Cita√ß√Ķes sobre Pintura

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Frases sobre pintura, poemas sobre pintura e outras cita√ß√Ķes sobre pintura para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Eu n√£o sou representante do cinema portugu√™s. O cinema portugu√™s √© um conjunto de realizadores, e da soma deles ‚Äď dos bons, claro ‚Äď √© que se retirar√° um efeito como o da literatura ou da pintura.

Soneto XX

Duvidam se a escultura é mais perfeita
Ou se a pintura, que esta da cor fina
E sombras se orna, aquela mais se assina
Quanto mais desbastada e mais desfeita.

Mas se ua est√°tua houver despois de feita
Das cores, da pintura e sombras dina,
Como obra nunca vista e perigrina,
Qu√£o fermosa seria, e quanto aceita.

Esta sois meu Jesus, onde n√£o falta
Sombra e cor da Pintura, e de tal sorte
Que à escultura sereis novo modelo:

Disfeita a carne, o sangue vos esmalta
Sombras, sobre as de açoutes, as da morte
E sobre tudo, sobre todos belo.

O Sono de Percival

O justo é injusto, o injusto justo é.
Débil julguei ouvir tua voz a desoras.
Um lamento lento, por certo a voz
do vento. Secarei, talvez como o feno,
n√£o dormindo, nem noites, nem dias.

Soluço abafado, sussurro apenas
perceptível após a brancura
obliterante do rel√Ęmpago,
quando cessa o fragor que o excede
e a chuva cai e tudo se cala,

terei ouvido tua voz. Secarei,
talvez, como o feno. O justo
é injusto, o injusto justo é.
Procurei no horto e no deserto,
sob o cavo ruído das torrentes

subterr√Ęneas, na imemorial
pedra circular com que o humano
terror balizou os horizontes
do tempo. No espectro da rosa
dos ventos, no vento espectral

da rosa. Seria a voz do vento,
pintura da minha imaginação
doente, a vigília do sono,
a febre dos sentidos,
n√£o dormindo noites e dias

para ouvir tua voz. O justo
é injusto, o injusto justo é
para ouvir tua voz.
Secarei como o feno.
Para ouvir tua voz.

Depravação e Génio

Uma vez que a maior parte das pessoas encara a santidade como qualquer coisa insulsa e conforme a uma pureza legal, é provável que a depravação represente uma maneira do génio dos sentidos, quer dizer, de desvio até ao extremo de uma vertente descida em liberdade e exterior às regras. Disto resulta que o génio, tal como é aceite, ou antes, tal como é tolerado, constitua uma depravação espiritual análoga a uma depravação dos sentidos. Muitas vezes uma arrasta a outra, e é raro um génio das letras, da escultura ou da pintura não se denunciar e, mesmo que lá não meta a sua carne, fazer prova de uma liberdade de ver, sentir e admirar que ultrapassa os limites consentidos.
(…) Acontece que nos interrogamos com estupefac√ß√£o sobre as in√ļmeras deprava√ß√Ķes de bairro lim√≠trofe que a pol√≠cia e os hospitais testemunham. S√≥ poderemos ver nelas o meandro onde os med√≠ocres se perdem quando decidem deixar-se arrastar e sair das regras que lhes foram destinadas.
Traduzam-se estas deprava√ß√Ķes noutra l√≠ngua, d√™-se-lhes eleva√ß√£o, transcend√™ncia, sejam elas revestidas de intelig√™ncia, e obter-se-√† uma imagem em ponto pequeno das altas deprava√ß√Ķes que as obras-primas da arte nos valem.
Tal como Picasso apanha o que encontra no lixo e o eleva à dignidade de servir,

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Olhar e Sentir

Olhar e sentir
por dentro do corpo a massa de que é feito o avesso dele.
Ossos m√ļsculos nervos veias
tudo o que está no corpo e mundo é
a pintura cont√©m e dep√Ķe na tela e
se acaso aí o pintor deixou reservas
nesse sem nada o avesso do mundo se
recolhe e mostra a face.

Os Caminhos Insond√°veis do Progresso da Humanidade

O progresso n√£o √© necess√°rio por uma necessidade metaf√≠sica: pode-se dizer apenas que muito provavelmente a experi√™ncia acabar√° por eliminar as falsas solu√ß√Ķes e por se livrar dos impasses. Mas a que pre√ßo, por quantos meandros? N√£o se pode nem mesmo excluir, em princ√≠pio, que a humanidade, como uma frase que n√£o se consegue concluir, fracasse no meio do caminho.
Decerto o conjunto dos seres conhecidos pelo nome de homens e definidos pelas caracter√≠sticas f√≠sicas que se conhecem tem tamb√©m em comum uma luz natural, uma abertura ao ser que torna as aquisi√ß√Ķes da cultura comunic√°veis a todos eles e somente a eles. Mas esse lampejo que encontramos em todo o olhar dito humano √© visto tanto nas formas mais cru√©is do sadismo quanto na pintura italiana. √Č justamente ele que faz com que tudo seja poss√≠vel da parte do homem, e at√© o fim.

As palavras são, como se diz em pintura, valores: para produzir, pois, um certo efeito de força ou de graça, o caso não está em ter muitos valores, mas em saber agrupar bem os três ou quatro que são necessários.

Elegia para Santa Rosa

Aurora chega, e permaneces fria
noite, imobilizado, cego e mudo
às coisas das manhãs que amanhecias:
cavalete, jornal, café no bule.

O mundo neutro e nu pede a pintura;
a tela virgem, teu pincel tranquilo,
As cores vêm chorando pela rua,
entram no atelier branco e vazio.

Quais os murais que ir√°s compor no muro,
entre o que foste e o que ser√°s, erguido,
o indevass√°vel muro eterno e duro?

Ai, Santa, pesam sobre nós os dias
desta sobrevivência que te usurpa
o espaço e o tempo que te pertenciam.

A amizade √© como a pintura, que, para se ver bem, n√£o se h√°-de ver de perto; de longe se conhecem os seus defeitos e as suas perfei√ß√Ķes.

Falar com Estranhos

J√° reparou? E mais f√°cil ser-se verdadeiro com os estranhos. As pessoas que viajam de comboio come√ßam a falar com estranhos e contam coisas que nunca contaram aos amigos, porque, com um estranho, n√£o se sentem envolvidas. Meia hora mais tarde, chegam ao seu destino e saem; esquecem e o estranho esquecer√° tudo aquilo que lhe contaram. Por isso nada do que lhe disseram tem qualquer import√Ęncia. N√£o se correm riscos com um estranho.

Ao falar com estranhos, as pessoas s√£o mais verdadeiras e revelam o seu cora√ß√£o. Mas ao falar com os amigos, com os familiares ‚ÄĒ pai, m√£e, mulher, marido, irm√£o, irm√£ ‚ÄĒ h√° uma profunda inibi√ß√£o inconsciente. ¬ęN√£o digas isso, ele pode ficar magoado. N√£o fa√ßas isso, ela pode n√£o gostar. N√£o te comportes dessa maneira, o pai √© velho, pode ficar chocado.¬Ľ Ent√£o a pessoa continua a controlar-se. A pouco e pouco, a verdade cai na cave do seu ser e ela torna-se muito esperta e astuciosa com o n√£o verdadeiro. Continua a fazer falsos sorrisos, que n√£o passam de pinturas nos l√°bios. Continua a dizer coisas simp√°ticas, sem qualquer significado. Come√ßa a sentir-se aborrecida com o namorado ou com os pais, mas continua a dizer: ¬ęEstou muito contente por te ver!¬Ľ Enquanto isso,

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O Equilíbrio na Maturidade

Recordo-me que outrora, quando tinha essa idade que se diz ser a idade do entusiasmo e da for√ßa da imagina√ß√£o, como me faltava a experi√™ncia para tornar mais fortes essas belas qualidades, interrompia frequentemente o meu trabalho, que muitas vezes me desagradava. Apois√ß√£o em que a idade nos coloca √© uma ironia da natureza. Quando chegamos √† total maturidade, temos uma imagina√ß√£o mais fesca e viva do que nunca e sobretudo sossegaram as loucas e impetuosas paix√Ķes que a idade arrasta consigo, mas faltam-nos j√° as for√ßas e temos os sentidos gastos – estes pedem mais o descanso do que a agita√ß√£o. E, no entanto, apesar de todas estas agruras, como √© grande a consola√ß√£o que nos √© comunicada pelo trabalho! Como me sinto feliz por n√£o ter de ser feliz como tanto o desejava no passado! De que selv√°tica tirania afinal n√£o me acabou por libertar o enfraquecimento do corpo?!
Então, a pintura era o que menos me preocupava. Temos de nos adaptar às nossas forças: se a partir de certa altura a natureza se recusa a trabalhar, não a devemos violentar mas contentarmo-nos com o que ela nos dá; não nos deixarmos dominar pela sede de elogios,

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A Perspectiva da Verdade e da Moral

Quando se é demasiado jovem, não se julga bem; demasiado velho, o mesmo. Se não se pensa nisso o suficiente, se se pensa demais, teimamos, e encasquetamo-nos. Se se considera a própria obra logo depois de se ter feito, está-se ainda muito preso a ela, se muito tempo depois, não se entra mais nela. Assim os quadros vistos de longe demais e de perto demais; e há apenas um ponto indivisível que é o verdadeiro lugar: os outros estão demasiado perto, demasiado longe, demasiado alto, demasiado baixo. A perspectiva marca-o na arte da pintura.

Pintura

Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
s√£o formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

H√° certas coisas que se tornam insuport√°veis quando n√£o passam de med√≠ocres: a poesia, a m√ļsica, a pintura, o falar em p√ļblico.