Sonetos sobre Ternos

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Sonetos de ternos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Espera

Ela tarda… E eu me sinto inquieto, quando
julgo vê-la surgir, num vulto, adiante,
Рos lábios frios, trêmula e ofegante,
os seus olhos nos meus, linda, fitando…

O c√©u desfaz-se em luar… Um vento brando
nas folhagens cicia, acariciante,
enquanto com o olhar terno de amante
fico √† sombra da noite perscrutando…

E ela n√£o vem…Aumenta-me a ansiedade:
– o segundo que passa e me tortura,
√© o segundo sem fim da eternidade…

Mas eis que ela aparece de repente!…
– E eu feliz, chego a crer que igual ventura
bem valia esperar-se eternamente!…

√ď Trevas, que Enlutais a Natureza

√ď trevas, que enlutais a Natureza,
Longos ciprestes desta selva anosa,
Mochos de voz sinistra e lamentosa,
Que dissolveis dos fados a incerteza;

Manes, surgidos da morada acesa
Onde de horror sem fim Plut√£o se goza,
N√£o aterreis esta alma dolorosa,
Que é mais triste que voz minha tristeza.

Perdi o galardão da fé mais pura,
Esperanças frustrei do amor mais terno,
A posse de celeste formosura.

Volvei, pois, sombras v√£s, ao fogo eterno;
E, lamentando a minha desventura,
Movereis à piedade o mesmo Inferno.

LXXXII

Piedosos troncos, que a meu terno pranto
Comovidos estais, uma inimiga
E quem fere o meu peito, é quem me obriga
A tanto suspirar, a gemer tanto.

Amei a Lise; é Lise o doce encanto,
A bela ocasi√£o desta fadiga;
Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga
Em um tormento, em um fatal quebranto?

Deixou-me a ingrata Lise: se alguma hora
Vós a vêdes talvez, dizei, que eu cego
Vos contei… mas calai, calai embora.

Se tanto a minha dor a elevar chego,
Em fé de um peito, que tão fino adora,
Ao meu silêncio o meu martírio entrego.

Marília De Dirceu

Soneto 6

Quantas vezes Lidora me dizia,
Ao terno peito minha m√£o levando:
– Conjurem-se em meu mal os astros, quando
Achares no meu peito aleivosia!

Ent√£o que n√£o chorasse lhe pedia,
Por firme seu amor acreditando.
Ah! que em movendo os olhos, suspirando,
Ao mais acautelado enganaria!

Um ano assim viveu. Oh! céus, agora
Mostrou que era mulher: a natureza,
Só por não se mudar, a fez traidora.

Não, não darei mais cultos à beleza,
Que depois de faltar à fé Lidora,
Nem creio que nas deusas h√° firmeza.

V

Se sou pobre pastor, se n√£o governo
Reinos, na√ß√Ķes, prov√≠ncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o ver√£o, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paix√Ķes desse tormento eterno.

Adorar as trai√ß√Ķes, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído.

XLI

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno…
Envoltos nos clar√Ķes fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
√Č um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.

Cantam esta mans√£o, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De √ļmido p√≥ que h√° de abafar-lhe os cantos…

Cada um de n√≥s √© a b√ļssola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte…

Dualidade

Sei que √© Amor, meu amor…porque o desejo
o meu próprio desejo tão violento,
dir-se-ia ter pudor, ter sentimento,
quando est√°s junto a mim, quando te vejo.

√Č um clarim a vibrar como um harpejo,
misto de impulso e de deslumbramento.
Sei que √© Amor, meu amor…porque o desejo
é desejo e ternura a um só momento.

Beijo-te a boca, as m√£os, e hei de beijar-te
nessa dupla emoção, (violento e terno)
em que a minha alma inteira se reparte,

– e a perceber em meu estranho ardor,
que há uma luta entre o efêmero e o eterno,
entre um dem√īnio e um anjo em todo Amor!

Espinosa

Gosto de ver-te, grave e solit√°rio,
Sob o fumo de esqu√°lida candeia,
Nas m√£os a ferramenta de oper√°rio,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o p√£o di√°rio
A tua m√£o a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem c√° fora agita√ß√Ķes e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

S√≥brio, tranq√ľilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.

Vingança

“Vingan√ßa…”
II
Quero sentir-te nos meus braços presa
e dizer bem baixinho ao teu ouvido,
um segredo de amor terno e sentido
que guardo no meu peito com avareza…

Quero ter afinal plena certeza
deste amor que na vida me tem sido:
o meu sonho mais lindo e mais querido,
a luz de uma esperan√ßa, sempre acesa…

Nesta rosa que tens, viva e vermelha
esmigalhada em tua boca – a abelha
do meu beijo algum dia hei de pousar…

Quero unir minha vida à tua vida,
sentir que és minha só, ter-te possuída,
para ent√£o, s√≥ depois, te abandonar!…

Não me Fales de Glória: é Outro o Altar

Não me fales de glória: é outro o altar
Onde queimo piedoso o meu incenso,
E animado de fogo mais intenso,
De fé mais viva, vou sacrificar.

A gl√≥ria! pois que ha n’ela que adorar?
Fumo, que sobre o abysmo anda suspenso…
Que vislumbre nos d√° do amor immenso?
Esse amor que ventura faz gosar?

Ha outro mais perfeito, unico eterno,
Farol sobre ondas tormentosas firme,
De immoto brilho, poderoso e terno…

Só esse hei-de buscar, e confundir-me
Na essencia do amor puro, sempiterno…
Quero s√≥ n’esse fogo consumir-me!

Cristo E A Ad√ļltera

(Grupo de Bernardelli)

Sente-se a extrema comoção do artista
No grupo ideal de pl√°cida candura,
Nesse esplendor t√£o fino da escultura
Para onde a luz de todo o olhar enrista.

Que campo, ali, de r√ļtila conquista
Deve rasgar, do m√°rmore na alvura,
O estatu√°rio — que amplid√£o segura
Tem — de alma e bra√ßo, de raz√£o e vista!

Vê-se a mulher que implora, ajoelhada,
A mais serena compaix√£o sagrada
De um Cristo feito a largos tons gloriosos.

De um Nazareno compassivo e terno,
D’olhos que lembram, cheios de falerno,
Dois inef√°veis cora√ß√Ķes piedosos!

Doce Abismo

Coração, coração! a suavidade,
Toda a doçura do teu nome santo
√Č como um c√°lix de falerno e pranto,
De sangue, de luar e de saudade.

Como um beijo de m√°goa e de ansiedade,
Como um terno crep√ļsculo d’encanto,
Como uma sombra de celeste manto,
Um soluço subindo a Eternidade.

Como um sud√°rio de Jesus magoado,
Lividamente morto, desolado,
Nas auréolas das flores da amargura.

Coração, coração! onda chorosa,
Sinfonia gemente, dolorosa,
Acerba e melancólica doçura.

VII

Versos feitos por mim na mocidade
O mérito só tem sentimento.
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.

Pospondo a fantasia sempre à verdade
Melhor encontrei nesta o ornamento
E, no estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber disse-me a idade.

√Č isso o que vos quero eu ensinar,
Amando-vos qual pode um terno av√ī,
A quem para as suas c√£s engrinaldar

Melhor só poderia o que eu vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós inda mais sou.

A Grande Dor Das Cousas Que Passaram

A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
tive a fortuna e graça de te ver.

Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
outra vez reflorindo, esvoaçaram
em orvalhada luz de amanhecer.

√ď bendito passado que era atroz,
e gozoso hoje terno se apresenta
e faz vibrar de novo minha voz

para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
e em doçura converte o próprio horror!

LXIX

Se à memória trouxeres algum dia,
Belíssima tirana, ídolo amado,
Os ternos ais, o pranto magoado,
Com que por ti de amor Alfeu gemia;

Confunda-te a soberba tirania,
O ódio injusto, o violento desagrado,
Com que atr√°s de teu olhos arrastado
Teu ingrato rigor o conduzia.

E já que enfim tão mísero o fizeste,
Vê-lo-ás, cruel, em prêmio de adorar-te,
Vê-lo-ás, cruel, morrer; que assim quiseste.

Dir√°s, lisonjeando a dor em parte:
Fui-te ingrata, pastor; por mim morreste;
Triste remédio a quem não pode amar-te!

Meus Olhos, Atentai no Meu Jazigo

Meus olhos, atentai no meu jazigo,
Que o momento da morte est√° chegado;
Lá soa o corvo, intérprete do fado;
Bem o entendo, bem sei, fala comigo:

Triunfa, Amor, gloria-te, inimigo;
E tu, que vês com dor meu duro estado,
Volve à terra o cadáver macerado,
O despojo mortal do triste amigo:

Na campa, que o cobrir, piedoso Albano,
Ministra aos cora√ß√Ķes, que Amor flagela,
Terror, piedade, aviso, e desengano:

Abre em meu nome este epit√°fio nela:
“Eu fui, ternos mortais, o terno Elmano;
Morri de ingratid√Ķes, matou-me Isabela.‚ÄĚ

Tudo Esqueço

Tudo posso esquecer em minha vida
inquieta e livre como uma enxurrada:
– a ilus√£o, num segundo, mais querida…
– a mulher, num segundo, mais amada…

a vis√£o de algum trecho azul da estrada
entre ternos carinhos percorrida;
Рuma história que um dia interrompida
nunca mais afinal foi terminada!

Os desejos… os sonhos… os amores…
que julgo eternos, e que por enquanto
despetalam-se e morrem como flores…

Esqueço tudo! O que passou, morreu!
Só não consigo me esquecer no entanto
da primeira mulher que me esqueceu…

Eu Cantarei um Dia da Tristeza

Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos t√£o ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes n√£o pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros t√£o queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo h√£o-de chorar de amor enredos.

Mas ah! que adoro uma alma que n√£o sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.

Noivado

Os namorados ternos suspiravam,
Quando h√° de ser o venturoso dia?!
Quando h√° de ser!? O noivo ent√£o dizia
E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam.

E a mesma frase o noivo repetia;
Fora no campo p√°ssaros trinavam,
Quando h√° de ser!? E os p√°ssaros falavam;
H√° de chegar, a brisa respondia.

Vinha rompendo a aurora majestosa,
Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo
E a luz do sol vibrava esplendorosa.

Chegara enfim o dia desejado,
Ambos unidos soluçara um beijo,
Era o supremo beijo de noivado!

O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora s√£o mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, √© mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilus√Ķes defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos v√£os?…
O mundo, Amor! … As nossas bocas juntas!…