Passagens sobre Defuntos

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Frases sobre defuntos, poemas sobre defuntos e outras passagens sobre defuntos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Cantata de Dido

J√° no roxo oriente branqueando,
As prenhes velas da troiana frota
Entre as vagas azuis do mar dourado
Sobre as asas dos ventos se escondiam.
A misérrima Dido,
Pelos paços reais vaga ululando,
C’os turvos olhos inda em v√£o procura
O fugitivo Eneias.
Só ermas ruas, só desertas praças
A recente Cartago lhe apresenta;
Com medonho fragor, na praia nua
Fremem de noite as solit√°rias ondas;
E nas douradas grimpas
Das c√ļpulas soberbas
Piam nocturnas, agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro
Atónita imagina
Que mil vezes ouviu as frias cinzas
De defunto Siqueu, com débeis vozes,
Suspirando, chamar: ‚Äď Elisa! Elisa!
D’Orco aos tremendos numens
Sacrifícios prepara;
Mas viu esmorecida
Em torno dos turícremos altares,
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética, delira,
P√°lido o rosto lindo
A madeixa subtil desentrançada;
Já com trémulo pé entra sem tino
No ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouviu, enternecida,
Magoados suspiros, brandas queixas.
Ali as cruéis Parcas lhe mostraram
As ilíacas roupas que,

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A Vida

√ď grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
√ď olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
√ď olhos negros como noites, como po√ßos!
√ď fontes de luar, n’um corpo todo ossos!
√ď puros como o c√©u! √≥ tristes como levas
De degredados!

√ď Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
√ď velas do perd√£o! candeias da desgra√ßa!
√ď grandes olhos outomnaes, cheios de Gra√ßa!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
√ď carv√Ķes que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
√ď pharolim da barra a guiar os navegantes!
√ď pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que v√£o na diligencia pela serra!
√ď Extrema-Unc√ß√£o final dos que se v√£o da Terra!
√ď janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d’Agosto!
Luas d’Estio! Luas negras de velludo!
√ď luas negras,

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Evolução

Arde o corpo do sol, brotam feixes de luz:
O que é a luz?
Sol que morreu.

Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga:
Vai nesse pó, que há-de ser terra,
A luz extinta.

Gerou a terra a seara verde:
Hastes e folhas da seara verde
Comeram terra.

A seara é grada, o trigo é loiro:
Deu trigo loiro,
Morrendo ela.

O trigo é pão, é carne e é sangue:
Sangue vermelho, carne vermelha,
Trigo defunto.

Em carne e em sangue, eis o desejo:
Vive o desejo,
De carne morta.

Arde o desejo, eis o pecado:
Que s√£o pecados?
Desejos mortos.

Queima o pecado o pecador:
Nasceu a dor; findou na dor
Pecado e morte.

A alma branca, iluminada,
Transfigurada pela dor,
Essa não vai à sepultura
Porque é já Deus na criatura,
Porque é o Espírito, é o Amor.

Na vida v√£ da terra sepulcral
Só o amor é infinito e só ele é imortal.

Morreu a luz,

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O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora s√£o mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, √© mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilus√Ķes defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos v√£os?…
O mundo, Amor! … As nossas bocas juntas!…

Os Figos Pretos

РVerdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

– √ď verdes figueiras! √≥ verdes figueiras
Deixae-o fallar!
√Ā vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
Que bom que é amar!

– O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

– Quando eu for defunta para os esqueletos,
Ponde uma ao meu lado:
Tristinha, chorando, dar√† figos pretos…
De luto pezado!

– Os alde√Ķes para evitar vosso perfume
Sua respira√ß√£o suspendem, ao passar…
Com vossa lenha n√£o se accende, √° noite, o lume,
Os carpinteiros n√£o vos querem aplainar.

– Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
Que incensa o Senhor!
Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
Para o meu amor…

– As outras arvores n√£o s√£o vossas amigas…
M√£os espalmadas, estendidas, supplicantes,

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Fonógrafo

Vai declamando um c√īmico defunto.
Uma platéia ri, perdidamente,
Do bom jarreta… E h√° um odor no ambiente.
A cripta e a p√≥, – do anacr√īnico assunto.

Muda o registo, eis uma barcarola:
L√≠rios, l√≠rios, √°guas do rio, a lua…
Ante o Seu corpo o sonho meu flutua
Sobre um paul, – ext√°tica corola.

Muda outra vez: gorjeios, estribilhos
Dum clarim de oiro – o cheiro de junquilhos,
V√≠vido e agro! – tocando a alvorada…

Cessou. E, amorosa, a alma das cornetas
Quebrou-se agora orvalhada e velada.
Primavera. Manh√£. Que efl√ļvio de violetas!

Arrumar os Mortos

√Č preciso que compreendam: n√≥s n√£o temos compet√™ncia para arrumarmos os mortos no lugar do eterno.
Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobedientes, invadem-nos o quotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei.
A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos seus inquilinos, perde o fascínio da ausência total.
A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres.

A Um Epilético

Perguntar√°s quem sou?! – ao suor que te unta,
À dor que os queixos te arrebenta, aos trismos
Da epilepsia horrenda, e nos abismos
Ninguém responderá tua pergunta!

Reclamada por negros magnetismos
Sua cabeça há de cair, defunta
Na aterradora operação conjunta
Da tarefa animal dos organismos!

Mas após o antropófago alambique
Em que é mister todo o teu corpo fique
Reduzido a excre√ß√Ķes de s√Ęnie e lodo,

Como a luz que arde, virgem, num monturo,
Tu h√°s de entrar completamente puro
Para a circulação do Grande Todo!

Há uns que morrem antes; outros depois. O que há de mais raro, em tal assunto, é o defunto certo na hora exata.

Enterro de Luxo

L√° vai o enterro de luxo
puxado por sete cavalos
l√° vai a rosa de pl√°stico
na lapela do cad√°ver.

L√° vai o defunto imberbe
boiando em madeira nobre
lá vai a língua bilingue
com seu sotaque podre.

L√° vai o queixo amarrado
lá vai a gravata oblíqua
montada na escorreguenta
garupa da metafísica.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai a conta banc√°ria
l√° vai a calva engomada
l√° vai o ouro da c√°rie.

L√° vai o enterro de luxo
levado por ventos negros
l√° v√£o os pend√Ķes de luto
com seus narizes alegres.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai o perfil de √°rabe
tangido pra correnteza
vol√ļvel da eternidade.

O jornal exerce todas as fun√ß√Ķes do defunto Satan√°s, de quem herdou a ubiquidade; e √© n√£o s√≥ o pai da mentira, mas o pai da disc√≥rdia.

O Deus-Verme

Factor universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabund√Ęncia ou na mis√©ria,
Verme Рé o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua di√°ria ocupa√ß√£o f√ļnerea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a m√£o…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

O Louvor do Jornal

Nas nossas democracias a √Ęnsia da maioria dos mortais √© alcan√ßar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas, os homens praticam todas as ac√ß√Ķes – mesmo as boas.
(…) Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam.
(…) O jornal exerce todas as fun√ß√Ķes do defunto Satan√°s, de quem herdou a ubiquidade; e √© n√£o s√≥ o pai da mentira, mas o pai da disc√≥rdia.

Que importa o mundo e as ilus√Ķes defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos v√£os?…
O mundo, Amor?… As nossas bocas juntas!…

Elegia

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste l√°, mettida n’uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma crian√ßa…
Mas, t√£o longe de ti, n’este Payz de Fran√ßa,
Onde mal viste, ent√£o, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Vir√°s tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bord√£o que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-te√£da cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Mar√£o que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o c√©u √© todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: ¬ęV√° seguindo sempre a minha estrella, no Ar!¬Ľ
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que √©s tu a Virgem disfar√ßada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade,

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Neste Dia Meu Amor

Neste dia meu amor
os meus dedos s√£o o candelabro que te ilumina
o √ļnico existente.

E o homem
sua esfera perdida em m√£os alheias
é o objecto de malabarismo
o insecto
voltejando cega a luz que lhe irradiam
o límpido cristal corrompido
o defunto.

E este patíbulo onde o próprio carrasco se enforcará
eu o digo
será erguido como símbolo de todos os homens.

Aqui a hora vai sendo longínqua meu amor e solene.
O caminho é grande o tempo tão pouco
tenhamos muita esperança e muito ódio
e vítreas flores a ornar o teu cabelo
porque serei o homem para as transportar
e tu a √ļltima mulher que as aceitar√°.

E enquanto assim for
erguer-se-√° a nuvem de m√ļltiplas estrelas
a nebulosa
que dizem estar a milh√Ķes de anos-luz
mas n√£o acreditemos bem o sabes
porque em verdade a temos em nossas próprias mãos
oculta para a contemplarmos agora.

Os Sinos

1

Os sinos tocam a noivado,
No Ar lavado!
Os sinos tocam, no Ar lavado,
A noivado!

Que linda criança que assoma na rua!
Que linda, a andar!
Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
Que vem a andar…

Tambem, algum dia, o povo na rua,
Quando eu cazar,
Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
Que vae cazar…

2

E o sino toca a baptizado
Que lindo fado?
E o sino toca um lindo fado,
A baptizado!

E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o lavar,
E banham o anjinho na agoa de neve,
Para o sujar.

√ď boa madrinha, que o enxugas de leve,
Tem d√≥ d’esses gritos! Comprehende esses ais:
Antes o enxugue a Velha! antes Deus t’o leve!
N√£o soffre mais…

3

Os sinos dobram por anjinho,
Coitadinho!
Os sinos dobram, coitadinho…
Pelo anjinho!

Que aceiada que vae p’ra cova!
Olhae! olhae!
Sapatinhos de sola nova,
Olhae!

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Soneto XXX

Quando às vezes a mi, por mi pergunto,
Quem fui responde que me n√£o conhece
Com n√£o ser, de quem sou me desconhece,
E tem-me por defunto, o j√° defunto.

Ele chora-me a mi, por ele ajunto
Com ele minhas l√°grimas, e crece
Ua com outra dor, pois se oferece
Chorar quem j√° fui, e quem sou, junto.

Choro porque o n√£o vejo qual o via,
Ele porque me vê, qual me vê chora,
De mim, e dele, só lágrimas há.

Espero por um dia, cada dia,
Que ou acabe de ser quem sou agora,
Ou acabe o lembrar-me quem fui j√°.