Cita√ß√Ķes sobre Quadrados

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Frases sobre quadrados, poemas sobre quadrados e outras cita√ß√Ķes sobre quadrados para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Soneto 573 Barbarizado

Já se disse: sete é conta de mentira e lenda.
Também dizem que de azar o treze é cifra certa.
Isso explica a redondilha como porta aberta
no cantar dos repentistas, na feroz contenda,

à bazófia descarada, onde é melhor a emenda
que o soneto decassílabo, no qual se enxerta
entre termos eruditos a fal√°cia esperta,
lei de todo bom poeta que seu peixe venda.

Outrossim, também se explica por que nunca é visto
um soneto alexandrino, mas de pé quebrado:
este, a cuja tentação do treze não resisto.

Vou cham√°-lo “aleijadinho”, pois, em vez de errado,
tem car√°ter de obra-prima, pelo menos nisto:
completar catorze versos sem ficar quadrado!

O Efeito do Afastamento no Tempo

O afastamento no tempo engana o sentido do esp√≠rito como o afastamento no espa√ßo provoca o erro dos sentidos. O contempor√Ęneo n√£o v√™ a necessidade do que vem a ser, mas, quando h√° s√©culos entre o vir a ser e o observador, ent√£o ele v√™ a necessidade, como aquele que v√™ √† dist√Ęncia o quadrado como algo redondo.

Poeta como Tu, Irm√£o

N√£o sou mais poeta do que tu, irm√£o!
Tu cavas na terra a semente da vida,
eu cavo na vida a semente da libertação.

Somos partes perdidas dum só
que a raz√£o de ser das coisas
separou. N√£o sou mais poeta do que tu, irm√£o.
A m√£e que te gerou a mim me gerou ‚ÄĒ
n√£o foi ela quem nos trocou
as mãos, a voz do coração.

Abandona um pouco a charrua, arranca
da terra os olhos cansados, e limpa
o sujo da cara ao sujo das m√£os ‚ÄĒ onde
os calos são um só e as rugas da morte
caminhos cobertos de pó.

E olha
na direcção do meu braço cansado, sem
m√ļsculos quadrados
nem merda nas unhas, mas que te aponta
o mundo onde as raízes do dia, a luta, o trabalho
reclamam suor
mas n√£o te roubam o p√£o.
Arranca os olhos da terra, irm√£o!

Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
est√° guardado um dedo da tua m√£o direita num relic√°rio.
Palavra de honra que est√°!
As voltas que o mundo d√°!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calend√°rio.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milh√Ķes de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar ‚Äď que disparate, Galileo!
‚Äď e jurava a p√©s juntos e apostava a cabe√ßa
sem a menor hesita√ß√£o ‚Äď
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados s√£o.

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Sem Acção, de Nada Vale a Inteligência

Os conhecimentos ouvem-se, mas para agir a capacidade de audi√ß√£o √© praticamente desprez√°vel. Porque agir √© estar pr√≥ximo das coisas e ouvir √© estar afastado das coisas. Algu√©m que apenas ouve ser√° considerado um intruso no mundo, a Natureza n√£o se sentir√° amea√ßada. Quem ouve poder√° acumular conhecimentos, mas essa acumula√ß√£o n√£o lutar√° com a Natureza. Esta resiste bem √† intelig√™ncia, ao racioc√≠nio e √† mem√≥ria do Homem: todas estas qualidades intelectuais s√£o assuntos que dizem respeito exclusivamente ao mundo da cidade, e o que amea√ßa a Natureza s√£o as ac√ß√Ķes: os momentos em que os humandos abandonam a audi√ß√£o, e mesmo a linguagem do discurso, e passam a querer falar com o tacto: o √ļnico que pode alterar as coisas.
Se os homens, mantendo a sua intelig√™ncia incorrupta, fossem seres im√≥veis, incapazes de qualquer movimento, seriam ainda hoje menos poderosos do que um √ļnico metro quadrado de terra espont√Ęneo. Poderiam possuir um grau de aperfei√ßoamento no pensamento abstracto, matem√°tico e l√≥gico, mas n√£o deixariam de ser uma esp√©cie secund√°ria ao lado das outras: as possuidoras de movimento. Qualquer c√£o mesquinho mijaria nas pernas de um homem inteligente, mas im√≥vel.

Gonçalo M.

Para se ter alguma autoridade sobre os homens, √© preciso distinguir-se deles. √Č por isso que os magistrados e os padres t√™m gorros quadrados.

Poema da Memória

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e √°vidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.

E por que n√£o galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!

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A vida humana é o maior desperdício económico da natureza: no momento em que poderíamos começar a tirar proveito da nossa experiência, morremos, e os que vêm a seguir voltam a começar do zero. Voltar a ensinar a criança a andar, levá-la à escola para que distinga uma circunferência de um quadrado, o amarelo do vermelho, o sólido do líquido, o duro do mole.

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecis√£o, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o c√≠rculo das rela√ß√Ķes
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rect√Ęngulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da m√£o;

a vida que traz consigo as emo√ß√Ķes e os acasos,
a luz inexor√°vel das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas h√ļmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.