Passagens sobre Alvorada

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Frases sobre alvorada, poemas sobre alvorada e outras passagens sobre alvorada para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Livro da Vida

Absorto, o S√°bio antigo, estranho a tudo, lia…
‚ÄĒ Lia o ¬ęLivro da Vida¬Ľ ‚ÄĒ heran√ßa inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clar√£o da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, ‚ÄĒ inclinada a dorida cabe√ßa,‚ÄĒ
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada p√°gina abrange um est√°dio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos v√£o correndo;
Passam as gera√ß√Ķes; tudo √© p√≥, tudo √© v√£o…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer,

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Alvorada Eterna

Quando formos os dois j√° bem velhinhos,
j√° bem cansados, tr√īpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos…

Quando formos os dois j√° bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos…

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
l√° onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o ch√£o, de folhas junca…

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e h√°s de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

Barganha

Domingo é dia de barganha.
Troco um relógio dos antigos
por um cavalo rosilho,
um bode por um trinca-ferro,
e uma roda de cabriolé
por um radinho de pilha.
Troco um gib√£o de cigano
pela serra que serrou
o tronco mais odorante
e por um fog√£o de lenha
troco um cachorro de caça
e uma panela de cobre.
Troco toda a luz do sol
pela sombra de um só pássaro.
Por uma espingarda troco
um tacho que foi de escravos
além de um almofariz
e uma xícara sem asa.
Troco a salmoura dos peixes
por qualquer gosto de l√°grima.
Pela vitrola rachada
dou a minha bicicleta
com os pneus arriados.
Troco o entulho que restou
do muro que derrubei
pelo calor da fogueira
que por uma noite apenas
negou o frio dos pobres.
Troco um lençol de noivado
e uma toalha bordada
pela sua reflectida
na escurid√£o das cisternas.
Troco o meu selim de couro
por um arreio de prata.
Dou um caminh√£o de pedra
por um port√£o de peroba.

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Soneto 270 A Dercy Gonçalves

Recusa-se a morrer. N√£o morrer√°.
Talvez caricatura, a sua vida,
vestal, velha vedete travestida,
inverte o que o pariu pra puta v√°.

Vai ser a cibernética babá
de toda meninice reprimida.
Ninguém faz saturnal se não convida
a nossa sideral gueixa gag√°.

Mostrou a perereca da vizinha
apenas pra alegrar a garotada.
Com ela é pau no cu da carochinha.

P√īs cada palavr√£o numa piada.
Passou. N√£o passar√°. Brilha sozinha.
Estrela d’Alva, salva da alvorada.

Manh√£

Alta alvorada. — Os √ļltimos nevoeiros
A luz que nasce levemente espalha;
Move-se o bosque, a selva que farfalha
Cheia da vida dos clar√Ķes primeiros.

Da passarada os v√īos condoreiros,
Os cantos e o ar que as √°rvores ramalha
Lembram combate, estrídula batalha
De elementos contr√°rios e altaneiros.

Vozes, trinados, vibra√ß√Ķes, rumores
Crescem, v√£o se fundindo aos esplendores
Da luz que jorra de invisível taça.

E como um rei num gale√£o do Oriente
O sol p√Ķe-se a tocar bizarramente
Fanfarras marciais, trompas de caça.

Natal… Natais…

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
N√£o deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um an√ļncio de alvorada;
E ein cada √°rvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no v√°cuo
De silêncio da noite
Estriada de s√ļbitos clar√Ķes,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Hino à Morte

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu √Ęnimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas m√£os erguendo a inexor√°vel Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus
[passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
‚ÄĒ Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus
[braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu √Ęnimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes,

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Campesinas VI

As uvas pretas em- cachos
D√£o agora nas latadas…
Que lindo tom de alvoradas
Na vinha, junto aos riachos.

Este ano arados e sachos
Deixaram terras lavradas,
À espera das inflamadas
Ondas do sol, como fachos.

Veio o sol e fecundou-as,
Deu-lhes vigor, enseivou-as,
Tornou-as férteis de amor.

Eis que as vinhas rebentaram
E as uvas amaduraram,
Sanguíneas, com sol na cor.

Até mesmo um arbusto ou capim encerra em si a força misteriosa do Universo. Então, que dizer do ser humano? Não penses que os sofrimentos e as tristezas do ser humano não têm sentido. Eles são as trevas que antecedem a alvorada da alma, na qual a mente do homem desperta para a força misteriosa do Universo. Suportando os sofrimentos e as tristezas durante algum tempo, surgirá na alma a aurora da verdadeira alegria.

Realidade

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura p√°lida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
P√īs a teus p√©s a sombra dum caminho.

Minhas p√°lpebras s√£o cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci…

Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
N√£o sei se te encontrei, se te perdi…

Um Soneto

A vez primeira que eu te vi, em meio
Das harmonias de uma valsa, elado
O lábio trêmulo, esplêndido, rosado,
Num riso, um riso de alvoradas cheio.

Cheio de febres, em febril anseio
O meu olhar fervente, desvairado
Como um condor de flamas emplumado
Vingou-se a esp√°dua e devorou-te o seio.

Depois, delírio atroz, loucura imensa!
A alma, o bem, a consciência, a crença
Lancei no inc√™ndio dos olhares teus…

Hoje estou pronto à lívida jornada
Da descren√ßa sem luz, da dor do nada…
Já disse ontem à noite, adeus, a Deus!

A Amiga Deixada

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.

Musgo da piscina,
de uma √°gua t√£o fina,
sobre a qual se inclina
a lua exilada.

Antiga
cantiga
da amiga
chamada.

Chegara t√£o perto!
Mas tinha, decerto,
seu rosto encoberto…
Cantava ‚ÄĒ mais nada.

Antiga
cantiga
da amiga
chegada.

Pérola caída
na praia da vida:
primeiro, perdida
e depois ‚ÄĒ quebrada.

Antiga
cantiga
da amiga
calada.

Partiu como vinha,
leve, alta, sozinha,
‚ÄĒ giro de andorinha
na m√£o da alvorada.

Antiga
cantiga
da amiga
deixada.

Campesinas III

As papoulas da sa√ļde
Trouxeram-te um ar mais novo,
√ď bela filha do povo,
Rosa aberta de virtude.

Do campo viçoso e rude
Regressas, como um renovo,
E eu ao ver-te, os olhos movo
De um modo que nunca pude.

Bravo ao campo e bravo a seara
Que deram-te a pele clara
S√£o rubores de alvorada.

Que esses teus beijos agora
Tenham sabores de amora
E de rom√£ estalada.

Fonógrafo

Vai declamando um c√īmico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h√° um odor no ambiente.
A cripta e a p√≥, – do anacr√īnico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L√≠rios, l√≠rios, √°guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext√°tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V√≠vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh√£. Que efl√ļvio de violetas!

Natal

1

A voz clamava no Deserto.

E outra Voz mais suave,
Lírio a abrir, esvoaçar incerto,
Tímido e alvente, de ave
Que larga o ninho, melodia
Nascente, docemente,
Uma outra Voz se erguia…

A voz clamava no Deserto…

Anunciando
A outra Voz que vinha:
Balbuciar de fonte pequenina,
Dando
√Ä luz da Terra o seu primeiro beijo…
Inef√°vel an√ļncio, dealbando
Entre as estrelas moribundas.

2

Das entranhas profundas
Do Mundo, eco do Verbo, a profecia,
– √Ä dist√Ęncia de S√©culos, – dizia,
Pressentia
Fragor de sismos, o dum mundo ruindo,
Redimindo
Os c√°rceres do mundo…

A voz dura e ardente
Clamava no Deserto…

Natal de Primavera,
A nova Luz nascera.
Voz do céu, Luz radiante,
Mais humana e mais doce
E irm√£ dos Poetas
Que a voz trovejante
Dos profetas
Solit√°rios.

3

A divina alvorada
Trazia
Lírios no regaço
E rosas.
Natal. Primeiro passo
Da secular Jornada,
Era um canto de Amor
A anunciar Calv√°rios,

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Ilus√£o

Vens todas as madrugadas
prender-te nos meus sonhos,
‚ÄĒest√°tua de Biz√Ęncio
esculpida em neve!
e poisas a tua m√Ęo
mavia e leve
nas minhas p√°lpebras magoadas…

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol!…
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol!

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em r√ļbidos clar√Ķes,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensa√ß√Ķes!…

√Čs linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse!…

Quero prender-me à mentira loira
do teu gr√°cil recorte…
E os teus beijos perfumados,
nen√ļfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispa√ß√Ķes,
tombam sobre eu meus nervos
partidos… estilha√ßados!

……………………….

Acordo. E os teus braços,
muito ao longe,
desfiam ainda
a cabeleira fulva
do sol
por sobre os oiros adormecidos
da minha alcova…

Vis√£o bendita!

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Afrodite I

Móvel, festivo, trépido, arrolando,
À clara voz, talvez da turba iriada
De sereias de cauda prateada,
Que v√£o com o vento os carmes concertando,

O mar, – turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das √°guas, murmurando,
Como um bosque pag√£o de deuses, quando
Rompeu no Oriente o p√°lio da alvorada.

As estrelas clarearam repentinas,
E logo as vagas s√£o no verde plano
Tocadas de ouro e irradia√ß√Ķes divinas;

O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, à flor de oceano,
Coroada de um círculo de espumas.

E se um dia hei de ser p√≥, cinza e nada, que seja minha noite uma alvorada, que eu saiba me perder para me encontrar…

Recordam-se Voc√™s do Bom Tempo d’Outrora

(Dedicat√≥ria de introdu√ß√£o a ¬ęA Musa em F√©rias¬Ľ)

Recordam-se voc√™s do bom tempo d’outrora,
Dum tempo que passou e que n√£o volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
C’roava-nos a fronte um diadema d’aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na bals√Ęmina em flor.
Que doiradas can√ß√Ķes nossas bocas vermelhas
N√£o lan√ßaram ent√£o perdidas pelo ar!…
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Can√ß√Ķes feitas sem versos,
E que nós nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp’ran√ßas
S√£o √°ureos colibris das regi√Ķes da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai j√° sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega à nossa alma,então
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida √© um Sol que chega ao c√ļmulo
Quando cantam em n√≥s essas can√ß√Ķes celestes;

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Quando o homem passar a reconhecer apenas a Imagem Verdadeira e não crer em nenhum deus exterior, surgirá a verdadeira alvorada da alma. Até então, repetirá fracassos, recorrendo a espíritos, homens e imagens.