Cita√ß√Ķes sobre Novela

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A Memória

Quanto mais algo é inteligível, mais facilmente se retém, e, ao contrário, quanto menos, mais facilmente o esquecemos. Por exemplo, se eu transmitir a alguém uma porção de palavras soltas, muito mais dificilmente as reterá do que se apresentar as mesmas palavras em forma de narração. Reforçada também sem auxílio do intelecto, a saber, pela força mediante a qual a imaginação ou o sentido a que chamam comum é afectado por alguma coisa singular corpórea. Digo singular, pois a imaginação só é afectada por coisas singulares. Com efeito, se alguém ler, por exemplo, só uma novela de amor, retê-la-á muito bem enquanto não ler muitas outras desse género, porque então vigora sozinha na imaginação; mas, se são mais do género, imaginam-se todas juntas e facilmente são confundidas.
Digo também corpórea, pois a imaginação só é afectada por corpos. Como, portanto, a memória é fortalecida pelo intelecto e também sem ele, conclui-se que é algo diverso do intelecto e que não há nenhuma memória nem esquecimento a respeito do intelecto visto em si.
O que ser√°, pois, a mem√≥ria? Nada mais do que a sensa√ß√£o das impress√Ķes do c√©rebro junto com o pensamento de uma determinada dura√ß√£o da sensa√ß√£o;

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A Nossa Arte

A arte de desenvolver os pequenos motivos para nos decidirmos a realizar as grandes ac√ß√Ķes que nos s√£o necess√°rias. A arte de nunca nos deixarmos desencorajar pelas reac√ß√Ķes dos outros, recordando que o valor de um sentimento √© ju√≠zo nosso, pois seremos n√≥s a senti-lo e n√£o os que assistem. A arte de mentir a n√≥s pr√≥prios, sabendo que estamos a mentir. A arte de encarar as pessoas de frente, incluindo n√≥s pr√≥prios, como se fossem personagens de uma novela nossa. A arte de recordar sempre que, n√£o tendo n√≥s qualquer import√Ęncia e n√£o tendo tamb√©m os outros qualquer esp√©cie de import√Ęncia, n√≥s temos mais import√Ęncia que qualquer outro, simplesmente porque somos n√≥s.
A arte de considerar a mulher como um peda√ßo de p√£o: problema de ast√ļcia. A arte de mergulhar fulminante e profundamente na dor, para vir novamente √† tona gra√ßas a um golpe de rins. A arte de nos substituirmos a qualquer um, e de saber, portanto, que cada pessoa se interessa apenas por si pr√≥pria. A arte de atribuir qualquer dos nossos gestos a outrem, para verificarmos imediatamente se √© sensato.
A arte de viver sem a arte.
A arte de estar só.

Parece-me que o cinema de amanh√£ ser√° ainda mais pessoal do que uma novela autobiogr√°fica. Ser√° uma confiss√£o, ou um di√°rio.

Nasce-se resistente. Outra coisa, que é uma couraça, é o meu sentido de humor. O humor com que vejo a vida e o quanto me divirto a viver. Divirto-me a ir tomar um café ao Chefe, aqui na Lapa, a ver uma porcaria qualquer na televisão, a ler um livro, a rir com os meus amigos, a fazer as cenas mais dramáticas numa novela.

J√° n√£o Escreverei Romances

J√° n√£o escreverei romances
Nem contos da fada e o rei.
V√£o-se-me todas as chances
De grande escritor. Parei.
Mas na chispa do verso,
Com Marga a aquecer-me,
J√° n√£o serei disperso
Nem poderei perder-me.
Tudo nela é verbo e vida;
Xale, cílio, tosse, joelho,
Tudo respinga e acalma.
Passo, óculos, nada é velho:
Quase corpo, menos que alma.
J√° n√£o lavrarei novelas,
Ultrapassado de ficto:
A vida d√°-me janelas
A toda a extens√£o do dicto.
Mas sem elas, mas sem elas
(As suas m√£os) fico aflito.

Bilhete

Nada me dês nem peças.
E não meças
O que podias dar e receber.
Fecha a própria riqueza do teu ser.

Um de nós era a mais
√Ä l√≠rica janela…
Olharam-se os zagais,
Mas n√£o houve novela.

A vida assim o quis,
A vida sem amor.
N√£o regues a raiz
Do que n√£o teve flor.

Procurei a Verdade Ardentemente

A nossa √Ęnsia de verdade √© grande, e por certo o que quis√©ramos fora, n√£o esta doutrina do Limiar, sen√£o a casa e o lar que h√° nele.
De a√≠ a arte, feita para entretimento dos outros e nossa ocupa√ß√£o, dos que somos ocup√°veis desse modo. Negada a verdade, n√£o temos com que entreter-nos sen√£o a mentira. Com ela nos entretenhamos, dando-a por√©m como tal, que n√£o como verdade; se uma hip√≥tese metaf√≠sica nos ocorre, fa√ßamos com ela, n√£o a mentira de um sistema (onde possa ser verdade) mas a verdade de um poema ou de uma novela – verdade em saber que √© mentira, e assim n√£o mentir. (…) e assim constru√≠ para mim esta regra de vida.
Procurei a verdade ardentemente, ora com uma atenção (…)

Nem a educação familiar, nem a educação escolar, juntas, conseguem influir no brasileiro mais do que as novelas no Brasil ! Isso é um pesadelo; um pesadelo bem real !

Um escritor é alguém que gasta anos, pacientemente, a tentar descobrir o segundo ser dentro dele, e o mundo que faz que ele seja o que é: quando eu falo de escrita, a primeira coisa que me vem à cabeça não é uma novela, um poema, ou tradição literária, é uma pessoa que se fechou a si própria num quarto, sentou-se a uma mesa, e, sozinha, volta-se para dentro; por entre as suas sombras, ele constrói um novo mundo com palavras.

Opi√°rio

Ao Senhor M√°rio de S√°-Carneiro

√Č antes do √≥pio que a minh’alma √© doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo h√°-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
j√° n√£o encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os pr√≥prios gozos g√Ęnglios do meu mal.

√Č por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre vis√Ķes de cadafalsos
Num jardim onde h√° flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impress√£o de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um av√ī meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

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