Cita√ß√Ķes sobre Voos

87 resultados
Frases sobre voos, poemas sobre voos e outras cita√ß√Ķes sobre voos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Seleccionei para Ti

Seleccionei para ti
esta manh√£ de setembro
à margem dela
trabalho
para que
em canto e glória
sejas o centro unit√°rio
no corpo dessa elegia
relacionei coisas mi√ļdas
que possam complementar
o equilíbrio das formas
que te transitam eleita
na exaltação de meu sonho
e dentro desse equilíbrio
um n√ļcleo de resist√™ncia
feito uma flor
uma fonte
que se iluminam feridas
de uma incidência de luz
o pouso breve de um p√°ssaro
que em vigil√Ęncia
nos olhos
preserva o voo completo
a m√ļsica radical
do teu contexto moreno
a fala que n√£o se escuta
na fundação dos abraços
evocação do momento
que defrontou
por acaso
a minha
e a tua vida
erguido o painel de espaço
és madrugada no dia
e retomada no tempo
és unidade centrada
compondo a mesma harmonia
assim usei tua ausência
num pressuposto de esquema
buscando tua presença
sobre alicerces de um poema

O voo at√© a Lua n√£o √© t√£o longe. As dist√Ęncias maiores que devemos percorrer est√£o dentro de n√≥s mesmos.

Num voo de pombas brancas, um corvo negro junta-lhe um acréscimo de beleza que a candura de um cisne não traria.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Aurora

A poesia não é voz Рé uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalp√°vel d√° figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que n√£o h√°
nos gestos nem nas coisas:

voo sem p√°ssaro dentro.

Aquele que quer aprender a voar um dia precisa primeiro aprender a ficar de pé, caminhar, correr, escalar e dançar; ninguém consegue voar só aprendendo voo.

Mudançar

Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada

Reler
por vacilação das sílabas
em escurid√£o afundada

Rever
por olho areado com √°guas
a imagem contaminada

Reter
no m√ļsculo oxigenado vaso
areal terra aterrada

Resistir
ao c√Ęntico suado no temor
a evolução revoltada

Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada

Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada

Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada

Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.

Em verdade, da felicidade que al√ßa voo √† custa da mis√©ria eu n√£o quero. Uma riqueza que priva algu√©m de alguma coisa, eu n√£o quero… Se minha roupa desnuda outrem, andarei nu.

Noite Vazia

Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspens√£o da m√°goa.
As ferocidades s√£o ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos c√īncavos da aus√™ncia do espa√ßo.
E a morte espreitando a lentid√£o
irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!

Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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Fazer os Sonhos Levantarem Voo

Alguns sonhos são belos, outros poéticos; uns realizáveis, outros difíceis de serem concretizados; uns envolvem uma pessoa, outros, a sociedade; uns possuem rotas claras, outros, curvas imprevisíveis; uns são rapidamente produzidos, outros precisam de anos de maturação.

H√° muitos tipos de sonhos. Sonho de se apaixonar por algu√©m, de gerar filhos ou conquistar amigos. Sonho de tirar um curso, ter uma empresa, ter sucesso financeiro para si e para ajudar os outros. Sonho de ter sa√ļde f√≠sica e ps√≠quica, de ter paz interior e de viver intensamente cada momento da vida.
Sonho de ser um cientista, um m√©dico, um educador, um empres√°rio, um empreendedor, um profissional que fa√ßa a diferen√ßa. Sonho de viajar pelo mundo, de pintar quadros, escrever um livro, ser √ļtil ao pr√≥ximo. Sonho de aprender a tocar um instrumento, praticar desportos, bater recordes.

Muitos enterram os seus sonhos nos escombros dos seus problemas. Alguns soldados nunca mais foram motivados para a vida depois de verem os seus colegas morrerem em combate.
Alguns oradores nunca mais recuperaram a sua seguran√ßa depois de terem um ataque de p√Ęnico em p√ļblico. Alguns desportistas n√£o conseguiram repetir a sua performance depois de fazerem uma cirurgia correctiva ou serem apanhados no controlo antidoping.

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Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Do Primeiro Regresso

Escuta, meu Amor, quando eu voltar
De t√£o longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra nova √ćndia a conquistar;

Quando a minha alma inquieta sossegar
Este voo indom√°vel, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar;

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida…

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansa√ßo…
E então será o meu regresso à Vida!

Do Medo

1

N√£o pode o poema
circunscrever o medo,
dar-lhe o rosto glorioso
de uma f√°bula
ou crer intensamente na sua aura.
Nós permanecemos, quando
escurece à nossa volta o frio
do esquecimento
e dura o vento e uma nuvem leve
a separar-se das brumas
nos começa a noite.

N√£o pode o poema
quase nada. A alguns inspira
uma discreta repugn√Ęncia.
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epit√°fios
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas
sobre a terra.
Quem reconhece a poesia, esse frio
intermitente, essa
persistência através da corrupção?
Quase sempre a ang√ļstia
instaura a luz por dentro das palavras
e lhes rouba os sentidos.
Quase sempre é o medo
que nos conduz à poesia.

2

Voltando ao medo: as asas
prendem mais do que libertam;
os p√°ssaros percorrem necessariamente
os mesmos caminhos no espaço,
sem possibilidades de variação
que n√£o estejam certas com esse mesmo voo
que sempre descrevem.
Voltando ao medo: o poema

desenha uma elipse em redor da tua voz
e cerca-se de ang√ļstia
e ervas bravias ‚ÄĒ nada mais
pode fazer.

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Um Segredo

Meu pai tinha sand√°lias de vento
só agora o sei.
Tinha sand√°lias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a express√£o em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.

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Aleluia

Se cantas, nasce o dia;
A luz segreda à flor: Ave, Maria!

Tudo é silêncio, espanto,
Quando vaga no Azul o teu encanto…

Passas e deixas no ar
O perfume das rosas de toucar!

Creio em ti, como em Deus;
Viver à tua luz é estar nos Céus!

Verdes enleios de hera
Cingem de amor teu vulto, ó Primavera!

Nos perdidos caminhos,
Voam gorjeios, m√ļsicas dos ninhos…

A Terra em névoas de ouro
Ascende a Deus em teu olhar de choro!

Senhora da Harmonia,
Em ti a minha vida principia!

Se voas pela Altura,
Gravas no Azul a tua formosura!

Teu voo é um longo adeus:
O caminho das almas para os C√©us…

Longe, saudosa, adejas,
E pairas sobre mim… bendita sejas!

Felicidade e Alegria

N√£o creio que se possa definir o homem como um animal cuja caracter√≠stica ou cujo √ļltimo fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que √© pr√≥prio do homem na sua forma mais alta √© superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou n√£o ser feliz e ver at√© o que pode vir do obst√°culo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combina√ß√Ķes seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si pr√≥prio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se n√£o quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e √© mais dif√≠cil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obedi√™ncia ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida.
Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade,

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Retórica da Paisagem

O que se pede da poesia? Que nos entretenha os olhos
com as rendas sulfurosas de um doentio crep√ļsculo?
Com efeito, no poema, as palavras n√£o nos servem
de cestos em que se recolham – dilatados, quase
a cair das √°rvores – os frutos. E contudo, continuamos
a confundir os caminhos do poema com os do mundo
quando eles, na natureza, apenas nos apontam
a incerteza do destino. As palavras repetem-se –
frutos atirados sobre a mesa – e a morte,
para quem não acredita no poder de transfiguração
das met√°foras, esgota da vida todo o sentido.
Diz-se: os ramos n√£o crescem no quadro,
os p√°ssaros deixam de assolar a paisagem –
e o pensamento, ao reflectir-se, deixa a tela
pejada dos restos em que se perdeu pelo
horizonte. Mas todo o conhecimento
acaba no ponto em que o voo se
confunde com a linha acidentada da planície.