Passagens sobre Montes

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Ao Mundo Esconde O Sol Seus Resplendores

Ao mundo esconde o Sol seus resplendores,
e a m√£o da Noite embrulha os horizontes;
n√£o cantam aves, n√£o murmuram fontes,
n√£o fala P√£ na boca dos pastores.

Atam as Ninfas, em lugar de flores,
mortais ciprestes sobre as tristes frontes;
erram chorando nos desertos montes,
sem arcos, sem aljavas, os Amores.

Vênus, Palas e as filhas da Memória,
deixando os grandes templos esquecidos,
não se lembram de altares nem de glória.

Andam os elementos confundidos:
ah, J√īnia, J√īnia, dia de vit√≥ria
sempre o mais triste foi para os vencidos!

Pequenina

Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que és no juízo apenas a criança,
Pouco mais, nos vestidos, que a menina…

Que és o regato de água mansa e fina,
A folhinha do til que se balança,
O peito que em correndo logo cansa,
A fronte que ao sofrer logo se inclina…

Mas, filha, l√° nos montes onde andei,
Tanto me enchi de ang√ļstia e de receio
Ouvindo do infinito os fundos ecos,

Que n√£o quero imperar nem j√° ser rei
Sen√£o tendo meus reinos em teu seio
E s√ļbditos, crian√ßa, em teus bonecos!

Símbolos

S√≠mbolos? Estou farto de s√≠mbolos…
Mas dizem-me que tudo é símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais s√≠mbolos? Sonhos. ‚ÄĒ
Que o sol seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a lua seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a terra seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Mas quem repara no sol sen√£o quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para tr√°s das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua sen√£o para achar
Bela a luz que ela espalha, e n√£o bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar tamb√©m √© terra…
Bem, v√°, que tudo isso seja s√≠mbolo…
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?

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Correm Turvas As √Āguas Deste Rio

Correm turvas as √°guas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intrat√°vel se fez o vale, e frio.

Passou o Ver√£o, passou o ardente Estio,
√ľas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados j√° deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem j√° sabida;
o mundo, n√£o; mas anda t√£o confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opini√Ķes, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que n√£o h√° nela mais que o que parece.

Soneto I

Ao Duque

A glória do edifício, o louvor alto
Do que a √ļltima m√£o lhe p√Ķe, se dobra
Em desgraça daquele, e mágoa da obra,
Que no melhor lhe foi escasso e falto.

Este de letras, com que ao Céu me exalto
E que em mim vossa m√£o levanta e obra,
Se sua perfeição por vós não cobra,
A todos causa m√°goa e sobressalto.

Já que os andames da esperança minha
N√£o h√° quem desarm√°-los hoje possa,
Fazei com que este meu trabalho monte.

Vós sereis minha glória, eu glória vossa,
Ficando √† vista as que eu j√° n’alma tinha,
Vossas armas reais em minha fronte.

O L√°zaro Da P√°tria

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de √ļlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes,

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefant√≠asis dos dedos…
H√° um cansa√ßo no Cosmos… Anoitece,

Riem as meretrizes no Casino,
E o L√°zaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

o tempo subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de √°gua, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas √°rvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

Ninguém nasce feito. Uma pessoa nasce com uma série de expectativas, um monte de ideias de outras pessoas Рe tens que trabalhar através de tudo isso.

A Velha Angra

Olhou sobre a velha Angra, aninhada aos p√©s do Monte Brasil, as arauc√°rias erguendo-se contra o c√©u cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e pal√°cios, as suas igrejas. Imaginou marinheiros e mercadores, saltimbancos e aventureiros a caminho das sete partidas do mundo. Charlat√£es bebiam vinho com mission√°rios, soldados negociavam servi√ßos com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao servi√ßo do rei sobre novas e mais rent√°veis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro. Havia escravos e b√™bedos, burocratas e crian√ßas furtivas, freiras e casais de condenados com destino ao Brasil, e toda essa gente circulava pela cidade como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um cora√ß√£o descompassado que era o pr√≥prio movimento do mar, furioso, naufragando naus e gale√Ķes como numa tela de Vernet.

XCIX

Parece, ou eu me engano, que esta fonte
De repente o licor deixou turvado;
O céu, que estava limpo, e azulado,
Se vai escurecendo no horizonte:

Por que n√£o haja horror, que n√£o aponte
O agouro funestíssimo, e pesado,
Até de susto já não pasta o gado;
Nem uma voz se escuta em todo o monte.

Um raio de improviso na celeste
Região rebentou; um branco lírio
Da cor das violetas se reveste;

Será delírio! não, não é delírio.
Que √© isto, pastor meu? que an√ļncio √© este?
Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio.

Se a nossa vida fosse um eterno estar-√†-janela, se assim fic√°ssemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crep√ļsculo dolorindo a curva dos montes.

A Facilidade é Aborrecida em Tudo

O estimarem-se as coisas que n√£o t√™m valor, √© o mesmo que faz√™-las estim√°veis: o que se busca com √Ęnsia, n√£o √© o que se d√°, mas o que se nega; o que se permite aborrece, o que se recusa, atrai: o amor n√£o tem seta mais aguda, que aquela que se armou de proibi√ß√£o; no tomar, parece que h√° mais gentileza, que no aceitar; a dificuldade incita: muitas coisas n√£o t√™m outro merecimento, que o serem dificultosas; a resist√™ncia √© o que move a vontade; tudo o que se concede, √© sem sabor; a impugna√ß√£o faz a coisa consider√°vel, porque lhe d√° um ar de empresa, e de vit√≥ria: os mais altos montes s√£o os que se admiram, s√≥ porque custam a subir; a facilidade √© aborrecida em tudo; o lustre do argumento vem da contradi√ß√£o.

VII

Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez t√£o diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte est√° mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

√Ārvores aqui vi t√£o florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a regi√£o esta n√£o era:
Mas que venho a estranhar, se est√£o presentes
Meus males, com que tudo degenera!

O que Poder√° Ver quem j√° da Vista Cegou?

Ante Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n’√°gua salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amaram
como males lhe causaram
este bem, que nunca fora,
pois foi o que n√£o cuidarom.

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele t√£o mal merecia.
Sendo de pouca idade,
n√£o se ver tanto sentiam
que o dia que n√£o se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

Algumas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e ent√£o se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
pequena e, tinha cuidado
de guardar melhor o gado
o que lhe Crisfal dizia;
mas, em fim, foi mal guardado;

Que, depois de assim viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana,

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Uma Gargalhada de Raparigas

Uma gargalhada de raparigas soa do ar da estrada.
Riu do que disse quem n√£o vejo.
Lembro-me j√° que ouvi.
Mas se me falarem agora de uma gargalhada de rapariga da estrada,
Direi: n√£o, os montes, as terras ao sol, o Sol, a casa aqui,
E eu que só oiço o ruído calado do sangue que há na minha vida dos dois lados da cabeça.

À Variedade do Mundo

Este nasce, outro morre, acol√° soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um le√£o c’o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acol√° voa
C’o gr√£ozinho na boca ao ninho √ľa ave,
Um demba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferoa.

Um nas armas se alista, outro as pendura
An soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada,

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora…
Oh mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!

Enquanto Febo Os Montes Acendia

Enquanto Febo os montes acendia
do Céu com luminosa claridade,
por evitar do ócio a castidade
na caça o tempo Délia despendia.

Vénus, que então de furto descendia,
por cativar de Anquises a vontade,
vendo Diana em tanta honestidade,
quase zombando dela, lhe dizia:

– Tu v√°s com tuas redes na espessura
os fugitivos cervos enredando,
mas as minhas enredam o sentido.

-Melhor é (respondia a deusa pura)
nas redes leves cervos ir tomando
que tomar-te a ti nelas teu marido.

Ao Longo da Escrita deste Livro

No ano passado, em outubro, talvez a 27, sei que foi a uma ter√ßa-feira, a minha m√£e incentivou-me a dar um passeio. H√° muito que desistiu de me dissuadir dos livros, tanto l√™s que tresl√™s, mas mant√©m o h√°bito de, cuidadosa, depois de bater √† porta com pouca for√ßa, entrar no meu quarto e perguntar: n√£o te apetece dar um passeio? Na maioria das vezes, n√£o tenho disposi√ß√£o para lhe responder mas, nessa tarde, estava a meio de um cap√≠tulo altru√≠sta e decidi fazer-lhe a vontade. O volante do carro, as minhas m√£os a sentirem todas as pedras quase como se estivesse a desliz√°-las na estrada. Estacionei no campo, a pouca dist√Ęncia de um grupo de homens e mulheres, botas de borracha, que estavam a apanhar azeitona. Espalhavam uma gritaria animada que n√£o se alterou quando sa√≠ do carro e me aproximei, boa tarde. Uma vantagem do meu nome √© que dispenso alcunha. Olha o Livro, boa tarde. O sol estava a p√īr-se. Troquei gra√ßas, enquanto dois homens recolheram os pan√Ķes carregados debaixo da √ļltima oliveira e os levaram √†s costas.
N√£o esque√ßo o que vi a seguir. As mulheres dobraram os pan√Ķes vazios e dispuseram-nos na terra, em forma de corredor.

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Parto-me desses Olhos Graciosos

Bem pode, Sílvia minha, qualquer serra
tirar a estes meus olhos sua glória,
qualquer monte terá de mim vitória,
qualquer pequeno espaço, enfim, de terra.

Mas contra um pensamento fazem guerra,
que traz em si pintada vossa história,
e quanto mais contrastes, mais memória
conserva um coração que vos encerra.

Parto-me desses olhos graciosos,
mas por eles vos juro, que mudança
se n√£o veja nos meus eternamente,

Que a m√°goa de os ver ficar chorosos
estímulo será para a lembrança
de quem se vê de vós viver ausente.