Cita√ß√Ķes sobre Peregrinos

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Metamorfose

A Carlos Ferreira

O sol em fogo pelo ocaso explode
Nesse estertor, que os cr√Ęnios assoberba.
Vivo, o clar√£o, nuns frocos exacerba
Dos ideais a original nevrose.

Da natureza os anafis mouriscos
Ante o cariz da atmosfera muda,
Soam queixosos, numa nota aguda,
Da luz que esvai-se aos derradeiros discos.

O pensamento que flameja e luta
Nos ares rasga aprofundado sulco…
A sombra desce nos lisins da gruta;

E a lua nova — a peregrina Onfale,
Como em um plaustro luminoso, hiulco,
Surge através dos pinheirais do vale.

Dormindo

Pálida, bela, escultural, clorótica
Sobre o divã suavíssimo deitada,
Ela lembrava — a p√°lpebra cerrada —
Uma ilusão esplendida de ótica.

A peregrina carnação das formas,
— o sensual e l√≠mpido contorno,
Tinham esse quê de avérnico e de morno,
Davam a Zola as mais corretas normas!…

Ela dormia como a Vênus casta
E a negra coma aveludada e basta
Lhe resvalava sobre o doce flanco…

Enquanto o luar — pela janela aberta —
— como uma vaga exclama√ß√£o — incerta
Entrava a flux — cascateado — branco!!…

Luta

Fluxo e refluxo eterno…
Jo√£o de Deus.

Dorme a noite encostada nas colinas.
Como um sonho de paz e esquecimento
Desponta a lua. Adormeceu o vento,
Adormeceram vales e campinas…

Mas a mim, cheia de atrac√ß√Ķes divinas,
D√°-me a noite rebate ao pensamento.
Sinto em volta de mim, tropel nevoento,
Os Destinos e as Almas peregrinas!

Insond√°vel problema!… Apavorado
Rec√ļa o pensamento!… E j√° prostrado
E est√ļpido √° for√ßa de fadiga,

Fito inconsciente as sombras vision√°rias,
Enquanto pelas praias solit√°rias
Ecoa, ó mar, a tua voz antiga.

Crença

Filha do céu, a pura crença é isto
Que eu vejo em ti, na vastid√£o das cousas,
Nessa mudez castíssima das lousas,
No belo rosto sonhador do Cristo.

A crença é tudo quanto tenho visto
Nos olhos teus, quando a cabeça pousas
Sobre o meu colo e que dizer n√£o ousas
Todo esse amor que eu venço e que conquisto.

A crença é ter os peregrinos olhos
Abertos sempre aos ríspidos escolhos;
Tê-los à frente de qualquer farol

E conserv√°-los, simplesmente acesos
Como dois fachos — engastados, presos
Nas radia√ß√Ķes prism√°ticas do sol!

Dos Mais Fermosos Olhos

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:

Dum Angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um esprito peregrino
Se acendeu em mim o fogo, de que indigno
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Não cabe em mim tal bem-aventurança.
√Č pouco uma alma s√≥, pouco uma vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!

Contente a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que n√£o obedece a rogo.

Benoit

Acende no meu peito o sério lume
Aceso no teu peito porco e bento,
E sê no medo meu, no meu tormento,
O mestre predileto, o amado nume

Capaz de iluminar, sob o cardume
De estrelas, uma estrada que, por dentro,
Percorre o meu país de amor, detento
De tudo que te fez, no mundo, estrume.

Vem dar-me o braço e me levar até
Por onde andaste, noivo e peregrino,
Da Pátria que se esconde atrás da Fé.

Ensina-me a viver o Amor Divino,
E quando o meu cajado florescer,
D√°-me o teu santo modo de morrer.

Pecador Endurecido

Se por segredo oculto, alto destino
Da próvida, admirável natureza,
Do diamante lavrar pode a dureza
O sangue do cordeiro peregrino,

Lavrar deveis meu peito diamantino,
Amante Deus, pois somos nesta empresa,
Eu, um retrato vivo da fereza,
Vós, da brandura um exemplar divino.

Firme esperança de remédio posso
Ter, meu Jesus, notando-vos amante,
Por mais que o peito se resista inteiro.

Lavrai meu peito com o sangue vosso,
Pois é meu peito, peito de diamante,
E vosso sangue é sangue de cordeiro.

Anima Mea

√ď minh’alma, √≥ minh’alma, √≥ meu Abrigo,
Meu sol e minha sombra peregrina,
Luz imortal que os mundos ilumina
Do velho Sonho, meu fiel Amigo!

Estrada ideal de S√£o Tiago, antigo
Templo da minha fé casta e divina,
De onde é que vem toda esta mágoa fina
Que é, no entanto, consolo e que eu bendigo?

De onde é que vem tanta esperança vaga,
De onde vem tanto anseio que me alaga,
Tanta diluída e sempiterna mágoa?

Ah! de onde vem toda essa estranha essência
De tanta misteriosa Transcendência
Que estes olhos me dixam rasos de √°gua?!

Vênus II

Singra o navio. Sob a √°gua clara
V√™-se o fundo do mar, de areia fina…
– Impec√°vel figura peregrina,
A dist√Ęncia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a √°gua plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufr√°gios, perdi√ß√Ķes, destro√ßos!
– √ď f√ļlgida vis√£o, linda mentira!

R√≥seas unhinhas que a mar√© partira…
Dentinhos que o vaiv√©m desengastara…
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos…

Crep√ļsculo

A Julia Lyra

O Angelus soa. Vagarosamente
A noite desce, pl√°cida e divina.
Ouço gemer meu coração doente
Chorando a tarde, a noiva peregrina.

Há pelo Espaço um ciciar dolente
De prece em torno da Igrejinha em ru√≠na…
P√°ssaros voam compassadamente;
Treme no galho a rosa purpurina…

E eu sinto que a tristeza vem suspensa
Sobre as asas da noite erma e sombria…
E que, n’essa hora de saudade imensa,

Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.

Benção

Quando, por uma lei da vontade suprema,
O Poeta vem a luz d’este mundo insofrido
A desolada mãe, numa crise de blasfêmia,
Pragueja contra Deus, que a escuta comovido:

‚ÄĒ “Antes eu procriasse uma serpe infernal!
Do que ter dado vida a um disforme aleij√£o!
Maldita seja a noite em que o prazer carnal
Fecundou no meu ventre a minha expiação!

J√° que fui a mulher destinada, Senhor,
A tornar infeliz quem a si me ligou,
E n√£o posso atirar ao fogo vingador
O fatal embri√£o que meu sangue gerou.

Vou fazer recair o meu ódio implacável
No monstro que nasceu das tuas maldi√ß√Ķes
E saberei torcer o arbusto miser√°vel
De modo que n√£o vingue um s√≥ dos seus bot√Ķes!”

E sobre Deus cuspindo a sua m√°goa ingente
Ignorando a razão dos desígnios do Eterno,
A tresloucada m√£e condena, inconsciente,
A sua pobre alma às fogueiras do inferno.

Bafeja a luz do sol o fruto malfadado,
Vela pelo inocente um anjo peregrino;
A água que ele bebe é um néctar perfumado,
O pão é um manjar saboroso,

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Rosa sem Espinhos

Para todos tens carinhos,
A ninguém mostras rigor!
Que rosa és tu sem espinhos?
Ai, que n√£o te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa
A desdém te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
√Č sorrir e √© corar.

E quando a sonsa da abelha,
T√£o modesta em seu zumbir,
Te diz: ¬ę√ď rosa vermelha,
¬Ľ Bem me podes acudir:

¬Ľ Deixa do c√°lix divino
¬Ľ Uma gota s√≥ libar…
¬Ľ Deixa, √© n√©ctar peregrino,
¬Ľ Mel que eu n√£o sei fabricar …¬Ľ

Tu de l√°stima rendida,
De maldita compaix√£o,
Tu √† s√ļplica atrevida
Sabes tu dizer que n√£o?

Tanta l√°stima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
√Čs rosa e n√£o tens espinhos!
Ai !, que n√£o te entendo, flor.

Pacto Das Almas (II) Longe De Tudo

√Č livre, livre desta v√£ mat√©ria,
Longe, nos claros astros peregrinos
Que havereemos de encontrar os dons divinos
E a grande paz, a grande paz sidérea.

Cá nesta humana e trágica miséria,
Nestes surdos abismos assassinos
Termos de colher de atros destinos
A flor apodrecida e deletéria.

O baixo mundo que troveja e brama
Só nos mostra a caveira e só a lama,
Ah! s√≥ a lama e movimentos lassos…

Mas as almas irm√£s, almas perfeitas,
H√£o de trocar, nas Regi√Ķes eleitas,
Largos, profundos, imortais abraços!

De Alma Em Alma

Tu andas de alma em alma errando, errando,
como de santu√°rio em santu√°rio.
√Čs o secreto e m√≠stico templ√°rio
As almas, em silêncio, contemplando.

N√£o sei que de harpas h√° em ti vibrando,
que sons de peregrino estradiv√°rio
Que lembras reverências de sacrário
E de vozes celestes murmurando.

Mas sei que de alma em alma andas perdido
Atr√°s de um belo mundo indefinido
De silêncio, de Amor, de Maravilha.

Vai! Sonhador das nobres reverências!
A alma da Fé tem dessas florescências,
Mesmo da Morte ressuscita e brilha!

A Harpa

Prende, arrebata, enleva, atrai, consola
A harpa tangida por convulsos dedos,
Vivem nela mistérios e segredos,
√Č berceuse, √© balada, √© barcarola.

Harmonia nervosa que desola,
Vento noturno dentre os arvoredos
A erguer fantasmas e secretos medos,
Nas suas cordas um solu√ßo rola…

Tu’alma √© como esta harpa peregrina
Que tem sabor de m√ļsica divina
E só pelos eleitos é tangida.

Harpa dos céus que pelos céus murmura
E que enche os c√©us da m√ļsica mais pura,
como de uma saudade indefinida.

A Minha Vida é um Barco Abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que n√£o ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manh√£, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando √† tona in√ļtil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Post Coitum Animal Triste

Em ti o poema, o amplo tecido da √°gua ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extens√£o e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as m√£os das chuvas.

Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as √°rvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vest√≠gio dos √ļltimos peregrinos, aves nuas
que j√° desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

O Cego Do Harmonium

Esse cego do harmonium me atormenta
E atormentando me seduz, fascina.
A minh’alma para ele vai sedenta
Por falar com a sua alma peregrina.

O seu cantar nost√°lgico adormenta
Como um luar de mórbida neblina.
O harmonium geme certa queixa lenta,
Certa esquisita e l√Ęnguida surdina.

Os seus olhos parecem dois desejos
Mortos em flor, dois luminosos beijos
Fanados, apagados, esquecidos…

Ah! eu n√£o sei o sentimento v√°rio
Que prende-me a esse cego solit√°rio,
De olhos aflitos como v√£os gemidos!

Grande Amor

Grande amor, grande amor, grande mistério
Que as nossas almas tr√™mulas enla√ßa…
Céu que nos beija, céu que nos abraça
Num abismo de luz profundo e sério.

Eterno espasmo de um desejo etéreo
E bálsamo dos bálsamos da graça,
Chama secreta que nas almas passa
E deixa nelas um clarão sidéreo.

C√Ęntico de anjos e de arcanjos vagos
Junto √†s √°guas son√Ęmbulas de lagos,
Sob as claras estrelas desprendido…

Selo perpétuo, puro e peregrino
Que prende as almas num igual destino,
Num beijo fecundado num gemido.