Cita√ß√Ķes sobre Queimas

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Se Queres Ser Feliz Abdica da Inteligência

Os tolos s√£o felizes; eu se fosse casado eliminava os tolos da minha casa. Cada cidad√£o, que me fosse apresentado, n√£o poderia s√™-lo, sem exibir o diploma de s√≥cio da academia real das ci√™ncias. Olha, crian√ßa, decora estas duas verdades que o Balzac n√£o menciona na ¬ęFisiologia do Casamento¬Ľ. Um erudito, ao p√© da tua mulher, fala-lhe na civiliza√ß√£o grega, na decad√™ncia do imp√©rio romano, em economia politica, em direito publico, e at√© em qu√≠mica aplicada ao extracto do esp√≠rito de rosas. Confessa que tudo isto o maior mal que pode fazer √† tua mulher √© adormec√™-la. O tolo n√£o √© assim. Como ignora e desdenha a ci√™ncia, dispara √† queima roupa na tua pobre mulher quantos galanteios importou de Paris, que s√£o originais em Portugal, porque s√£o ditos num idioma que n√£o √© franc√™s nem portugu√™s.

Tua mulher, se tem a infelicidade de não ter em ti um marido doce e meigo, começa a comparar-te com o tolo, que a lisonjeia, e acha que o tolo tem muito juízo. Concedido juízo ao tolo, concede-se-lhe razão; concedida a razão, concede-se-lhe tudo. Ora aí tens porque eu antes queria ao pé de minha mulher o padre José Agostinho de Macedo,

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A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável.

Qual tem a borboleta por costume

Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,

Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;

Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.

Não falo, não suspiro, não escrevo seu nome. Mas a lágrima que agora queima a minha face me força a fazê-lo

Olhar

As grades que me prendem s√£o teus olhos,
aqu√°tica pris√£o, cela tel√ļrica,
liana que me enrosca e me desfolha
no tronco tosco dessa √°rvore l√ļbrica.

No sol de Gl√°ucia apenas me recolho
e, sendo assim, o sido se faz p√ļblico
num pelourinho aberto com seus folhos
zurzindo seu chicote em gestos l√ļdicos.

Perau de feras, circo de centelha
regendo as águas tépidas de escamas
no fogo da (a)ventura da parelha.

Tudo em suor e sal o amor proclama:
No mar do teu olhar a onda se espelha
na chama que me queima e que te inflama.

Aqui Morava Um Rei

“Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gib√£o,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bord√£o,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sert√£o.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.”

fingir que est√° tudo bem

fingir que est√° tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que est√° tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos l√°bios a sorrir: ser√° que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer? olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que est√° tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

Sede

Boca invisível
na flor da boca,
l√°bios rachados
de sol e sal,
de folha e palha.
Língua de brasa
queima a garganta;
voz abafada,
som que farfalha.
As cimitarras
voam ao vento,
cortam papéis
(brancas mortalhas).
Ossos ressecos
feitos de pó,
baixos-relevos
no ch√£o gretado.
Rente à corrente
de √°guas que fervem
alço o meu corpo
círio fanado,
chama indecisa
que arde tão só.

O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais

H√° t√£o diversas esp√©cies de homens como h√° diversas esp√©cies de animais, e os homens s√£o, em rela√ß√£o aos outros homens, o que as diferentes esp√©cies de animais s√£o entre si e em rela√ß√£o umas √†s outras. Quantos homens n√£o vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cru√©is, outros como le√Ķes, mantendo alguma apar√™ncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e √°vidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo of√≠cio √© enganar!
Quantos homens n√£o se parecem com os c√£es! Destroem a sua esp√©cie; ca√ßam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atr√°s do dono; outros guardam-lhes a casa. H√° lebr√©us de trela que vivem do seu m√©rito, que se destinam √† guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas h√° tamb√©m dogues irasc√≠veis, cuja √ļnica qualidade √© a f√ļria; h√° c√£es mais ou menos in√ļteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e h√° at√© c√£es de jardineiro. H√° macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que t√™m esp√≠rito e que fazem sempre mal. H√° pav√Ķes que s√≥ t√™m beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.

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Vos Foi Beijar na Parte Onde se Via

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil, que eu na alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama que se atreve
A apagar seus ardores e tormentos
Na vista a quem o sol temores deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima cora√ß√Ķes e pensamentos.

O Efeito Nefasto da Afirmação e Repetição

A afirma√ß√£o e a repeti√ß√£o s√£o agentes muito poderosos pelos quais s√£o criadas e propagadas as opini√Ķes. A educa√ß√£o √©, em parte, baseada neles. Os pol√≠ticos e os agitadores de toda a natureza fazem disso um uso quotidiano. Afirmar, depois repetir, representa mesmo o fundo principal dos seus discursos.
A afirmação não precisa de se apoiar numa prova racional qualquer: deve, simplesmente, ser curta e enérgica, e cumpre que impressione. Pode-se considerar como tipo dessas três qualidades o manifesto seguinte, recentemente reproduzido em vários jornais:

Quem produziu o trigo, isto é, o pão para todos? O camponês!

Quem faz brotar a aveia, a cevada, todos os cereais? O camponês!

Quem cria o gado para dar a carne? O camponês!

Quem cria o carneiro para proporcionar a lã? O camponês!

Quem produz o vinho, a cidra, etc.? O camponês!

Quem nutre a caça? O camponês!

E, entretanto, quem come o melhor p√£o, a melhor carne?

Quem usa as mais belas roupas?

Quem bebe o bordeaux e o champagne?

Quem se aproveita da caça?

O burguês!!

Quem se diverte e repousa à vontade?

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Mantém-te distante da inveja, pois assim como o fogo queima a lenha

Mant√©m-te distante da inveja, pois assim como o fogo queima a lenha, a inveja consome as boas ac√ß√Ķes.

Prometi-me Possuí-la

Prometi-me possuí-la muito embora
ela me redimisse ou me cegasse.
Busquei-a na cat√°strofe da aurora,
e na fonte e no muro onde sua face,

entre a alucinação e a paz sonora
da √°gua e do musgo, solit√°ria nasce.
Mas sempre que me acerco vai-se embora
como se temesse ou me odiasse.

Assim persigo-a, l√ļcido e demente.
Se por detr√°s da tarde transparente
seus pés vislumbro, logo nos desvãos

das nuvens fogem, luminosos e √°geis!
Vocabul√°rio e corpo ‚ÄĒ deuses fr√°geis ‚ÄĒ
eu colho a ausência que me queima as mãos.

[Poemas Portugueses]

Retrato Ardente

Entre os teus l√°bios
é que a loucura acode
desce à garganta,
invade a √°gua.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre l√°bios e l√°bios
toda a m√ļsica √© minha.

Caminho

I

Tenho sonhos cru√©is; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente…

Saudades desta dor que em v√£o procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o cora√ß√£o dum v√©u escuro!…

Porque a dor, esta falta d_harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o c√©u d’agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
d Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho

√Č longe, √© muito longe, h√° muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

√Č no monte escabroso, solit√°rio.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!… Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um…

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Anjo √Čs

Anjo és tu, que esse poder
Jamais o teve mulher,
Jamais o h√°-de ter em mim.
Anjo és, que me domina
Teu ser o meu ser sem fim;
Minha raz√£o insolente
Ao teu capricho se inclina,
E minha alma forte, ardente,
Que nenhum jugo respeita,
Covardemente sujeita
Anda humilde a teu poder.
Anjo és tu, não és mulher.

Anjo és. Mas que anjo és tu?
Em tua fronte anuviada
N√£o vejo a c’roa nevada
Das alvas rosas do céu.
Em teu seio ardente e nu
Não vejo ondear o véu
Com que o s√īfrego pudor
Vela os mist√©rios d’amor.
Teus olhos têm negra a cor,
Cor de noite sem estrela;
A chama é vivaz e é bela,
Mas luz não têm. РQue anjo és tu?
Em nome de quem vieste?
Paz ou guerra me trouxeste
De Jeov√° ou Belzebu?

Não respondes Рe em teus braços
Com frenéticos abraços
Me tens apertado, estreito!…
Isto que me cai no peito
Que foi?… – L√°grima? – Escaldou-me…
Queima,

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N√£o H√° Tempo

N√£o h√° tempo
h√° horas
Não há um relógio
h√°
h√°bitos que
me habitam

O poema dói
o ponteiro corta
a hora que queima
a morte simula

respira
para n√£o me distrair