Cita√ß√Ķes sobre Vasos

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Frases sobre vasos, poemas sobre vasos e outras cita√ß√Ķes sobre vasos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O oleiro faz um vaso, manipulando a argila, mas é o oco do vaso que lhe dá utilidade.

Mudançar

Repor
na planta da cor brancura
em pedra solicitada

Reler
por vacilação das sílabas
em escurid√£o afundada

Rever
por olho areado com √°guas
a imagem contaminada

Reter
no m√ļsculo oxigenado vaso
areal terra aterrada

Resistir
ao c√Ęntico suado no temor
a evolução revoltada

Reaver
do padre eterno esquecido
fé febril equivocada

Rematar
pontilhados no voo manual
asa de vazio blindada

Reacordar
quando o tempo do morto é
vício pele reciclada

Recomeçar
linguajar contínua marcha
vivente reinventada.

Só no Pensamento Volta o Mundo

Só no pensamento volta o
mundo. Ao ruído da voz
apenas aspiro ‚ÄĒ que a alma
é o ser mais que a dor ou o
verde cinza do halo das
árvores na manhã íntima das
cores diurnas. Temi os
deuses pelo coração dos
homens, ao homem temo
que por metade vive o medo
divino. Resta, no espasmo
da terra, a m√°goa seca, a
ruína da água, a traição do
nada neste corpo de cera,
coroado do silêncio ferido.
Se não de amor é o dia
aberto quando as vísceras
róseas ouvem a respiração
do fogo derramado eros.
Que a estreita vida diz na
t√£o pouco breve humilde
erva a t√£o febril brisa, cio de
matinal b√ļzio ou rouca
flauta. Ent√£o me ergo e
ouso, vaso do vento, clamar
a queda. √ď esta humana e
divina pobreza de querer
sem fulgor, de tudo poder
sem desejo, alheio ou meu!
O que do futuro ignoro é
maior que o tempo que vivo,
é palavra de cega língua, em
mim calada por jamais lida.

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Obsess√£o do Mar Oceano

Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se √© muito longe o Mar Oceano…
Mas h√° vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e mo√ßas na janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
B√ļzios cal√ßando portas… caravelas
Sonhando im√≥veis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de m√ļsica
Uma b√ļssola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza √ļnica
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

O Amor por Matilde e os Versos do Capit√£o

E vou contar-lhes agora a hist√≥ria deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo n√£o ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o pr√≥prio livro n√£o soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, ¬ęLos versos del capit√°n¬Ľ eram, tamb√©m, um ¬ęlibro natural¬Ľ.

Os poemas que cont√©m foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em N√°poles, em 1952. O amor por Matilde, a nostalgia do Chile, as paix√Ķes c√≠vicas, recheiam as p√°ginas desse livro, que teve muitas edi√ß√Ķes sem trazer o nome do autor.

Para a 1¬™ edi√ß√£o, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admir√°vel e antigos tipos de imprensa ¬ębodonianos¬Ľ, bem como gravuras extra√≠das dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou tamb√©m a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festej√°mos largamente o acontecimento, com mesa florida, ¬ęfrutti di mare¬Ľ, vinho transparente como √°gua, filho √ļnico das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro.

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A Minha Alma Partiu-se

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das m√£os da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensa√ß√Ķes do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

N√£o se zanguem com ela.
S√£o tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, n√£o conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois n√£o sabem por que ficou ali.

Vaso Chinês

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o m√°rmor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?… de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pint√°-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.

Quebre um vaso, que o amor que se re√ļne a partir dos fragmentos √© maior que o amor que teve a sua simetria como garantida quando estava inteiro.

A Taça

Uma taça cheia, bem lavrada,
Segurava e apertava nas m√£os ambas,
√Āvido sorvia do seu bordo doce vinho
Para, a um tempo, afogar m√°goa e cuidado.

Entrou o Amor e achou-me sentado,
E sorriu discreto e s√°bio,
Como que lamentando o insensato:

¬ęAmigo, eu conhe√ßo um vaso inda mais belo,
Digno de nele mergulhar a alma toda;
Que prometes, se eu to conceder
E to encher de outro n√©ctar?¬Ľ

E com que amizade ele cumpriu a palavra!
Pois ele, Lida, com suave vénia
Te concedeu a mim, h√° tanto desejoso.

Quando estreito o teu amado corpo
E provo dos teus lábios fidelíssimos
O b√°lsamo de amor longo tempo guardado,
Feliz digo eu então ao meu espírito:

N√£o, um vaso tal, a n√£o ser o Amor,
Nenhum deus o formou ou possuiu!
Formas assim n√£o as forja Vulcano
Cos martelos finos e sensíveis!
Pode Lieu em frondosos outeiros
P’los seus faunos mais velhos e sagazes
Fazer pisar as uvas escolhidas
E ele mesmo presidir ao fermentar secreto:
Bebida assim não há desvelo que lha dê!

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Post Coitum Animal Triste

Em ti o poema, o amplo tecido da √°gua ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extens√£o e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as m√£os das chuvas.

Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as √°rvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vest√≠gio dos √ļltimos peregrinos, aves nuas
que j√° desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

Poema Quotidiano

√Č t√£o depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda n√£o h√° muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor n√£o calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e j√° tenho os meus anos
lavar a gente as m√£os no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
c√Ęntaros alguidares e mais vasos dom√©sticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e p√īs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

H√° quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no p√£o
Chegaram a trat√°-lo por vizinho
Por este andar… Foi uma aut√™ntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espect√°culo de luz sobre os nossos cuidados
√ćamos v√≠nhamos entr√°vamos n√£o v√≠amos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

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A argila n√£o vem ao caso
o vazio faz o vaso.

Os Amantes

Amor, é falso o que dizes;
Teu bom rosto é contrafeito;
Busca novos infelizes
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes;

O teu meu é mel azedo,
N√£o creio em teu gasalhado,
Mostras-me em v√£o rosto ledo;
J√° estou muito escaldado,
J√° d’√°guas frias hei medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor,
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em v√£os suspiros e queixas
Me levaste a mocidade,
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade?

√Čs como os c√£es esfaimados
Que, comendo os troncos quentes
Por destro negro esfolados,
Levam nos √°vidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo a aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
P√Ķe a mira em outra parte
Que daqui n√£o tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto j√° dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à toa amores
Pelas pias encostado;

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voz numa pedra

N√£o adoro o passado
não sou três vezes mestre
n√£o combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava Jo√£o
nenhuma nenhuma palavra est√° completa
nem mesmo em alem√£o que as tem t√£o grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a n√£o ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

N√£o digo como o outro: sei que n√£o sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lan√ßo os turbilh√Ķes e vejo o arco √≠ris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde ¬ęa poesia n√£o mais ritmar√° a ac√ß√£o
porque caminhar√° adiante dela¬Ľ
Os pregadores de morte v√£o acabar?
Os segadores do amor v√£o acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me ent√£o aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa n√£o me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada est√° escrito afinal