Sonetos sobre Ondas

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Sonetos de ondas escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Corre, J√° entre Serras Escarpadas

Corre, j√° entre serras escarpadas,
J√° sobre largos campos, murmurando.
o Tieté, e, as águas engrossando,
soberbo alaga as margens levantadas.

Penedos, pontes, √°rvores copada:
quanto topa, de cólera escumando,
com fragor espantoso vai rolando
nos vórtices das ondas empoladas.

Mas quando mais caudal, mais orgulhoso,
as margens rompe, cai precipitado,
atroando ao redor toda a campina.

O próprio retrato é dum poderoso,
pois quanto mais sublime é seu estado
mais estrondosa é a sua ruína.

M√£ezinha

Andam em mim fantasmas, sombras, ais…
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
Névoas de dantes, dum longínquo outrora;
Castelos d’oiro em mundos irreais…

Gotas d’√°gua tombando… Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora…
‚ÄĒ E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!…

√ď meu Amor, meu seio √© como um ber√ßo
Ondula brandamente… Brandamente…
Num ritmo escultural d’onda ou de verso!

No mundo quem te v√™?! Ele √© enorme!…
Amor, sou tua m√£e! V√°… docemente
Poisa a cabe√ßa… fecha os olhos… dorme…

Sorriso Interior

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse bras√£o augusto
Do grande amor, da nobre f√© tranq√ľila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem √Ęnsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo efl√ļvio.

O ser que √© ser tranforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as √°guas do Dil√ļvio!

Afrodite II

Cabelo errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o m√°rmore luzindo
Alvirróseo do peito, Рnua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.

Embalaram-na as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, Рsorria
Ao vê-la o golfo, se ela adormecia
Das grutas de √Ęmbar no recesso infindo.

Vede-a: veio do abismo! Em roda, em pêlo
Nas √°guas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;

Vêm a saudá-la todos, revoando,
Golfinhos e trit√Ķes, em larga ronda,
Pelos retorsos b√ļzios assoprando.

Beijos No Ar

No silêncio da noite, alta e deserta,
inebriante, férvido sintoma,
uma fragr√Ęncia feminina assoma
e tentadoramente me desperta.

Entrou-me, em ondas, a janela aberta,
como se se quebrara uma redoma,
da qual fugira o delirante aroma,
que o mistério do amor assim me oferta.

De que dama-da-noite ou jasmineiro,
de que magnólia em flor, em fevereiro,
se exala esse c√°lido desejo?

Ela sonha comigo: esse perfume
vem da sua saudade, que presume,
embora em sonho, ter-me dado um beijo!

Apartava-Se Nise De Montano

Apartava-se Nise de Montano,
em cuja alma partindo-se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar-se deste engano.

Pelas praias do √ćndico Oceano
sobre o curvo cajado s’encostava,
e os olhos pelas √°guas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.

Pois com tamanha m√°goa e saudade
(dezia) quis deixar-me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.

Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!

Deixei De Ser Aquele Que Esperava

Deixei de ser aquele que esperava,
Isto √©, deixei de ser quem nunca fui…
Entre onda e onda a onda n√£o se cava,

E tudo, em ser conjunto, dura e flui.
A seta treme, pois que, na ampla aljava,
O presente ao futuro cria e inclui.
Se os mares erguem sua f√ļria brava
√Č que a futura paz seu rastro obstrui.

Tudo depende do que n√£o existe.
Por isso meu ser mudo se converte
Na própria semelhança, austero e triste.

Nada me explica. Nada me pertence.
E sobre tudo a lua alheia verte
A luz que tudo dissipa e nada vence.

Não me Fales de Glória: é Outro o Altar

Não me fales de glória: é outro o altar
Onde queimo piedoso o meu incenso,
E animado de fogo mais intenso,
De fé mais viva, vou sacrificar.

A gl√≥ria! pois que ha n’ela que adorar?
Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso…
Que vislumbre nos d√° do amor immenso?
Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno,
Farol sobre ondas tormentosas firme,
De immoto brilho, poderoso e terno…

Só esse hei-de buscar, e confundir-me
Na essencia do amor puro, sempiterno…
Quero s√≥ n’esse fogo consumir-me!

O Mar

O mar é triste como um cemitério,
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela im√°cula brancura
De ondas chorando num albor etéreo.

Ah! dessas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a c√Ęndida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solid√£o das fragas,
Onde a quebrar-se t√£o fugaz se esfuma.

Reflete a luz do sol que j√° n√£o arde,
Treme na treva a p√ļrpura da tarde,
Chora a saudade envolta nesta espuma!

Sem Esperança

√ď c√Ęndidos fantasmas da Esperan√ßa,
Meigos espectros do meu v√£o Destino,
Volvei a mim nas leves ondas do Hino
Sacramental de Bem-aventurança.

Nas veredas da vida a alma n√£o cansa
De vos buscar pelo Vergel divino
Do céu sempre estrelado e diamantino
Onde toda a alma no Perd√£o descansa.

Na vol√ļpia da dor que me transporta,
Que este meu ser transfunde nos Espaços,
Sinto-te longe, ó Esperança morta.

E em v√£o alongo os vacilantes passos
À procura febril da tua porta,
Da ventura celeste dos teus braços.

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
√Č como um c√°lix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

Como um beijo de m√°goa e de ansiedade,
Como um terno crep√ļsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

Como um sud√°rio de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

Tudo quanto Sonhei se Foi Perdido

O que sonhei e antes de vivido
Era perfeito e l√ļcido e divino,
Tudo quanto sonhei se foi perdido
Nas ondas caprichosas do destino.

Que os fados em mim mesmo depuseram
Raz√Ķes de ser e de n√£o ser, contr√°rias,
Nas emo√ß√Ķes que, dentro em mim, cresceram
Tumultuosas, carinhosas, v√°rias.

Naqueles seres que fui dentro de um ser,
Que viveram de mais para eu viver
A minha vida luminosa e calma,

Se desdobraram gestos de menino
E rudes arremedos de assassino.
Foram almas de mais numa só alma.

Espera…

Não me digas adeus, ó sombra amiga,
Abranda mais o ritmo dos teus passos;
Sente o perfume da paix√£o antiga,
Dos nossos bons e c√Ęndidos abra√ßos!

Sou a dona dos místicos cansaços,
A fant√°stica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus bra√ßos…
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!

Teu amor fez de mim um lago triste:
Quantas ondas a rir que n√£o lhe ouviste,
Quanta canção de ondinas lá no fundo!

Espera… espera… √≥ minha sombra amada…
Vê que pra além de mim já não há nada
E nunca mais me encontras neste mundo!…

Prece A Anchieta

Santo: erguesses a cruz na selva escura;
Herói: plantasses nossa velha aldeia;
Mestre: ensinasses a doutrina pura;
Poeta: escrevesses versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multid√£o alheia;
Morre a voz santa entre a dist√Ęncia e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia…

Santo, her√≥i, mestre e poeta: ‚ÄĒ Pela gl√≥ria
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisesses a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Exilada

Bela viajante dos países frios
N√£o te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

√Čs branca e √©s loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sens√≠veis cora√ß√Ķes doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucina√ß√Ķes de um vinho triste…

A Nau

A Heitor Lima

S√īfrega, al√ßando o hirto espor√£o guerreiro,
Zarpa. A √≠ngreme cordoalha √ļmida fica. …
Lambe-lhe a quilha a esp√ļmea onda impudica
E √©brios trit√Ķes, babando, haurem-lhe o cheiro

Na glauca artéria equórea ou no estaleiro
Ergue a alta mastreação, que o éter indica,
E estende os braços de madeira rica
Para as popula√ß√Ķes do mundo inteiro!

Aguarda-a ampla reentr√Ęncia de angra horrenda
P√°ra e, a amarra agarrada √† √Ęncora, sonha!
M√°goas, se as tem, subjugue-as ou disfarce-as…

E n√£o haver uma alma que lhe entenda
A ang√ļstia transoce√Ęnica medonha
No rangido de todas as enx√°rcias!

Flor Do Mar

√Čs da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que p√Ķe rede de sonhos ao navio,
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de p√ļrpuras e rosas
Surges das √°guas mucilaginosas
Como a lua entre a n√©voa dos espa√ßos…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas,
Acres aromas de algas e sarga√ßos…

Soneto Da Ilha

Eu deitava na praia, a cabeça na areia
Abria as pernas aos alísios e ao luar
Tonto de maresia; e a mão da maré cheia
Vinha coçar meus pés com seus dedos de mar.

Longos √™xtases tinha; amava a Deus em √Ęnsia
E a uma nudez qualquer √°vida de abandono
Enquanto ao longe a clarineta da dist√Ęncia
Era tambêm um mar que me molhava o sono.

E adormecia assim, sonhando, vendo e ouvindo
Pulos de peixes, gritos frouxos, vozes rindo
E a lua virginal arder no plexo

Estelar, e o marulho das ondas sucessivas
Da monção, até que alguma entre as mais vivas
Mansa, viesse desaguar pelo meu sexo.

Campesinas VI

As uvas pretas em- cachos
D√£o agora nas latadas…
Que lindo tom de alvoradas
Na vinha, junto aos riachos.

Este ano arados e sachos
Deixaram terras lavradas,
À espera das inflamadas
Ondas do sol, como fachos.

Veio o sol e fecundou-as,
Deu-lhes vigor, enseivou-as,
Tornou-as férteis de amor.

Eis que as vinhas rebentaram
E as uvas amaduraram,
Sanguíneas, com sol na cor.

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na inc√≥gnita floresta…
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiqu√≠ssimo inimigo…

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso pa√ļl, glauco pascigo…

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…

Interrogo o infinito e √†s vezes choro…
Mas estendendo as m√£os no v√°cuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.