Passagens sobre Nódoas

17 resultados
Frases sobre n√≥doas, poemas sobre n√≥doas e outras passagens sobre n√≥doas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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De Quem é o Olhar

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
N√£o os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo ?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Por mim próprio mesmo
Em alma mal existo,

Toma um outro sentido
Em mim o Universo ‚ÄĒ
√Č uma n√≥doa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha idéia das coisas.

Se acenderem as velas
E n√£o houver apenas
A vaga luz de fora ‚ÄĒ
N√£o sei que candeeiro
Aceso onde na rua ‚ÄĒ
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora!

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.

Amizade

Ser-se amigo é ser-se pai
( ‚ÄĒ Ou mais do que pai talvez…)
√Č p√īr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

√Č dar sem receber nada,
Consciente da pris√£o,
Onde os nossos passos v√£o
Em linha por n√≥s tra√ßada…

√Č saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e n√£o ter fome.

√Č aceitar a mentira
E ach√°-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.

√Č curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que n√£o tem uma d√≠vida, uma n√≥doa – que todos consideram, e que entretanto em parte alguma √© adimitido…(…) Nos pr√≥prios meios onde me tenho embrenhado, n√£o sei por que senti me sempre um estranho…

Tédio

Ando às vezes boçal e sinto-me incapaz
De encontrar uma rima ou produzir um verso;
Fazendo de mim mesmo a ideia de um perverso
Capaz de apunhalar à luz do gás.

Incomoda-me a Cor, o sangue do Poente
РWaterloo rubro de que o sol é Bonaparte -;
N√£o compreendo, Mulher, como inda posso amar-te
Se tenho raiva, muita raiva a toda a gente.

‚ÄėT√© onde a vista alcan√ßa alargo o meu olhar,
E creio quanto existe uma nódoa escura
Que as l√°grimas do Choro h√£o de jamais lavar…

Estranha concepção! Abranjo o mundo todo
E em cada estrela vejo a mesma lama impura,
E em cada boca rubra o mesmo impuro lodo!

Anoitecer

Esbraseia o Ocidente na Agonia
O sol… Aves, em bandos destacados,
Por c√©us de ouro e de p√ļrpuras raiados,
Fogem… Fecha-se a p√°lpebra do dia…

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia…

Um mundo de vapores no ar flutua…
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, √° propor√ß√£o que a luz recua…

A natureza ap√°tica esmaece…
Pouco a pouco, entre as √°rvores, a lua
Surge tr√™mula, tr√™mula… Anoitece.

Algumas Horas Outras

1

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignor√Ęncia deitar√°
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia
igere as minuciosas palmeiras sobre a
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda
a ilus√£o dos alicates ao lado da √°gua, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?

2

e ainda o sossego das interroga√ß√Ķes n√£o se deixa
facilmente esborratar, ou a qualidade
das tintas, assim no meio do lençol,
o impediu até agora. algumas
s√£o as horas do vasto almofad√£o transl√ļcido
onde as janelas germinaram, e s√£o
as solenes sardinheiras ardidas
na boca do in√≠cio. so√ßobrando a m√ļsica
produzimos os locais inamovíveis, as persianas
corridas sobre o papel meticuloso das suas
amenas enseadas.

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Retrato do Povo de Lisboa

√Č da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e p√Ķe a nu a esp√°dua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

√Č da voz do meu povo uma crian√ßa
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

Interrogação

A Guido Batelli

Neste tormento in√ļtil, neste empenho
De tornar em silêncio o que em mim canta,
Sobem-me roucos brados à garganta
Num clamor de loucura que contenho.

√ď alma de charneca sacrossanta,
Irm√£ da alma r√ļtila que eu tenho,
Dize pra onde vou, donde é que venho
Nesta dor que me exalta e me alevanta!

Vis√Ķes de mundos novos, de infinitos,
Cadências de soluços e de gritos,
Fogueira a esbrasear que me consome!

Dize que mão é esta que me arrasta?
N√≥doa de sangue que palpita e alastra…
Dize de que é que eu tenho sede e fome?!

√öltimo Round

O vento que de verde tudo varre
n√£o varre esta floresta onde eu habito.
Espana roxas nódoas de um espárringue
que sou eu mesmo a rir por esses ringues.

Porradas que me dou? Mero detalhe,
de quem passou a vida sem ter sido
sendo, o sabido s√ļdito do an√°rquico.
Não fui, não sou, não quero ser doído.

O menestrel choroso? Este n√£o vale,
perdeu-se pelos socos de outras divas
em noites desbotadas na paisagem.

Mas ent√£o, o que fica dessa trilha?
ora, amigo, nocautes dessa aragem
varrida nos cruzados descaminhos.

No Amor é a Alma aquilo que Mais nos Toca

As mesmas paix√Ķes s√£o bastante diferentes nos homens. O mesmo objecto pode-lhes agradar por aspectos opostos; suponho que v√°rios homens podem prender-se a uma mesma mulher; uns a amam pelo seu esp√≠rito, outros pela sua virtude, outros pelos seus defeitos, etc. E pode at√© acontecer que todos a amem por coisas que ela n√£o tem, como quando se ama uma mulher leviana a quem se julga s√©ria. Pouco importa, a gente prende-se √† id√©ia que se tem prazer em fazer dela; e √© mesmo apenas essa id√©ia que se ama, n√£o √© a mulher leviana. Assim, n√£o √© o obje¬≠to das paix√Ķes que as degrada ou as enobrece, mas a ma¬≠neira como a gente o encara.
Ora, eu disse que era pos¬≠s√≠vel que se buscasse no amor algo mais puro do que o interesse dos nossos sentidos. Eis o que me faz pensar assim. Vejo todos os dias no mundo que um homem cer¬≠cado de mulheres com as quais nunca falou, como na missa, no serm√£o, nem sempre se decide pela mais boni¬≠ta, ou mesmo pela que lhe pare√ßa tal. Qual a raz√£o disso? √Č que cada beleza exprime um car√°cter bem particular, e preferimos aquele que melhor se encaixa no nosso.

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Alegria

De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilus√Ķes,
de pequenas trai√ß√Ķes
que achei no meu caminho…,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura…
De cada crueldade
que p√īs de luto a minha mocidade…
De cada injusta pena
que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte…
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!
Vol√ļpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,
feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

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O militarismo √© uma esp√©cie de n√≥doa nas grandes realiza√ß√Ķes da civiliza√ß√£o moderna. Hero√≠smo encomendado, viol√™ncia regulamentada, patriotismo arrogante tornam vil e abomin√°vel qualquer guerra de agress√£o. Por minha parte preferia ser fuzilado a tomar parte numa luta desse tipo.