Cita√ß√Ķes sobre Sufici√™ncia

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Cada Português que se Preza

√Č escusado. Cada portugu√™s que se preza √© uma muralha de sufici√™ncia contra a qual se quebram todas as vagas da inquieta√ß√£o. Conhece tudo, previu tudo, tem solu√ß√Ķes para tudo. E quando algu√©m se apresenta carregado de d√ļvidas, tolhido de perplexidades, vira-lhe as costas ou tapa os ouvidos. Um m√≠nimo de aten√ß√£o ao interlocutor seria j√° uma prova de fraqueza, uma confiss√£o de falibilidade. Quanto mais apertado o seu horizonte intelectual, mais porfia na vulgaridade das certezas que proclama. N√£o √† maneira humilde e cabe√ßuda dos que se limitam a transmitir sem an√°lise um saber ancestral, mas como um presumido doutor, impante de mediocridade.

O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a esp√©cie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em s√°bios e ignorantes, em mais ou menos s√°bios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista n√£o pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. N√£o √© um s√°bio, porque ignora formalmente o que n√£o entra na sua especialidade; mas tampouco √© um ignorante, porque √© ¬ęum homem de ci√™ncia¬Ľ e conhece muito bem a sua frac√ß√£o de universo. Devemos dizer que √© um s√°bio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que √© um senhor que se comportar√° em todas as quest√Ķes que ignora, n√£o como um ignorante, mas com toda a petul√Ęncia de quem na sua quest√£o especial √© um s√°bio.
E, com efeito, este √© o comportamento do especialista. Em pol√≠tica, em arte, nos usos sociais, nas outras ci√™ncias tomar√° posi√ß√Ķes de primitivo, e ignorant√≠ssimo; mas tomar√° essas posi√ß√Ķes com energia e sufici√™ncia, sem admitir ‚Äď e isto √© o paradoxal ‚Äď especialistas dessas coisas. Ao especializ√°-lo a civiliza√ß√£o tornou-o herm√©tico e satisfeito dentro da sua limita√ß√£o; mas essa mesma sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio e valia vai lev√°-lo a querer predominar fora da sua especialidade.

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Liberdade é Pouco

Liberdade √© pouco. O que desejo ainda n√£o tem nome. ‚ÄĒ Sou pois um brinquedo a quem d√£o corda e que terminada esta n√£o encontrar√° vida pr√≥pria, mais profunda. Procurar tranquilamente admitir que talvez s√≥ a encontre se for busc√°-la nas fontes pequenas. Ou sen√£o morrerei de sede. Talvez n√£o tenha sido feita para as √°guas puras e largas, mas para as pequenas e de f√°cil acesso. E talvez meu desejo de outra fonte, essa √Ęnsia que me d√° ao rosto um ar de quem ca√ßa para se alimentar, talvez essa √Ęnsia seja uma ideia – e nada mais. Por√©m – os raros instantes que √†s vezes consigo de sufici√™ncia, de vida cega, de alegria t√£o intensa e t√£o serena como o canto de um √≥rg√£o – esses instantes n√£o provam que sou capaz de satisfazer minha busca e que esta √© sede de todo o meu ser e n√£o apenas uma ideia? Al√©m do mais, a ideia √© a verdade! grito-me. S√£o raros os instantes.

A Infelicidade da Juventude

O que faz da juventude um período infeliz é a caça à felicidade, na firme pressuposição de que ela tem de ser encontrada na existência. Disso resulta a esperança sempre malograda e, desta, o descontentamento. Imagens enganosas de uma vaga felicidade onírica pairam perante nós revestidas de formas caprichosamente escolhidas, fazendo-nos procurar em vão o seu original. Por isso, nos anos da juventude, estamos quase sempre descontentes com a nossa situação e o nosso ambiente, não importando quais sejam; porque lhes atribuímos o que na verdade pertence, em toda a parte, à vacuidade e à indigência da vida humana, com as quais só então travamos o primeiro conhecimento, após termos esperado coisas bem diversas. Ganhar-se-ia bastante se, pela instrução em tempo apropriado, fosse erradicada nos jovens a ilusão de que há muito a encontrar no mundo. Porém, é o contrário que acontece: na maioria das vezes, conhecemos a vida primeiro pela poesia, e depois pela realidade.
Na aurora da nossa juventude, as cenas descritas pela poesia resplandecem diante dos nossos olhos, e o anelo atormenta-nos para vê-las realizadas, a tocar o arco-íris. O jovem espera que o curso da sua vida se dê na forma de um romance interessante.

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