Poemas sobre Garganta

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Poemas de garganta escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Tenho uma Saudade t√£o Braba

Tenho uma saudade t√£o braba
Da ilha onde j√° n√£o moro,
Que em velho só bebo a baba
Do pouco pranto que choro.

Os meus parentes, com dó,
Bem que me querem levar,
Mas talvez que nem meu pó
Mereça a Deus lá ficar.

Enfim, só Nosso Senhor
H√°-de decidir se posso
Morrer l√° com esta dor,
A meio de um Padre Nosso.

Quando se diz ¬ęSeja feita¬Ľ
Eu sentirei na garganta
A m√£o da Morte, direita
A este peito, que ainda canta.

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus l√°bios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser m√ļsica
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e naveg√°vel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas √°guas nuas.

O Brilho dos Teus Olhos

I

Decerto que j√° te falei da contemporaneidade
e mesmo do brilho dos teus olhos.

Hoje talvez estivesse mais inclinado
exactamente
a falar do brilho dos teus olhos

na vulgar dist√Ęncia
entre o teu queixo e os teus seios
no traço oscilante e perfumado das clavículas
na claridade envergonhada das omoplatas.

II

Da contemporaneidade tu j√° sabes o que penso
agora talvez comesse qualquer coisa.

Perd√£o, querida, tens anchovas no arm√°rio?
yes!? com alcaparra… it’s wonderful!
vinho, meu amor vinho pelas gargantas de veludo.

III

Não adormeças logo agora
que eu estava mais fluente e disposto
a falar-te, ainda que de novo, na contemporaneidade

ou não adormeça eu
logo agora
que o teu cabelo se encosta
à suavidade das almofada
animando o amor do Donald e da Daisy
que, entretanto, j√° transpuseram
a barreira lisa do pano e do desenho
e se encaminham j√° para o quarto ao lado.

N√£o Posso Adiar o Amor

Não posso adiar o amor para outro século
n√£o posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

N√£o posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

Sete Haicais – um Poema

Este vale canta
– um p√°ssaro fez morada
em sua garganta.

O inverno me achou
lavrando a terra. Havia paz
no canto das p√°s.

Botas de soldado
frente ao mar. ‚Äď Vindes matar
até as gaivotas?

Partes para a guerra.
Sim, nada digas. Ouçamos
o rio de formigas.

A ideia da morte
vem-me ao colo e pede afagos
como um gato (abstracto).

Ah! amigo, amigo
Рalém da morte, que posso
repartir contigo?

Porque tudo j√°
foi dito, destravo a língua
no vazio, aos gritos!

Assim a Casa Seja

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Voltaste, j√° voltaste
J√° entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Ent√£o que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada
Voltaste, j√° voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Ent√£o que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Amor, o que ser√°
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

J√° fuma o nosso fumo
J√° sobra a nossa manta
J√° veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta.

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A √°rvore do Outono
Coberta de cereja.

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Na Arca Aberta, o Justo Peca

Na arca aberta o justo peca,
n√£o em canastra fechada;
mas vós da minha coitada
fechada a fazeis caneca:
vindes l√° de seca e meca
com tal pressa e furor tal,
que fazeis, para meu mal,
com mau termo e ruim modo,
do meu queijo lama e lodo,
e do meu p√£o cinza e sal.

Quando as peras me levais,
ent√£o para peras levo,
pois vos pago o que n√£o devo,
e vós rindo vos ficais:
se pêra flamenga achais
a comeis em português,
e me fazeis d’essa vez,
com estrondo e com arenga,
os narizes √° flamenga
muito mal em que me pez.

Não vos escapam por pés
minhas cerejas bicais,
nem as ginjas garrafais,
se as tenho alguma vez:
porque mal, em que me pez,
como cerejas se v√£o
pelos pés á vossa mão
e da vossa m√£o √° minha,
a cereja é marouvinha
as ginjas galegas s√£o.

Passa hoje por lebre o gato,
por perdiz passa o francelho
por cap√£o o galo velho,

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A Manh√£

A rosada manh√£ serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino alj√īfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
V√£o em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Sa√ļdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras √°guas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A √ļmida cabe√ßa ergue vi√ßosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha,

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W.C.

Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
j√° dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do √Ęnus provecto
dessas criaturas f√ļteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
¬ę√Č o som das √°guas que bate na garganta.¬Ľ
Aliviados ent√£o os cora√ß√Ķes repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d’alma.

Ama-me

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um s√≥ murm√ļrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
T√£o intenso meu canto, t√£o flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, h√° de cantar comigo.

Os Homens Gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas m√£os a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
‚ÄĒ que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem rel√Ęmpagos,
ah, sem rel√Ęmpagos…
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murm√ļrio da dor, esse murm√ļrio triste e simples
de l√°grima intermin√°vel, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunic√°vel,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das √°guas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens,

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Letra para um hino

√Č poss√≠vel falar sem um n√≥ na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar n√£o tenhas medo: canta.

√Č poss√≠vel andar sem olhar para o ch√£o
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer n√£o grita comigo: n√£o.

√Č poss√≠vel viver de outro modo. √Č
possível transformares em arma a tua mão.
√Č poss√≠vel o amor. √Č poss√≠vel o p√£o.
√Č poss√≠vel viver de p√©.

N√£o te deixes murchar. N√£o deixes que te domem.
√Č poss√≠vel viver sem fingir que se vive.
√Č poss√≠vel ser homem.
√Č poss√≠vel ser livre livre livre.

Sede

Boca invisível
na flor da boca,
l√°bios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no ch√£o gretado.
Rente à corrente
de √°guas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.

O Grito

Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que n√£o sofre tem o direito de n√£o sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com l√°grimas

se ao menos esta dor sangrasse

Rosto Afogado

Para sempre um luar de naufr√°gio
anunciar√° a aurora fria.
Para sempre o teu rosto afogado,
entre retratos e vendedores ambulantes,
entre cigarros e gente sem destino,
flutuar√° rodeado de escamas cintilantes.

Se me pudesse matar,
seria pela curva doce dos teus olhos,
pela tua fronte de bosque adormecido,
pela tua voz onde sempre amanhecia,
pelos teus cabelos onde o rumor da sombra
era um rumor de festa,
pela tua boca onde os peixes se esqueciam
de continuar a viagem nupcial.
Mas a minha morte é este vaguear contigo
na parte mais débil do meu corpo,
com uma espinha de silêncio
atravessada na garganta.

Não sei se te procuro ou se me esqueço
de ti quando acaso me debruço
nuns olhos subitamente acesos
ao dobrar de uma esquina,
na boca dos anjos embriagados
de tanta solid√£o bebida pelos bares,
nas m√£os levemente adolescentes
poisadas na indolência dos joelhos.
Quem me dirá que não é verdade
o teu rosto afogado, o teu rosto perdido,
de sombra em sombra, nas ruas da cidade?

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Homem

In√ļtil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
s√£o gargantas deste grito.
Universo em expans√£o.
Pincelada de zarc√£o
desde mais infinito a menos infinito.

Retrato Ardente

Entre os teus l√°bios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a √°gua.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre l√°bios e l√°bios
toda a m√ļsica √© minha.

Grita

Amor, quando chegares à minha fonte distante,
cuida para que n√£o me morda tua voz de ilus√£o:
que minha dor obscura n√£o morra nas tuas asas,
nem se me afogue a voz em tua garganta de ouro.

Quando chegares, Amor
à minha fonte distante,
sê chuva que estiola,
sê baixio que rompe.

Desfaz, Amor, o ritmo
destas √°guas tranquilas:
sabe ser a dor que estremece e que sofre,
sabe ser a ang√ļstia que se grita e retorce.

Não me dês o olvido.
Não me dês a ilusão.
Porque todas as folhas que na terra caíram
me deixaram de ouro aceso o coração.

Quando chegares, Amor
à minha fonte distante,
desvia-me as vertentes,
aperta-me as entranhas.

E uma destas tardes РAmor de mãos cruéis -,
ajoelhado, eu te darei graças.

Tradução de Rui Lage

Retrato do Povo de Lisboa

√Č da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e p√Ķe a nu a esp√°dua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

√Č da voz do meu povo uma crian√ßa
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

Até o Fim

Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas m√£os
trémulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes l√°bios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigénio
sobrevivência
no abstracto
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim.