Cita√ß√Ķes sobre Quimera

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Prosema I

Com a devida vénia me reparto junto do tampo de mármore meu secretário tão certo. Desde quando deixara eu de ouvir esta palavra? Logrei substituí-la numa manhã óptima mas não esta em que a mola salta reprimida sabe-se lá donde, algures na hipófise.
Na confraria dos reclusos outras quimeras se aventam como Sol, M√£e, Amada, at√© que o tempo nosso inimigo se distancie e nos abandone por instantes. Na laje j√° sobre a qual o papel branco me obedece sem que o habitem outros sinais, pequeninos veios avolumam-se em √°reas mais densas, configurando p√°ssaros de porcelana chinesa. Afundo-me neste fundo para descobrir-lhes um sentido, branco, amarelo, de novo branco, cada cent√≠metro um fuso de seres min√ļsculos, buscando reorganizar-se, perder-se, reagrupar-se.
De anacoreta nada tenho, s√≥ de multid√Ķes entre Cacilhas, Piedade e o Barreiro. E Campo de Ourique, que digo! A minha m√£o move-se, o pensamento p√°ra, descubro as uvas pendentes como se fora Ver√£o e o Sol ferisse como se o olhara de frente. Nem o ru√≠do dos p√°ssaros habituais junto √† janela nos veio dar os bons dias, o funcion√°rio impreter√≠vel vir√° √† hora impreter√≠vel. Muito longe fora de portas um galo ou a sua aus√™ncia. Tenho uma toalha,

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Rompeu-Se O Denso Véu Do Atroz Marasmo

Rompeu-se o denso véu do atroz marasmo
E como por fatal, negro hebetismo
De antro sepulcral, de fundo abismo
O povo ressurgiu com entusiasmo!

O Zoilo mazorral se queda pasmo
Sup√Ķe quimera ser, ser cataclismo
Roga, j√° por dobrez, por ceticismo
De néscio, vil truão solta o sarcasmo.

Perd√£o, Filho da Luz, minh’alma exora,
Porém, a pátria diz, somente agora
Os grilh√Ķes biparti de atroz moleza!

E ele, o nosso herói já redivivo
De pé, sem se curvar, sereno, altivo
Co’as raias do porvir mede a grandeza!

Assim

Assim foi nosso amor… um sonho que viveu
de um sonho, e despertou na realidade um dia…
Um pouco de quimera ao l√©u da fantasia…
Um flor que brotou e num bot√£o morreu…

Embora sendo nosso, este amor foi só meu,
porque o teu, n√£o foi mais que pura hipocrisia,
– no fundo, h√° muito tempo, a minha alma sentia
este fim que o destino afinal j√° lhe deu…

Não podes, bem o sei Рsendo mulher como és,
saber quanto sofri, vendo esta flor desfeita
e as p√©talas no ch√£o, pisadas por teus p√©s…

Que importa ? H√°s de sofrer mais tarde – a vida √© assim…
Esse mesmo sorrir que agora te deleita
√© o mesmo que depois h√° de amargar teu fim!…

Incensos

Dentre o chorar dos trêmulos violinos,
Por entre os sons dos órgãos soluçantes
Sobem nas catedrais os neblinantes
Incensos vagos, que recordam hinos…

Rolos d’incensos alvadios, finos
E transparentes, fulgidos, radiantes,
Que elevam-se aos espaços, ondulantes,
Em Quimeras e Sonhos diamantinos.

Relembrando turíbulos de prata
Incensos arom√°ticos desata
Teu corpo eb√ļrneo, de sedosos flancos.

Claros incensos imortais que exalam,
Que l√Ęnguidas e l√≠mpidas trescalam
As luas virgens dos teus seios brancos.

Que Vençais no Oriente tantos Reis

Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da √ćndia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos d√° mais fama inda no mundo,
√Č vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratid√Ķes, t√£o grande inveja.

Ecos D’alma

Oh! madrugada de ilus√Ķes, sant√≠ssima,
Sombra perdida l√° do meu Passado,
Vinde entornar a cl√Ęmide pur√≠ssima
Da luz que fulge no ideal sagrado!

Longe das tristes noutes tumulares
Quem me dera viver entre quimeras,
Por entre o resplandor das Primaveras
Oh! madrugada azul dos meus sonhares;

Mas quando vibrar a √ļltima balada
Da tarde e se calar a passarada
Na bruma sepulcral que o céu embaça,

Quem me dera morrer ent√£o risonho,
Fitando a nebulosa do meu Sonho
E a Via-L√°ctea da Ilus√£o que passa!

Se nos dermos de coração a uma quimera, se ela, nas formas vagas e aéreas que reveste, nos sorrir e namorar, em vão julgamos tê-la pelo que verdadeiramente é; há sempre um ou outro momento em que a acreditamos realizável e até realizada.

As Estrelas

L√°, nas celestes regi√Ķes distantes,
No fundo melancólico da Esfera,
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.

Quantos mistérios andarão errantes,
Quantas almas em busca da Quimera,
L√°, das estrelas nessa paz austera
Soluçarão, nos altos céus radiantes.

Finas flores de pérolas e prata,
Das estrelas serenas se desata
Toda a caudal das ilus√Ķes insanas.

Quem sabe, pelos tempos esquecidos,
Se as estrelas n√£o s√£o os ais perdidos
Das primitivas legi√Ķes humanas?!

Pequenina

À Maria Helena Falcão Risques

√Čs pequenina e ris…A boca breve
√Č um pequeno id√≠lio cor-de-rosa…
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te fez tão graciosa!
Que desta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem √† gente…
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores…
Quando o teu nome diz, suavemente…

Pequenina que a M√£e de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!…

O que é Viver?

Viver é só sentir como a Morte caminha
E como a Vida a quer e como a vida a chama…
Viver, minha princesa pobrezinha,
√Č esta morte triste de quem ama‚Ķ

Viver é ter ainda uma quimera erguida
Ou um sonho febril a soluçar de rastos;
√Č beijar toda a dor humana, toda a Vida,
Como eu beijo a chorar os teus cabelos castos…

Viver é esperar a Morte docemente,
Beijando a luz, beijando os cardos, e beijando
Alguém, corpo ou fantasma, que nos venha amando…

√Č sentir a nossa alma presa tristemente
Ao mistério da Vida que nos leva
Perdidos pelo sol, perdidos pela treva…

Das Unnennbare

Oh quimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E ro√ßas co’os vestidos vaporosos
A minha fronte p√°lida e cansada!

Leva-te o ar da noite sossegada…
Pergunto em v√£o, com olhos ansiosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu país, misteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A d’esta aurora, igual √† do sol posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!

Que nem a noite uma ilus√£o consinta!
Que s√≥ de longe e em sonhos te presinta…
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

Nenhum Mortal no Mundo Satisfeito

Nenhum mortal no mundo satisfeito
Com sua Sorte está, nunca é contente,
Pois de mil desatinos enche a mente
Sem que possa gozar um bem perfeito.

O soldado deseja o canto estreito
Da cela do ermit√£o, com √Ęnsia ardente:
Este, da guerra, o estrépito fremente
Deseja, sem razão, ao ócio afeito.

O rico, redobrados bens deseja;
O pobre, de quimeras se sustenta;
No coração humano reina a Inveja.

Pobre, rico, fidalgo se alimenta
De insaci√°veis desejos que lhe peja
Sua Sorte fatal, que os n√£o contenta.

Apenas Vi Do Dia A Luz Brilhante

Apenas vi do dia a luz brilhante
L√° de T√ļbal no emp√≥rio celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.

Aos dois lustros a morte devorante
Me roubou, terna m√£e, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irm√£os e do pai me p√īs distante.

Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da p√°tria, longe da ventura,
Minhas faces com l√°grimas inundo.

E enquanto insana multid√£o procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Prince Charmant

A Raul Proença

No l√Ęnguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas!

√ď noites da minh’alma tenebrosas!
Boca sangrando beijos, flor que sente…
Olhos postos num sonho, humildemente…
M√£os cheias de violetas e de rosas…

E nunca O encontrei!…Prince Charmant…
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Em toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em fr√°geis dedos fr√°geis rendas…
— Nunca se encontra Aquele que se espera!…

A Vida

“A Vida”
II
“. . Tem sido assim e assim ser√°… Mais tarde
o que hoje pensas chamar√°s: – quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
ser√° a vis√£o de extinta primavera…

Escondido à .traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante j√° te espera!

E num requinte de perversidade
faz de cada ilus√£o, de cada sonho,
a ru√≠na de uma dor… e uma saudade…

E se voltares, notar√°s ent√£o
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em v√£o sonhaste… e que viveste em v√£o!…”

O Bem Supremo

Muito discutiu a antiguidade em torno do supremo bem. O que √© o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar o que √© o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc. Cada um p√Ķe a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. (…) Sumo bem √© o bem que vos deleita a ponto de nos polarizar toda a sensibilidade, assim como mal supremo √© aquele que vos torna completamente insens√≠vel. Eis os dois p√≥los da natureza humana. Esses dois momentos s√£o curtos. N√£o existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal s√£o quimeras.Conhecemos a bela f√°bula de Cr√Ęntor, que fez comparecer aos jogos ol√≠mpicos a Fortuna, a Vol√ļpia, a Sa√ļde e a Virtude.
Fortuna: РO sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obtém.
Vol√ļpia: – Meu √© o pomo, porquanto n√£o se aspira √† riqueza sen√£o para ter-me a mim.
Sa√ļde: – Sem mim n√£o h√° vol√ļpia e a riqueza seria in√ļtil.
Virtude: – Acima da riqueza, da vol√ļpia e da sa√ļde estou eu, que embora com ouro, prazeres e sa√ļde pode haver infelicidade, se n√£o h√° virtude.

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Portugal

Maior do que nós, simples mortais, este gigante
foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
seu torrão dilatou, inóspito montado,
numa p√°tria… E que p√°tria! A mais formosa e linda
que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro;
hortas a rir; vergéis noivando em frutos de oiro;
trilos de rouxinóis; revoadas de andorinhas;
nos vinhedos, pombais: nos montes, ermidinhas;
gados nédios; colinas brancas olorosas;
cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas;
selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
de olivais; por nogais, frautas de pegureiros;
rios, noras gemendo, azenhas nas levadas;
eiras de sonho, grutas de génios e de fadas:
riso, abund√Ęncia, amor, conc√≥rdia, Juventude:
e entre a harmonia virgiliana um povo rude,
um povo montanhês e heróico à beira-mar,
sob a graça de Deus a cantar e a lavrar!
P√°tria feita lavrando e batalhando: aldeias
conchegadinhas sempre ao torre√£o de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
por muralhas, basti√Ķes, barbac√£s, fortalezas;
e, a dar fé, a dar vigor,

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Carnal E Místico

Pelas regi√Ķes tenu√≠ssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras…
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.

N’uma evapora√ß√£o de branca espuma
V√£o diluindo as perspectives claras…
Com brilhos crus e f√ļlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.

E então, na treva, em místicas dormências
Desfila, com sidéreas lactescências,
Das Virgens o son√Ęmbulo cortejo…

√ď Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
√ď intensas quimeras do Desejo…

Recordam-se Voc√™s do Bom Tempo d’Outrora

(Dedicat√≥ria de introdu√ß√£o a ¬ęA Musa em F√©rias¬Ľ)

Recordam-se voc√™s do bom tempo d’outrora,
Dum tempo que passou e que n√£o volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos dos pardais?
C’roava-nos a fronte um diadema d’aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na bals√Ęmina em flor.
Que doiradas can√ß√Ķes nossas bocas vermelhas
N√£o lan√ßaram ent√£o perdidas pelo ar!…
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Can√ß√Ķes feitas sem versos,
E que nós nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp’ran√ßas
S√£o √°ureos colibris das regi√Ķes da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai j√° sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega à nossa alma,então
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida √© um Sol que chega ao c√ļmulo
Quando cantam em n√≥s essas can√ß√Ķes celestes;

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