Cita√ß√Ķes sobre Ordin√°rios

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Frases sobre ordin√°rios, poemas sobre ordin√°rios e outras cita√ß√Ķes sobre ordin√°rios para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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A Amizade Verdadeira e Genuína

Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, tamb√©m no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade aut√™ntica, circulam as suas demonstra√ß√Ķes exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural poss√≠vel. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se h√° pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um c√£o leal do que a cem daquelas demonsta√ß√Ķes e gestos.
A amizade verdadeira e genu√≠na pressup√Ķe uma participa√ß√£o intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participa√ß√£o que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o ego√≠smo pr√≥prio √† natureza humana √© t√£o contr√°rio a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence √†quelas coisas que n√£o sabemos se s√£o mera f√°bula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, h√° muitas rela√ß√Ķes entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos ego√≠stas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um gr√£o daquela amizade verdadeira e genu√≠na, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa raz√£o, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfei√ß√Ķes. Elas elevam-se muito acima dos v√≠nculos ordin√°rios,

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Somente um país inferior, ordinário, insignificante, pode ser democrático. Um povo forte e heróico tende para a aristocracia.

Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

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O Pranto e o Riso

Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem d√ļvida seria a vit√≥ria do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma t√£o superior eloqu√™ncia, que o Riso se ria do Pranto, n√£o √© merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos rel√Ęmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos rel√Ęmpagos, trov√Ķes e raios de eloqu√™ncia, quem n√£o julgar√° ao miser√°vel Pranto cego, at√≥nito e fulminado? Tal √© a fortuna, ou a natureza, destes dois contr√°rios. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.
(…) Dem√≥crito ria sempre: logo nunca ria. A consequ√™ncia parece dif√≠cil e √© evidente. O Riso, como dizem todos os Fil√≥sofos, nasce da novidade e da admira√ß√£o e cessando a novidade ou a admira√ß√£o, cessa tamb√©m o riso; e como Dem√≥crito se ria dos ordin√°rios desconcertos do mundo, e o que √© ordin√°rio e se v√™ sempre n√£o pode causar admira√ß√£o nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois n√£o havia mat√©ria que motivasse o riso.

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O ideal dos maus escritores é empregar palavras extraordinárias para dizer coisas ordinárias; e o dos bons escritores é empregar palavras ordinárias para dizer coisas extraordinárias.

A Cultura n√£o se Adquire, Respira-se

A cultura n√£o se obt√©m com um labor obtuso e intensivo e √© antes o produto da liberdade e da ociosidade exterior. N√£o se adquire, respira-se. O que trabalha para ela s√£o os elementos ocultos. Uma secreta aplica√ß√£o dos sentidos e do esp√≠rito, concili√°vel com um devaneio quase total em apar√™ncia, solicita diariamente as riquezas dessa cultura, podendo dizer-se que o eleito a adquire a dormir. Isto porque √© necess√°rio ser d√ļctil para se poder ser instru√≠do. Ningu√©m pode adquirir o que n√£o possui ao nascer, nem ambicionar o que lhe √© estranho. Quem √© feito de madeira ordin√°ria nunca se afinar√°, porque quem se afina nunca foi grosseiro. Nesta mat√©ria, √© tamb√©m muito dif√≠cil tra√ßar uma linha de separa√ß√£o n√≠tida entre o m√©rito pessoal e aquilo que se chama o favor das circunst√Ęncias.

Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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A Doutrina do Objectivo da Vida

Quer considere os homens com bondade ou malevol√™ncia, encontro-os sempre, a todos e a cada um em particular, empenhados na mesma tarefa: tornar-se √ļteis √† conserva√ß√£o da esp√©cie. E isto n√£o por amor a essa esp√©cie, mas simplesmente porque n√£o h√° neles nada mais antigo, mais poderoso, mais impiedoso e mais invenc√≠vel do que esse instinto… porque esse instinto √© propriamente a ess√™ncia da nossa esp√©cie, do nosso rebanho.

Se bem que se chegue assaz rapidamente, com a miopia ordin√°ria, a separar a cinco passos os nossos semelhantes em √ļteis e em prejudiciais, em seres bons e maus, quando fazemos o nosso balan√ßo final e reflectimos sobre o conjunto acabamos por desconfiar destas depura√ß√Ķes, destas distin√ß√Ķes, e acabamos por renunciar a elas.

Talvez o homem mais prejudicial seja ainda, no fim de contas, o mais √ļtil √† conserva√ß√£o da esp√©cie; porque sustenta em si mesmo, ou nos outros, com a sua ac√ß√£o, instintos sem os quais a humanidade estaria h√° muito tempo mole e corrompida. O √≥dio, o prazer de prejudicar, a sede de tomar e de dominar, e, de uma maneira geral, tudo aquilo a que se d√° o nome de mal, n√£o passam no fundo de um dos elementos da espantosa economia da conserva√ß√£o da esp√©cie;

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O Dia Deu em Chuvoso

O dia deu em chuvoso.
A manh√£, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manh√£ eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
N√£o sei: j√° ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser t√£o ordin√°rio, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
N√©voa, chuvas, escuros ‚ÄĒ isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
N√£o exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? S√£o mem√≥rias…
√Č preciso ser-se crian√ßa para os ter…
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um cora√ß√£o por comer…
Quando foi isso?

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Como Trair o Seu Marido em Imaginação

Proponho-me ensinar-lhes como trair o seu marido em imaginação.
Acreditem-me: só as criaturas ordinárias traem o marido realmente. O pudor é uma condição sine qua non de prazer sexual. O entregar-se a mais de um homem mata o pudor.
Concedo que a inferioridade feminina precisa de macho. Acho que, ao menos se deve limitar a um macho só, fazendo dele, se disso precisar, centro de um círculo de raio crescente de machos imaginados.

A melhor ocasião para fazer isso é nos dias que antecedem os da menstruação. Assim:
Imaginam o seu marido mais branco de corpo. Se imaginam bem, senti-lo-√£o mais branco sobre si.
Retenham todo o gesto de sensualidade excessiva. Beijem o marido que lhes estiver em cima do corpo e mudem com a imaginação o homem num olhar belo que lhes estiver em cima da alma.
A essência do prazer é o desdobramento. Abram a porta da janela ao Felino em vós.
Como tracasser o marido.
Importa que o marido às vezes se zangue.
O essencial é começar a sentir a atracção pelas coisas que repugnam não perdendo a disciplina exterior.
A maior indisciplina interior junta √† m√°xima disciplina exterior comp√Ķe perfeita sensualidade.

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Moderar as Expectativas

Ordin√°rio desaire de tudo o que √© muito celebrado antes √© n√£o chegar depois ao excesso do que foi concebido. Nunca o verdadeiro p√īde alcan√ßar o imaginado, porque fingir perfei√ß√Ķes √© f√°cil; dif√≠cil √© consegui-las. Casa-se a imagi¬≠na√ß√£o com o desejo e concebe sempre muito mais do que as coisas s√£o. Por maiores que sejam as excel√™ncias, n√£o bastam para satisfazer o conceito, e, se o enganam com exorbitante expecta√ß√£o, √© mais r√°pido o desengano que a admira√ß√£o. A esperan√ßa √© grande falsificadora da verdade: que a cordura a corrija, fazendo que a frui√ß√£o seja superior ao desejo. Princ√≠pios de cr√©dito servem para despertar a curiosidade, n√£o para empenhar o obje¬≠cto. Melhor resulta quando a realidade excede o conceito e √© mais do que se acreditou. Essa regra faltar√° no que √© mau, pois ajuda-o a pr√≥pria exagera√ß√£o; desmente-a o aplauso, chegando a parecer toler√°vel o que se temeu ser ruim ao extremo.

O Homem Irracional

Cubram-no de todos os bens terrenos, mergulhem-no na felicidade com a cabeça imersa de modo a só umas bolhas rebentarem à superfície; dêem-lhe uma prosperidade económica tal que não tenha mais nada que fazer senão dormir, comer doces e tratar da continuidade ininterrupta da história universal Рentão ele, o homem, mesmo assim, só por ingratidão, por maldade, far-vos-á uma pulhice qualquer. Arriscará até os doces e desejará propositadamente o mais prejudicial dos absurdos, o mais antieconómico disparate, unicamente para misturar com toda essa sensatez positiva o seu nocivo elemento fantástico. Desejará conservar precisamente os seus sonhos fantásticos, a sua estupidez mais ordinária, unicamente para confirmar a si mesmo (como se fosse assim tão indispensável) que as pessoas continuam a ser pessoas e não teclas de piano em que sejam as próprias leis da natureza a tocar, mas prometendo tocar a tal ponto que se tornará já impossível desejar qualquer coisa para além do calendário.
Mais ainda: mesmo que o homem se tornasse realmente uma tecla de piano, mesmo que tal facto lhe fosse provado por meio das ciências naturais e da matemática, não ganharia juízo, mas faria, de propósito, qualquer coisa contra, apenas por ingratidão; só para continuar na sua!

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Atenção ao Informar-se

Vive-se o mais de informa√ß√£o: o que vemos √© o menos; vivemos da f√© alheia: o ouvido √© a segunda porta da verdade e a principal da mentira. A verdade de ordin√°rio se v√™; extraordinariamente se ouve; raras vezes chega no seu elemento puro, muito menos quando vem de longe; traz sempre alguma mistura de afectos por onde passa; a paix√£o tinge com as suas cores tudo o que toca, seja odiosa, seja favor√°vel; puxa sempre a impressionar; muito cuidado com quem gaba, maior ainda com quem desgaba. √Č mister toda a aten√ß√£o nesse ponto para descobrir a inten√ß√£o de quem medeia, conhecendo de antem√£o por que raz√Ķes √© movido. Que a reflex√£o seja contraste do falto e do falso.

A Génese de um Poema

A maior parte dos escritores, sobretudo os poetas, preferem deixar supor que comp√Ķem numa esp√©cie de espl√™ndido frenesim, de ext√°tica intui√ß√£o; literalmente, gelar-se-iam de terror √† ideia de permitir ao p√ļblico que desse uma espreitadela por detr√°s da cena para ver os laboriosos e incertos partos do pensamento, os verdadeiros planos compreendidos s√≥ no √ļltimo minuto, os in√ļmeros balbucios de ideias que n√£o alcan√ßaram a maturidade da plena luz, as imagina√ß√Ķes plenamente amadurecidas e, no entanto, rejeitadas pelo desespero de as levar a cabo, as op√ß√Ķes e as rejei√ß√Ķes longamente ponderadas, as t√£o dif√≠ceis emendas e acrescentas, numa palavra, as rodas e as empenas, as m√°quinas para mudan√ßa de cen√°rio, as escadas e os al√ßap√Ķes, o vermelh√£o e os posti√ßos que em 99% dos casos constituem os acess√≥rios do histri√£o liter√°rio.
(…) No que a mim diz respeito, n√£o compartilho da repugn√Ęncia de que falei e nunca senti a m√≠nima dificuldade em rememorar a marcha progressiva de todas as minhas obras. Escolho O Corvo por ser a mais conhecida. Proponho-me demonstrar claramente que nenhum pormenor da sua composi√ß√£o se pode explicar pelo acaso ou pela intui√ß√£o, que a obra se desenvolveu, a par e passo, at√© √† sua conclus√£o com a precis√£o e o rigor l√≥gico de um problema matem√°tico.

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O Prestígio é Sempre Enganador

Tendo a generalidade das opini√Ķes que a educa√ß√£o nos inculca, unicamente a educa√ß√£o por base, facilmente nos habituamos a admitir, com prontid√£o, um conceito defendido por um personagem aureolado de prest√≠gio.
Sobre os assuntos t√©cnicos da nossa profiss√£o, somos capazes de formular conceitos muito seguros; mas, no tocante ao resto, n√£o procuramos sequer raciocinar, preferindo admitir, com os olhos fechados, as opini√Ķes que nos s√£o impostas por um personagem ou um grupo dotado de prest√≠gio.
De facto, quer se seja estadista, artista, escritor ou s√°bio, o destino depende, sobretudo, da quantidade de prest√≠gio que se possui e, por conseguinte, do grau de sugest√£o inconsciente que se pode criar. O que determina o √™xito de um homem √© a domina√ß√£o mental que ele exerce. O completo imbecil, entretanto, alcan√ßa √™xito, algumas vezes, porquanto, n√£o tendo consci√™ncia da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade. Ora, a afirma√ß√£o en√©rgica e repetida possui prest√≠gio. O mais vulgar dos ¬ęcamelos¬Ľ, quando energicamente afirma a imagin√°ria superioridade de um produto, exerce prest√≠gio na multid√£o que o circunda.
(…) Mesmo entre s√°bios eminentes, o prest√≠gio √©, muitas vezes, um dos factores mais certos de uma convic√ß√£o. Para os esp√≠ritos ordin√°rios, ele o √© sempre.

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De ordin√°rio, n√£o se mente apenas; acrescentam-se explica√ß√Ķes para aumentar a verosimilhan√ßa, e s√£o essas explica√ß√Ķes que denunciam a inven√ß√£o.