Textos sobre Ondas

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Textos de ondas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Moral entre a Verdade e a Subjectividade

Um homem que busca a verdade torna-se s√°bio; um homem que pretende dar r√©dea solta √† sua subjectividade torna-se, talvez, escritor; e que far√° um homem que busca algo que se situa entre essas duas hip√≥teses? Mas tais exemplos, os de algo que est√° ¬ęentre¬Ľ, encontramo-los em qualquer senten√ßa moral, a come√ßar pela mais simples e mais conhecida: ¬ęn√£o matar√°s¬Ľ. V√™-se imediatamente que n√£o √© nem uma verdade nem uma experi√™ncia subjectiva. Sabe-se que, em muitos aspectos, nos conformamos estritamente a ela, mas que, por outro lado, se aceitam numerosas excep√ß√Ķes, ainda que perfeitamente delimitadas; no entanto, num grande n√ļmero de casos de um terceiro tipo – por exemplo na imagina√ß√£o, na esfera dos desejos, nas pe√ßas de teatro ou no prazer que experimentamos ao ler as not√≠cias dos jornais – deixamo-nos oscilar descontroladamente entre a avers√£o e a atrac√ß√£o.
Por vezes aquilo a que n√£o podemos chamar nem verdade nem experi√™ncia pessoal recebe o nome de imperativo. Tais imperativos foram associados aos dogmas da religi√£o ou da lei, concedendo-lhes assim o car√°cter de uma verdade derivada, mas os romancistas narram as excep√ß√Ķes, a come√ßar pelo sacrif√≠cio de Abra√£o e terminando na bela mulher jovem que matou o amante a tiro,

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Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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Os Portugueses S√£o Profundamente Vaidosos

Os Portugueses s√£o profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. Quando, por exemplo, os Franceses me dizem, com uma linguagem muito catedr√°tica, ¬ęeu conhe√ßo muito bem os Portugueses atrav√©s de toda essa onda de emigra√ß√£o, eles s√£o muito humildes e dizem que o lugar onde gostariam de morrer seria em Fran√ßa¬Ľ, eu digo ¬ętenha cuidado, o portugu√™s mente sempre. √Č como o japon√™s, mente sempre.¬Ľ Porque tem receio de mostrar o seu complexo de superioridade. Ele acha que √© imprudente e que √© at√© disparatado, mas que faz parte da sua natureza. Portanto, apresenta uma esp√©cie de capa e de fisionomia de humildade, mod√©stia, submiss√£o. Mas n√£o √© nada disso, √© justamente o contr√°rio. Houve √©pocas da nossa Hist√≥ria em que a sua verdadeira natureza p√īde expandir-se sem cair no rid√≠culo, mas h√° outras em que n√£o. E ent√£o, para se defender desse rid√≠culo, o portugu√™s parece essa pessoa modesta, cordata, que n√£o levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular.

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

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Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando √© livre esse povo, quando a paz lhe √© ainda convalescen√ßa para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando come√ßa a ter consci√™ncia de si e da sua soberania… que ent√£o, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lan√ßar do porto; para esse povo √© como de morte este sintoma, porque √© o olvido da ideia que h√° pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue,

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Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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Conduta e Poesia

Quando o tempo nos vai comendo com o seu rel√Ęmpago quotidiano decisivo, as atitudes fundadas, as confian√ßas, a f√© cega se precipitam e a eleva√ß√£o do poeta tende a cair como o mais triste n√°car cuspido, perguntamo-nos se j√° chegou a hora de envilecermos. A hora dolorosa de ver como o homem se sust√©m a puro dente, a puras unhas, a puros interesses. E como entram na casa da poesia os dentes e as unhas e os ramos da feroz √°rvore do √≥dio. √Č o poder da idade, ou proventura, a in√©rcia que faz retroceder as frutas no pr√≥prio bordo do cora√ß√£o, ou talvez o ¬ęart√≠stico¬Ľ se apodere do poeta e, em vez do canto salobro que as ondas profundas devem fazer saltar, vemos cada dia o miser√°vel ser humano defendendo o seu miser√°vel tesouro de pessoa preferida?
A√≠, o tempo avan√ßa com cinza, com ar e com √°gua! A pedra que o lodo e a ang√ļstia morderam floresce com prontid√£o com estrondo de mar, e a pequena rosa regressa ao seu delicado t√ļmulo de corola.
O tempo lava e desenvolve, ordena e continua.
E que fica ent√£o das pequenas podrid√Ķes, das pequenas conspira√ß√Ķes do sil√™ncio, dos pequenos frios sujos da hostilidade?

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A Felicidade na Perseverança

Meu bem-amado Luc√≠lio, conjuro-te a tomar o √ļnico partido que pode garantir a felicidade. Dispersa e pisoteia os esplendores de fora, as suas promessas, os seus lucros; volta o olhar para o vero bem; s√™ feliz merc√™ do teu pr√≥prio cabedal. Qual √© esse cabedal? Tu mesmo, e a melhor parte de ti. Este pobre corpo esfor√ßa-se por ser nosso colaborador indispens√°vel; considera-o antes um objecto necess√°rio do que importante. Ele procura os prazeres v√£os, breves, seguidos de descontentamento e destinados, se uma grande modera√ß√£o n√£o os tempera, a passarem para o estado oposto. Sim, sim, o prazer est√° √† beira de um declive: inclina-se para o sofrimento quando deixa de observar o justo limite. Ora, observar tal limite √© dif√≠cil em rela√ß√£o √†quilo que se acreditou fosse um bem. O √°vido desejo do verdadeiro bem n√£o oferece risco algum.
Em que consiste o verdadeiro bem Рquereis saber Рe qual é a fonte de onde emana?

Eu to direi: √© a boa consci√™ncia, as inten√ß√Ķes virtuosas, as rectas ac√ß√Ķes, o desprezo pelos eventos fortuitos, o desenvolvimento tranquilo e regular de uma exist√™ncia que anda por um s√≥ caminho. Quanto a esses homens que v√£o de desejo em desejo,

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Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Trazer a Paix√£o de Volta

Se te encontras numa rela√ß√£o, e parto do princ√≠pio que se l√° est√°s √© porque ainda a queres, a √ļnica via para trazeres a paix√£o de volta ao seio do vosso quotidiano passa por romp√™-lo. Sim, acabar com os h√°bitos, com as rotinas doentias e enfadonhas e com tudo aquilo que est√°, deem conta ou n√£o, a acabar convosco e a consumir-vos lentamente. Daqui a pouco, se √© que j√° n√£o se encontram nesse estado, j√° nem podem olhar um para o outro, ouvir-se, cheirar-se e muito menos tocar-se e, por incr√≠vel que pare√ßa, nada disto significa que o amor tenha desaparecido. O que se escafedeu foi mesmo a paix√£o, a ponte que passa por cima de todas as diferen√ßas, conflitos e afins. Uma noite de sexo ou uma conchinha ao dormir, por exemplo, conseguem salvar a turbul√™ncia de uma semana inteira. √Č a magia dos sentidos.

Portanto, e retomando a nossa conversa, se queres despertar novamente o fogo entre ti e a pessoa com quem estás, não esperes mais pelo trágico e anunciado fim nem por uma eventual iniciativa que o outro possa tomar, agarra tu nas rédeas da tua vida e convida a pessoa para um jantar ou um outro programa qualquer num lugar diferente,

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Tango do Vi√ļvo

Tive dificuldades na minha vida privada. A doce Josie Bliss foi-se convencendo e apaixonando at√© adoecer de ci√ļmes. Se n√£o fosse isso, talvez tivesse continuado indefinidamente ao lado dela. Enterneciam-me os seus p√©s nus, as brancas flores que lhe brilhavam na cabeleira negra. Mas o seu temperamento levava-a at√© paroxismos selvagens. Tinha ci√ļmes e avers√£o √†s cartas que me chegavam de longe; escondia-me os telegramas sem os abrir, olhava com rancor o ar que eu respirava.

Por vezes acordava-me uma luz, um fantasma que se movia por detr√°s da rede do mosquiteiro. Era ela, vestida de branco, brandindo o seu longo e afiado punhal ind√≠gena. Era ela, rondando-me a cama horas inteiras sem se decidir a matar-me. ¬ęQuando morreres, acabar√£o os meus receios¬Ľ, dizia-me. No dia seguinte realizava misteriosos ritos para garantir a minha fidelidade.

Acabaria por me matar. Por sorte, recebi uma mensagem oficial participando-me que fora transferido para Ceilão. Preparei a minha viagem em segredo e um dia, abandonando a minha roupa e os meus livros, saí de casa como de costume e entrei no barco que me levaria para longe.

Deixava Josie Bliss, espécie de pantera birmanesa, na maior dor. Mal o barco começou a mover-se sobre as ondas do golfo de Bengala,

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A Nulidade como Ideal

A nulidade exige ordem. Tem necessidade de uma hierarquia, de meios de press√£o, de agentes e de uma finalidade que se confunda consigo pr√≥pria. Para manter o ser humano no seu n√≠vel mais baixo, onde n√£o corre o risco de fazer ondas, nada melhor que uma organiza√ß√£o estruturada com n√≠veis de poder e pe√Ķes disciplinados capazes de os exercer. Qualquer estrutura deste tipo aguenta-se de p√© devido √† convic√ß√£o geral de que n√£o √© necess√°rio explicar para se ser obedecido, nem compreender para obedecer. A verdade difunde-se por si s√≥ de cima para baixo pelo mero efeito do ascensor hier√°riquico. A efic√°cia √© proporcional ao grau de complexidade gra√ßas ao qual √© mantida a ilus√£o de uma certa liberdade em todos os n√≠veis de comando.
Quanto mais insignificantes s√£o as engrenagens humanas, mais f√°cil √© convenc√™-las da sua falsa autonomia. As nulidades fornecem as melhores engrenagens, associando o m√°ximo de in√©rcia intelectual ao m√°ximo de aplica√ß√£o no exerc√≠cio de uma ditadura sobre a pequena por√ß√£o de poder que lhes cabe. Essas estruturas, onde todos t√™m raz√£o quando est√£o acima e n√£o a t√™m quando est√£o abaixo, realizam uma esp√©cie de ideal humano feito de equil√≠brio entre arrog√Ęncia e humildade.

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A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

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De Duas Maneiras Cega a Fortuna

No golfo de uma privan√ßa, nunca o perigo √© mais certo, que quando a fortuna √© mais pr√≥spera. De duas maneiras cega a fortuna, porque cega como luz e cega como fouce; com uma m√£o abra√ßa, e com outra corta; com a que abra√ßa introduz a cegueira, e com a que corta mostra o desengano. Consiste a prud√™ncia em que se temam os resplendores da luz, para que se n√£o cegue aos rigores do golpe. N√£o faz mal √† embarca√ß√£o o penedo que sobressai por cima da √°gua; porque para evitar o perigo sabe o piloto desviar a nau, por ver manifesto o perigo. Nos penedos que as √°guas escondem, a√≠ naufraga sempre o baixel; porque cobriu com capa de cristal uma ru√≠na de penhasco, e os que, navegando pelo mar, caminham com os olhos nas ondas, facilmente se esvaem, e quanto maior √© na cabe√ßa o esvaecimento, vem a ser mais no cora√ß√£o a fraqueza. N√£o sabe o que navega quanto tem vencido de dist√Ęncia, se do mesmo mar n√£o tira os olhos, e s√≥ fazendo balizas na terra sabe o quanto no mar caminham. √Č um golfo grande o da privan√ßa, e a maior prud√™ncia consiste em que se divirtam de alguma vez os olhos,

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Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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O Que me Mata é o Quotidiano

Dor? Alegria? S√≥ √© simplesmente quest√£o de opini√£o. Eu adivinho coisas que n√£o t√™m nome e que talvez nunca ter√£o. √Č. Eu sinto o que me ser√° sempre inacess√≠vel. √Č. Mas eu sei tudo. Tudo o que sei sem propriamente saber n√£o tem sin√≥nimo no mundo da fala mas enriquece e me justifica. Embora a palavra eu a perdi porque tentei fal√°-la. E saber-tudo-sem saber √© um perp√©tuo esquecimento que vem e vai como as ondas do mar que avan√ßam e recuam na areia da praia. Civilizar minha vida √© expulsar-me de mim. Civilizar minha exist√™ncia a mais profunda seria tentar expulsar a minha natureza e a supernatureza. Tudo isso no entanto n√£o fala de meu poss√≠vel significado.
O que me mata √© o quotidiano. Eu queria s√≥ excep√ß√Ķes. Estou perdida: eu n√£o tenho h√°bitos.

A Inteligência e o Carácter das Massas

O nosso tempo √© rico em mentes inventivas, cujas inven√ß√Ķes podem facilitar consideravelmente as nossas vidas. Estamos a atravessar os mares com pot√™ncia e a utilizar a pot√™ncia tamb√©m para libertar a humanidade de todo o trabalho muscular cansativo. Aprendemos a voar e somos capazes de enviar mensagens e not√≠cias sem qualquer dificuldade para todo o mundo atrav√©s de ondas el√©ctricas.
Contudo, a produção e a distribuição de bens estão completamente desorganizadas, de tal forma que toda a gente vive com medo de ser completamente eliminada do ciclo económico, sofrendo deste modo do querer tudo. Para além disso, as pessoas que vivem em países diferentes matam-se umas às outras com intervalos de tempo irregulares, de tal modo que, também por esta razão, todo aquele que pensa no futuro vive no medo e no terror. Isto deve-se ao facto de a inteligência e o carácter das massas serem incomparavelmente menores do que a inteligência e o carácter dos poucos que produzem algo de verdadeiramente válido para a comunidade.
Tenho confian√ßa em que a posteridade ler√° estas afirma√ß√Ķes com um sentimento de orgulho e superioridade justificada.

Quem Confia Supera-se

Quanto mais confiante fores, maior ameaça és.

Quem confia supera-se, é maior e mais alto. Conquista mais, é mais forte e vê mais longe. Sabe por onde caminhar, sabe melhor o que não quer e sabe antecipar-se. Vive, portanto, melhor preparado para resistir a tudo e persistir perante qualquer adversidade.

Quem confia sempre alcança.

Somos uma sombra na vida dos encolhidos. Um despertador que n√£o para de lhes gritar aos ouvidos express√Ķes como: ¬ęmexe-te¬Ľ, ¬ęv√™s como eles conseguem¬Ľ, ¬ęn√£o vales nada¬Ľ ou ¬ęquem te dera ser como eles¬Ľ. E isto, naturalmente, incomoda-os. D√°-lhes a volta ao est√īmago. Mas em vez de tal chamariz de verdade os acicatar e os empurrar para a a√ß√£o, acabam por escolher transformar isso em inveja, raiva e √≥dios de estima√ß√£o ao ponto de olharem para ti, n√£o como uma for√ßa inspiradora capaz de lutar por tudo o que quer, mas como um alvo a abater. √Č como se o objetivo das suas vidas passasse a ser a destrui√ß√£o do chato despertador que n√£o para de lhes zumbir a realidade, em lugar de ser a realiza√ß√£o das suas pr√≥prias e eventuais vontades.

Dito isto, prepara-te para teres de lidar com eles todos os dias.

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O Nascimento de um Poema

Escreve-se um poema devido √† suspeita de que enquanto o escrevemos algo vai acontecer, uma coisa formid√°vel, algo que nos transformar√°, que transformar√° tudo. Como na inf√Ęncia, quando se fica √† porta de um quarto obscuro e vazio. Fica-se durante um minuto uma brisa levanta-se nos confins da obscuridade: um redemoinho no ar, uma luz, uma ilumina√ß√£o talvez? Estamos prontos para o assentimento. Outro minuto, cinco, dez, ali, diante do an√ļncio suspenso e amea√ßador: n√£o acontece nada. Poder-se-ia esperar um dia inteiro, dias seguidos. As vezes p√°ra-se no meio de um jardim ou de um parque ou de uma avenida deserta. S√£o variantes do quarto. Acontece o mesmo, quero dizer: n√£o acontece na¬¨da. A suspeita apenas de que nos aguarda uma esp√©cie de gra√ßa reticente, um dom reticente. Ou contempla-se um rosto, algu√©m que se ama, um ser imediato; ou ent√£o um rosto desconhecido, defendido. Pensamos: √© uma vida nova, uma for√ßa nova e profunda, √© uma paisagem misteriosa, profunda e nova que se relaciona intimamente connosco: vai revelar-se. E a outra pessoa olha para n√≥s perdida nas perspectivas inquietas da nossa contempla√ß√£o. E recome√ßa-se. O mesmo, sempre. Nada. Por isso surpreendeu-me a, diga¬¨mos, coer√™ncia vertical do volume, e o seu comprimento de onda,

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