Eu Nunca Guardei Rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas Ă© como se os guardasse.
Minha alma Ă© como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pĂ´r de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planĂcie
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.Mas a minha tristeza Ă© sossego
Porque Ă© natural e justa
E Ă© o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mĂŁos colhem flores sem ela dar por isso.Como um ruĂdo de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos sĂŁo contentes.
SĂł tenho pena de saber que eles sĂŁo contentes,
Porque, se o nĂŁo soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.Pensar incomoda como andar Ă chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
Passagens sobre Pés
670 resultadosLogos
Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de idéias,
Que sĂŁo o meu princĂpio, meio e fim…Que estranho ser Ă©s tu (se Ă©s ser) que assim
Me arrebatas contigo e me passeias
Em regiões inominadas, cheias
De encanto e de pavor… de nĂŁo e sim…És um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te…Falo-te, calas… calo, e vens atento…
És um pai, um irmão, e é um tormento
Ter-te a meu lado… Ă©s um tirano, e adoro-te!
Talvez o Vento Saiba
Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas nĂŁo transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordamsequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.
A criatura ineficaz, hesitante, frágil – um telegrama arrasa-o, uma carta leva-o logo a pôr-se de pé, reanima-o, o silêncio que se segue à carta lança-o para a apatia.
Qual É A Tarde Por Achar
Qual Ă© a tarde por achar
Em que teremos todos razĂŁo
E respiraremos o bom ar
Da alameda sendo verĂŁo,Ou, sendo inverno, baste ‘star
Ao pé do sossego ou do fogão?
Qual Ă© a tarde por voltar?
Essa tarde houve, e agora nĂŁo.Qual Ă© a mĂŁo cariciosa
Que há de ser enfermeira minha –
Sem doenças minha vida ousa –Oh, essa mĂŁo Ă© morta e osso …
Só a lembrança me acarinha
O coração com que não posso.
Pelo Tejo Vai-se para o Mundo
O Tejo Ă© mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo nĂŁo Ă© mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo nĂŁo Ă© o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memĂłria das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual Ă© o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia nĂŁo faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
Compreender a felicidade de que o solo sobre o qual tu te manténs não pode ser maior que os dois pés que o cobrem.
Não se pode calçar o mesmo sapato em todos os pés.
A Nulidade como Ideal
A nulidade exige ordem. Tem necessidade de uma hierarquia, de meios de pressĂŁo, de agentes e de uma finalidade que se confunda consigo prĂłpria. Para manter o ser humano no seu nĂvel mais baixo, onde nĂŁo corre o risco de fazer ondas, nada melhor que uma organização estruturada com nĂveis de poder e peões disciplinados capazes de os exercer. Qualquer estrutura deste tipo aguenta-se de pĂ© devido Ă convicção geral de que nĂŁo Ă© necessário explicar para se ser obedecido, nem compreender para obedecer. A verdade difunde-se por si sĂł de cima para baixo pelo mero efeito do ascensor hieráriquico. A eficácia Ă© proporcional ao grau de complexidade graças ao qual Ă© mantida a ilusĂŁo de uma certa liberdade em todos os nĂveis de comando.
Quanto mais insignificantes sĂŁo as engrenagens humanas, mais fácil Ă© convencĂŞ-las da sua falsa autonomia. As nulidades fornecem as melhores engrenagens, associando o máximo de inĂ©rcia intelectual ao máximo de aplicação no exercĂcio de uma ditadura sobre a pequena porção de poder que lhes cabe. Essas estruturas, onde todos tĂŞm razĂŁo quando estĂŁo acima e nĂŁo a tĂŞm quando estĂŁo abaixo, realizam uma espĂ©cie de ideal humano feito de equilĂbrio entre arrogância e humildade.
Aquele que quer aprender a voar um dia precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar; ninguém consegue voar só aprendendo voo.
Todo o discurso deve ser construĂdo como uma criatura viva, dotado por assim dizer do seu prĂłprio corpo; nĂŁo lhe podem faltar nem pĂ©s nem cabeça; tem de dispor de um meio e de extremidades compostas de modo tal que sejam compatĂveis uns com os outros e com a obra como um todo.
Um radical é um homem com os pés firmemente plantados no ar.
Liberta em Pedra
Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que Ă© dor maior,
por dentro da harmonia jacente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.Não importam feições,
curvas de seios e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mĂŁos.Importa a liberdade
de nĂŁo ceder Ă vida,
um segundo sequer.Ser de pedra por fora
e sĂł por dentro ser.
– Falavas? NĂŁo ouvi.
– Beijavas? NĂŁo senti.
Morreram? Ah! Morri, morri, morri!Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto…
E fugir pela noite,
sem corpo, nem dinheiro,
para ler os meus santos
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filĂłsofos e nautas,
de tantos nevoeiros.Entre o peso das salas,
da mĂşsica concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta?
Trágica Recordação
Meu Deus! meu Deus! quando me lembro agora
De o ver brincar, e avisto novamente
Seu pequenino Vulto transcendente,
Mas tão perfeito e vivo como outrora!Julgo que ele ainda vive; e que, lá fóra,
Fala em voz alta e brinca alegremente,
E volve os olhos verdes para a gente,
Dois berços de embalar a luz da aurora!Julgo que ele ainda vive, mas já perto
Da Morte: sombra escura, abysmo aberto…
Pesadêlo de treva e nevoeiro!Ó visão da Creança ao pé da Morte!
E a da MĂŁe, tendo ao lado a negra sorte
A calcular-lhe o golpe traiçoeiro!
Paz
Calado ao pé de ti, depois de tudo,
Justificado
Como o instinto mandou,
Ouço, nesta mudez,
A força que te dobrou,
Serena, dizer quem és
E quem sou.
O degrau da escada não foi inventado para repousar, mas apenas para sustentar o pé o tempo necessário para que o homem coloque o outro pé um pouco mais alto.
Desconfia da Ideia de Homem Feliz
Verifica que homem feliz não é aquele que o vulgo entende por tal, ou seja, um homem de grandes recursos monetários; é, sim, aquele para quem todo o bem reside na própria alma, é o homem sereno, magnânimo, que pisa aos pés os interesses vulgares, que só admira no homem aquilo que faz a sua qualidade de homem, que segue as lições da natureza, se conforma com as suas leis, e vive segundo o que ela prescreve; é o homem a quem força alguma despojará dos seus bens próprios, o homem capaz de fazer do próprio mal um bem, seguro do seu pensamento, inabalável, intrépido; é o homem a quem a força pode abalar, mas nunca desviar da sua rota; a quem a fortuna, apontando contra ele as mais duras armas com a maior violência, pode arranhar, mas nunca ferir, e mesmo assim raramente, porquanto os dardos da sorte, que afligem em geral a humanidade, fazem ricochete contra ele à maneira do granizo que, batendo no tecto, salta e se derrete sem causar qualquer dano ao ocupante da casa.
Um parvo em pé vai mais longe que um intelectual sentado.
Os Cinco Sentidos
SĂŁo belas – bem o sei, essas estrelas,
Mil cores – divinais tĂŞm essas flores;
Mas eu nĂŁo tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
NĂŁo vejo outra beleza
SenĂŁo a ti – a ti!Divina – ai! sim, será a voz que afina
Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
SenĂŁo a ti – a ti!Respira – n’aura que entre as flores gira,
Celeste – incenso de perfume agreste,
Sei… nĂŁo sinto: minha alma nĂŁo aspira,
NĂŁo percebe, nĂŁo toma
SenĂŁo o doce aroma
Que vem de ti – de ti!Formosos – sĂŁo os pomos saborosos,
É um mimo – de nĂ©ctar o racimo:
E eu tenho fome e sede… sequiosos,
Famintos meus desejos
EstĂŁo… mas Ă© de beijos,
É sĂł de ti – de ti!Macia – deve a relva luzidia
Do leito – ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carĂcias,
Alimentar o Ego
Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensações uma religiĂŁo e uma polĂtica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, Ă© o sentir as coisas mĂnimas extraordinária — e desmedidamente. Este Ă© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro nĂŁo Ă© mais do que isto. Saber pĂ´r no saborear duma chávena de chá a volĂşpia extrema que o homem normal sĂł pode encontrar nas grandes alegrias que vĂŞm da ambição subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou entĂŁo nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na visĂŁo dum poente ou na contemplação dum detalhe decorativo aquela exasperação de senti-los que geralmente sĂł pode dar, nĂŁo o que se vĂŞ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta — essa proximidade do objecto da sensação que sĂł as sensações carnais — o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro Ă consciĂŞncia; poder tornar a visĂŁo interior, o ouvido do sonho — todos os sentidos supostos e do suposto — recebedores e tangĂveis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as análogas suponham-se,