triste sei fazer versos com jeito como esses. Provavelmente n√£o gostas…

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Cristo De Bronze

√ď Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensang√ľentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.

√ď Cristos de altivez intemerata,
√ď Cristos de metais estrepitosos
Que gritam como os tigres venenosos
Do desejo carnal que enerva e mata.

Cristos de pedra, de madeira e barro…
√ď Cristo humano, est√©tico, bizarro,
Amortalhado nas fatais injurias…

Na rija cruz aspérrima pregado
Canta o Cristo de bronze do Pecado,
Ri o Cristo de bronze das lux√ļrias!…

A uma Mulher que Sendo Velha se Enfeitava

Escuta, ó Sara, pois te falta espelho
Para ver tuas faltas,
N√£o quero que te falte meu conselho
Em presun√ß√Ķes t√£o altas;
Lembro-te agora só, que és terra, e lodo,
E em terra h√°s de tornar-te deste modo,
Mas n√£o te digo, nem te lembro nada,
Porque h√° muito, que em terra est√°s tornada.

Que importa, que algum tempo a prata pura
De tuas m√£os nascesse,
E que de teus cabelos a espessura
As minas de ouro desse,
Se o tempo vil, que tudo troca, e muda,
Somente de ouro p√īs por mais ajuda
Em tuas m√£os de prata o amarelo,
E a prata de tuas m√£os em teu cabelo.

Se um tempo foram de marfim brunido
No século dourado,
Não vês, que o tempo as tem já consumido?
Não vês, que as tem gastado?
Deixa, Senhora, deixa os v√£os enredos,
Pois quando toco teus nodosos dedos,
Me parece, que apalpo sem enganos
Cinco cord√Ķes de frades Franciscanos.

Viciando a natureza com tuas tintas,
Com pincéis delicados
Jasmins, e rosas em teu rosto pintas,

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Ante Deus

Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus pra me encontrar em mim.
Voei-me sobre pontes de marfim
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!

Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus voos caíram destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.

Agora durmo Cristo em véus pagãos.
S√£o tapetes de Deus as minhas m√£os.
Regresso √ānsia pra alcan√ßar os c√©us.

Ergo-me mais. Sou o perfil da Dor.
Sobre os ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus!

O Destino Desconhece a Linha Recta

O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, n√£o conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em fun√ß√£o de um resultado final, portanto conhecido, √© imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princ√≠pio, sem se mover. Ora, pelo contr√°rio, o destino hesita muit√≠ssimo, tem d√ļvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.

Sou a Tua Casa

Sou a tua casa, a tua rua, a tua seguran√ßa, o teu destino. Sou a ma√ß√£ que comes e a roupa que vestes. Sou o degrau por onde sobes, o copo por onde bebes, o teu riso e o teu choro, o teu frio e a tua lareira. O pedinte que ajudas, o asilo que te quer acolher. Sou o teu pensamento, a tua recorda√ß√£o, a tua vontade. E tamb√©m o artes√£o que para ti trabalha, o medo que te perturba e o c√£o que te guia quando entras pela noite. Sou o s√≠tio onde descansas, a √°rvore que te d√° sombra, o vento que contigo se comove. Sou o teu corpo, o teu esp√≠rito, o teu brilho, a tua d√ļvida. Sou a tua m√£e, o teu amante, o marfim dos teus dentes. E sou, na luz do outono, o teu olhar. Sou a tua parteira e a tua l√°pide. Os teus vinte anos. O cora√ß√£o sepultado em ti. Sou as tuas asas, a tua liberdade, e tudo o que se move no teu interior. Sou a tua ressaca, o teu transtorno, o rel√≥gio que mede o tempo que te resta. Sou a tua mem√≥ria, a mem√≥ria da tua mem√≥ria,

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A Inegual√°vel

Ai, como eu te queria toda de violetas
E fl√©bil de setim…
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas…

E t√£o febril e delicada
Que n√£o podesses dar um passo –
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de c√īr no rega√ßo…

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas –
Sonolenta,
Ruiva de √©teres e morfinas…

Ah! que as tuas nostalgias f√īssem guisos de prata –
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim –
Os teus espasmos, de s√™da…

– √Āgua fria e clara numa noite azul,
√Āgua, devia ser o teu amor por mim…

A Tua Boca Adormeceu

A tua boca adormeceu
parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E h√° um c√£o de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto p√°ssaros de ouro com m√£os de marfim
transplantam as √°rvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As l√°grimas que n√£o chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um len√ßol f√ļnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e n√£o o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma m√°scara caida nas esteiras bordadas. E os bamb√ļs ao vento e os crysanthemos nos jardins e as gar√ßas no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em r√≥da tomb√°vam-se adormecidos os idolos coloridos e os drag√Ķes alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os drag√Ķes dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.

Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co’as pontas dos dedos, e disse a finar-se:–Chorar n√£o √© remedio; s√≥ te pe√ßo que n√£o me atrai√ßoes emquanto o meu corpo f√īr quente. Deitou a cabe√ßa nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de gar√ßa, ergueu alto os bra√ßos a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jard√≠ns a sacudir as m√£os, que todos os que passavam olharam para Ella.

Pela manh√£ vinham os visinhos em bicos dos p√©s espreitar por entre os bamb√ļs, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

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Deus

Às vezes sou o Deus que trago em mim
E ent√£o eu sou o Deus e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um v√īo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibra√ß√Ķes, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por n√£o ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decep√ß√Ķes e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

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√Č comum na vida normal que, quando estamos felizes e livres, construamos torres de marfim para nos refugiarmos, e onde inchamos de orgulho e presun√ß√£o, tratamos com indiferen√ßa, e mesmo desprezo, a generosidade e a afei√ß√£o dos amigos.

Desdéns

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz… O s√Ęndalo se evolua;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas…
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indol√™ncia m√≥rbida, espanhola…

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa m√£o impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa m√£o de fidalga, fina e branca;
Essa m√£o, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

Areia e Fonte

Foste a primeira que vi
logo que as √°guas baixaram
nos campos que cultivei,
nos bosques onde caçava.

Dos arbustos que cobriam
a negra pele do monte
cortei ramos e adornei-te
de aroma e cores a fronte.

Saltou, na alcova de relva
e traves de lua cheia,
meu corpo sobre teu corpo
como a fonte sobre a areia.

Do opaco do teu cabelo
vestiu-se a noite. O marfim
de teus peitos reluzia
na chama que ardia em mim.

Morreu a chama. Fugiste
nua, sobre as corças nuas
desses pés com que caminha
meu filho por nove luas.

Portugal

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa p√°tria… E que p√°tria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abund√Ęncia, amor, conc√≥rdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
P√°tria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torre√£o de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, basti√Ķes, barbac√£s, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor,

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Marília de Dirceu

(excerto)

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que viva de guardar alheio gado,
de tosco trato, de express√Ķes grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
d√°-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas l√£s, de que me visto.
Graças, Marília bela, graças à minha estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte:
dos anos inda n√£o est√° cortado;
os pastores que habitam este monte
respeitam o poder do meu cajado.
Com tal destreza toco a sanfoninha,
que inveja até me tem o próprio Alceste:
ao som dela concerto a voz celeste,
nem canto letra que n√£o seja minha.
Graças, Marília bela,
graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
só apreço lhes dou, gentil pastora,
depois que o teu afeto me segura
que queres do que tenho ser senhora.
E bom, minha Marília, é bom ser dono
de um rebanho, que cubra monte e prado;
porém, gentil pastora, o teu agrado
vale mais que um rebanho e mais que um trono.

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Distante Melodia

Num sonho d’Iris, morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre v√©us de tule –
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Ent√£o os meus sentidos eram c√īres,
Nasciam num jardim as minhas ansias,
Havia na minh’alma Outras distancias –
Distancias que o segui-las era fl√īres…

Caía Ouro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me…
Noites-lag√īas, como √©reis belas
Sob terra√ßos-liz de recordar-me!…

Idade acorde d’Inter sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz – anseios de Princesa nua…

Bala√ļstres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume…
Dominio inexprimivel d’√ďpio e lume
Que nunca mais, em c√īr, hei de habitar…

Tap√™tes doutras Persias mais Oriente…
Cortinados de Chinas mais marfim…
Aureos Templos de ritos de setim…
Fontes correndo sombra, mansamente…

Zimb√≥rios-panth√©ons de nostalgias…
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar…
Escadas de honra, escadas s√≥, ao ar…
Novas Byzancios-alma, outras Turquias…

Lembran√ßas fluidas…

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Harpas Eternas

Hordas de Anjos tit√Ęnicos e altivos,
Serenos, colossais, flamipotentes,
De grandes asas vívidas, frementes,
De formas e de aspectos expressivos.

Passam, nos sóis da Glória redivivos,
Vibrando as de ouro e de Marfim dolentes,
Finas harpas celestes, refulgentes,
Da luz nos altos resplendores vivos

E as harpas enchem todo o imenso espaço
De um c√Ęntico pag√£o, lascivo, lasso,
Original, pecaminoso e brando…

E fica no ar, eterna, perpetuada
A l√Ęnguida harmonia delicada
Das harpas, todo o espaço avassalando.

Pedra Filosofal

Eles n√£o sabem que o sonho
é uma constante da vida
t√£o concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles n√£o sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho √°lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles n√£o sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pin√°culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
m√°scara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
p√°ra-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cis√£o do √°tomo, radar,
ultra-som, televis√£o,
desembarque em foguet√£o
na superfície lunar.

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