Cita√ß√Ķes sobre Moldes

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Frases sobre moldes, poemas sobre moldes e outras cita√ß√Ķes sobre moldes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Inania Verba

Ah! quem h√° de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca n√£o diz, o que a m√£o n√£o escreve?
– Ardes, sangras, pregada a’ tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, √© um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.

Quem o molde achar√° para a express√£o de tudo?
Ai! quem h√° de dizer as √Ęnsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confiss√Ķes de amor que morrem na garganta?!

Proibição Reveladora

N√£o √© preciso proibir aquilo a que nenhuma alma humana aspira. √Č precisamente o modo como est√° formulada a proibi√ß√£o: ¬ęN√£o matar√°s¬Ľ, que √© de molde a dar-nos a certeza de descendermos de uma s√©rie infinitamente longa de gera√ß√Ķes de assassinos, que possu√≠am no sangue, talvez como n√≥s pr√≥prios, a paix√£o de matar.

Formou Deus o homem, e o p√īs num para√≠so de del√≠cias; tornou a form√°-lo a sociedade, e o p√īs num inferno de tolices. O homem – n√£o o homem que Deus fez, mas o que a sociedade tem contrafeito, apertando e for√ßando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no para√≠so terreal afei√ßoar√° √† imagem da divindade -, o homem assim aleijado como n√≥s o conhecemos, √© o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.

H√° que n√£o atentar muito em felicidades, gra√ßas, bem-aventuran√ßas distantes e desconhecidas, mas sim em viver da maneira com que gostar√≠amos de reviver, dentro dos mesmos moldes, at√© √† eternidade. √Č esta a tarefa que temos pela frente: constante e continuadamente.

Soneto 255 Recordista

Duzentas e cinq√ľenta e cinco pe√ßas
é produção em série, mas apenas
um “quase”, comparado a tr√™s centenas,
contanto que em soneto, só, me meças.

Refiro-me ao autor do molde dessas
trezentas dedicadas, n√£o a Helenas,
Marílias, Beatrizes ou morenas
an√īnimas, amadas meio √†s pressas;

Por√©m √† tal de Laura! Que fei√ß√Ķes
seriam t√£o divinas, se ela abarca
tamanho patrim√īnio de paix√Ķes?

Persigo, s√≥ no n√ļmero, essa marca.
Depois de superar a de Cam√Ķes,
vou ter que superar a de Petrarca!

O Homem Intemporal n√£o Existe

Os ¬ęhomens-enquanto-tais¬Ľ dos quais falam os fil√≥sofos n√£o existem. H√° apenas os homens de uma √©poca, de uma localidade, de uma ra√ßa, fundidos num molde congenital pessoal, indiv√≠duos que enfrentam em combate um DETERMINADO mundo e triunfam ou sucumbem, enquanto o universo ambiente continua a girar sossegadamente com divina indiferen√ßa.

Os Elementos Fixadores da Personalidade

Os res√≠duos ancestrais formam a camada mais profunda e mais est√°vel do car√°cter dos indiv√≠duos e dos povos. √Č pelo seu ‚Äúeu‚ÄĚ ancestral que um ingl√™s, um franc√™s, um chin√™s, diferem t√£o profundamente.
Mas a esses remotos atavismos sobrep√Ķem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profiss√£o, etc.), pela educa√ß√£o e ainda por muitas outras influ√™ncias. Eles imprimem √† nossa personalidade uma orienta√ß√£o assaz constante. Ser√° o ‚Äúeu‚ÄĚ, um pouco artificial, assim formado, que exteriorizaremos cada dia.
Entre todos os elementos formadores da personalidade, o mais activo, depois da ra√ßa, √© o que determina o agrupamento social ao qual pertencemos. Fundidas no mesmo molde pelas id√©ias, as opini√Ķes e as condutas semelhantes que lhes s√£o impostas, as individualidades de um grupo: militares, magistrados, padres, oper√°rios, marinheiros, etc., apresentam numerosos car√°cteres id√™nticos.
As suas opini√Ķes e os seus ju√≠zos s√£o, em geral, vizinhos, porquanto sendo cada grupo social muito nivelador, a originalidade n√£o √© tolerada nele. Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.
Essa tirania dos grupos sociais, na qual insistiremos, n√£o √© in√ļtil. Se os homens n√£o tivessem por guia as opini√Ķes e a maneira de proceder daqueles que os cercam,

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O Casulo

No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua n√£o penetra
uma m√°quina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arp√Ķes a√ßorianos sinos de n√£o sei donde
ou sei esperem sinos da tróica em natais nocturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador J√ļlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lam√ļrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finl√Ęndia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e n√£o as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo n√£o se lendo j√°
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferogr√°ficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da R√ļssia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a p√īr bem em frente das minhas divaga√ß√Ķes
anémonas nórdicas da Anne
mios√≥tis b√ļlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objectos objectos o pote tem as armas de n√£o lembro
[quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor n√£o saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras mi√ļdas ou letras farfalhudas
depende da ocasi√£o
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha m√£e em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de cactos
amuletos africanos o mata-borr√£o que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de
[veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios n√£o p√°ram
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo h√° cordas cord√Ķes medalhas
[medalh√Ķes
armas laur√©is proibi√ß√Ķes
perfumes em minaretes levantinos.

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Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.

Chamam-te a bela imperatriz das f√°tuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.

E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
√Čs t√£o loura e dourada como as messes

E possuis muito amor… muito amor-pr√≥prio.

Ela

À beleza tão pura do semblante,
à luz sublime que há nos olhos dela,
– pergunto-me a mim mesmo a todo instante,
como t√£o simples pode ser t√£o bela…

Diferente das outras, diferente
dos moldes t√£o comuns de uma mulher,
– ela me faz pensar num mundo ausente
deste que a gente sem querer j√° quer…

Bem que a quis esquecer – e noutro amor
procurei me enganar, acreditando
ser do meu pobre cora√ß√£o, senhor…

Em v√£o tentei… Em v√£o… Vendo-a naquela
doce e pura express√£o – fico pensando
que √© imposs√≠vel n√£o pensar mais nela!…

√Č Preciso Regressar ao Amigo √ćntimo

Custa, mas o melhor é ver o problema a toda a luz. No conceito do homem abstracto é necessário afinal meter tanto estrume, que não há entusiasmo que resista. Feito de mil incoerências, movido por sentimentos ocasionais, preso a necessidades rudimentares, o bípede real, ao ser premido no molde da abstracção, rebenta a forma. E é preciso regressar ao amigo íntimo, ao compadre, para se calcar terra firme. Numa palavra: não há um homem-símbolo que se possa venerar: há simples indivíduos cujas virtudes e defeitos toleram um convívio social urbano.

O Gosto é a Causa da Aparência

O nosso engenho todo se esfor√ßa em p√īr as coisas numa perspectiva tal, que vistas de um certo modo, fiquem a parecer o que n√≥s queremos que elas sejam, e n√£o o que elas s√£o. A raz√£o √© como um instrumento lisonjeiro, por meio do qual vemos as coisas, grandes, ou pequenas, falsas, ou verdadeiras. O nosso pensamento n√£o se acomoda √†s coisas, acomoda-se ao nosso gosto. O amor, a vaidade, e o interesse s√£o os moldes em que as coisas se formam, e se configuram para se apresentarem a n√≥s; e com efeito nenhuma coisa se nos mostra como √©, contra a nossa vontade.

A meta do marketing é conhecer e entender o consumidor tão bem, que o produto ou serviço se molde a ele e se venda sozinho.

O Homem Deformado pela Sociedade

Formou Deus o homem, e o p√īs num para√≠so de del√≠cias; tornou a form√°-lo a sociedade, e o p√īs num inferno de tolices. O homem ‚ÄĒ n√£o o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e for√ßando em seus moldes de ferro aquela pasta de limo que no para√≠so terreal se afei√ßoara √† imagem da divindade ‚ÄĒ o homem assim aleijado como n√≥s o conhecemos, √© o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Rei nascido de todo o criado, perdeu a realeza: pr√≠ncipe deserdado e proscrito, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados, altivo ainda e soberbo com as recorda√ß√Ķes do passado, baixo, vil e miser√°vel pela desgra√ßa do presente.
Destas duas t√£o apostas actua√ß√Ķes constantes, que j√° per si s√≥s o tornariam rid√≠culo, formou a sociedade, em sua v√£ sabedoria, um sistema quim√©rico, desarrazoado e imposs√≠vel, complicado de regras a qual mais desvairada, encontrado de repugn√Ęncias a qual mais aposta. E vazado este perfeito modelo de sua arte pretensiosa, meteu dentro dele o homem, desfigurou-o, contorceu-o, f√™-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, raqu√≠tico; colocou-o no meio do √Čden fant√°stico de sua cria√ß√£o ‚ÄĒ verdadeiro inferno de tolices ‚ÄĒ e disse-lhe,

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