Cita√ß√Ķes sobre Avi√Ķes

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Frases sobre avi√Ķes, poemas sobre avi√Ķes e outras cita√ß√Ķes sobre avi√Ķes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Controlar a Timidez

Nunca consegui controlar a timidez. Quando tive que enfrentar em carne viva a incumb√™ncia que nos deixou o pai errante, aprendi que a timidez √© um fantasma invenc√≠vel. De cada vez que tinha que solicitar um cr√©dito, mesmo dos combinados de antem√£o em lojas de amigos, demorava horas em redor da casa, reprimindo a vontade de chorar e as contrac√ß√Ķes da barriga, at√© que me atrevia por fim, com as mand√≠bulas t√£o apertadas que n√£o me sa√≠a a voz. Havia sempre algum comerciante sem cora√ß√£o para me atrapalhar ainda mais: ¬ęMi√ļdo parvo, n√£o se pode falar com a boca fechada.¬Ľ Mais de uma vez regressei a casa com as m√£os vazias e uma desculpa inventada por mim. Mas nunca mais tornei a ser t√£o desgra√ßado como da primeira vez que quis falar pelo telefone na loja da esquina. O dono ajudou-me com a operadora, pois ainda n√£o existia o servi√ßo autom√°tico. Senti o sopro da morte quando me deu o auscultador. Esperava uma voz servi√ßal e o que ouvi foi o latido de algu√©m que falava no escuro ao mesmo tempo que eu. Pensei que o meu interlocutor tamb√©m n√£o me ouvia e levantei a voz tanto quanto pude. O outro,

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Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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Amor n√£o Tem N√ļmero

Se voc√™ n√£o tomar cuidado vira n√ļmero at√© para si mesmo. Porque a partir do instante em que voc√™ nasce classificam-no com um n√ļmero. Sua identidade no F√©lix Pacheco √© um n√ļmero. O registro civil √© um n√ļmero. Seu t√≠tulo de eleitor √© um n√ļmero. Profissionalmente falando voc√™ tamb√©m √©. Para ser motorista, tem carteira com n√ļmero, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte √© identificado com um n√ļmero. Seu pr√©dio, seu telefone, seu n√ļmero de apartamento ‚ÄĒ tudo √© n√ļmero.
Se √© dos que abrem credi√°rio, para eles voc√™ √© um n√ļmero. Se tem propriedade, tamb√©m. Se √© s√≥cio de um clube tem um n√ļmero. Se √© imortal da Academia Brasileira de Letras tem o n√ļmero da cadeira.
√Č por isso que vou tomar aulas particulares de Matem√°tica. Preciso saber das coisas. Ou aulas de F√≠sica. N√£o estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matem√°tica, preciso saber alguma coisa sobre c√°lculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se √© contribuinte de qualquer obra de benefic√™ncia tamb√©m √© solicitado por um n√ļmero. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de neg√≥cio recebe um n√ļmero. Para tomar um avi√£o,

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Devido √† sua alta velocidade, o avi√£o encontra mais resist√™ncia atmosf√©rica do que meios de transporte menos velozes. √Čs Vida que evolui velozmente. N√£o invejes os que encontram menor resist√™ncia por serem menos velozes. Alegra-te pela alta velocidade de tua evolu√ß√£o.

3 AM

M√£e
N√£o consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
N√£o consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser
capaz de chorar?)

M√£e
Sabias que o cord√£o umbilical pode funcionar
como uma corda num enforcamento?
‚ÄĒ tenho aprendido coisas bem singulares neste
conv√≠vio com os deuses ‚ÄĒ
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir

M√£e
Detesto coberturas de a√ß√ļcar mesmo que levem lim√£o
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois
acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho
Ainda n√£o parei de acordar. E de sonhar

M√£e
Tenho uma surpresa para ti
um caramanch√£o para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça

M√£e
Abriu um concurso para preencher uma vaga de
ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?

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Do Tempo ao Coração

E volto a murmurar¬†¬†¬† Do c√Ęntico de amor
gerado na Suméria      às novas europutas
Do muito que me d√°s ao muito que n√£o dou
mas que sempre conservo entre as coisas mais puras

De uma genebra a mais num bar de Amsterd√£o
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas       tantas mãos          que nos passam pelas mãos
a t√£o poucas que s√£o as que nunca se esquecem

De ter visto o come√ßo e o fim da Via √Āpia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que n√£o aparecem no mapa
De outros muros que só aparecem aqui

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

Da pertinaz presença          E da longevidade
do corvo         do chacal            do louco          do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

Do que foi noutro tempo a sa√ļde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo          ao coração minado pelo cancro
Dos rins             ao infinito incubado na cólera

Do tempo ao coração            mas com pausa na pele
como ¬ęRoma by night¬Ľ entre dois avi√Ķes
como passar o Ver√£o numa vogal aberta
como dizer que não         que já não somos dois

Dos rins ao infinito       A este       que não outro
Ao que rola dos rins    Ao que vai rebentar-te
na c√Ęmara blindada e nocturna do √ļtero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

Da curva de entretanto       à entrada do poço
De soletrar em mim       a ler       nas tuas mãos
como é rápido       e lento      e recto       e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.

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Funeral Blues

Parem todos os relógios, desliguem o telefone,
Evitem o latido do c√£o com um osso suculento,
Silenciem os pianos e com tambores lentos
Tragam o caix√£o, deixem que o luto chore.

Deixem que os avi√Ķes voem em c√≠rculos altos
Riscando no céu a mensagem: Ele Está Morto,
Ponham gravatas beges no pescoço dos pombos brancos do chão,
Deixem que os pol√≠cias de tr√Ęnsito usem luvas pretas de algod√£o.

Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
A minha semana √ļtil e o meu domingo inerte,
O meu meio-dia, a minha meia-noite, a minha canção, a minha fala,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

As estrelas n√£o s√£o necess√°rias: retirem cada uma delas;
Empacotem a lua e façam o sol desmanchar;
Esvaziem o oceano e varram as florestas;
Pois nada no momento pode algum bem causar.

Cidadania

Buqu√™ de ru√≠dos √ļteis
o dia. O tom mais p√ļrpura
do avi√£o sobressai
locomovida rosa p√ļblica.

Entre os edifícios a acácia
de antigamente ainda ousa
trazer ao cimo a folhagem
sua dor de apertada coisa.

Um solo de saxofone excresce
mensagem que a morte adia
aflito p√°ssaro que enrouquece
a garganta da telefonia.

Em cada bolso do cimento
uma lenta aranha de g√°s
manipula o dividendo
de um suicídio lilás.

Os Homens sem Pé no seu Tempo

Das coisas tristes que o mundo tem, são os homens sem pé no seu tempo. Os desgraçados que aparecem assim, cedo de mais ou tarde de mais, lembram-me na vida terras de ninguém, onde não há paz possível. Imagine-se a dramática situação dum cavernícola transportado aos dias de hoje, ou vice-versa. A cada época corresponde um certo tipo humano. Um tipo humano intransponível, feito da unidade possível em tal ocasião, moldado psicològicamente, e fisiològicamente até, pelas forças que o rodeiam. A Idade Média tinha como valores Aristóteles e os doutores da Igreja. E qualquer espírito coevo, por mais alto que fosse, estava irremediàvelmente emparedado entre a Grécia sem Platão e as colunas do Templo. De nada lhe valia sonhar outro espaço de movimento. Cada inquietação realizava-se ali. O que seria, pois, um Vinci do Renascimento, multímodo, aberto a todos os conhecimentos, a bracejar dentro de tão acanhados muros?

Neste tr√°gico s√©culo vinte, sem qualquer s√©rio conte√ļdo ideol√≥gico, sem nenhuma esp√©cie de grandeza fora do visceral e do som√°tico, todo feito de records org√Ęnicos e de conquistas dimensionais, que serenidade interior poder√° ter algu√©m alicer√ßado em valores religiosos, est√©ticos, morais, ou outros? Nenhuma. Entre o abismo da sua impossibilidade natural de deixar de ser o que √©,

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Soneto Com P√°ssaro E Avi√£o

Uma coisa é um pássaro que voa.
Outra um avi√£o. Assim, quem o prefere
Não sabe às vezes como o espaço fere
Aquele, um vi morrer, voando à toa

Um dia em Christ Church Meadows, numa antiga
Tarde, reminiscente de Wordsworth…
E tudo o que ficou daquela morte
Foi um baque de plumas, e a cantiga

Interrompida a meio: espasmo? espanto?
N√£o sei. tomei-o leve em minha m√£o
T√£o pequeno, t√£o c√°lido, t√£o lasso

Em minha m√£o… N√£o tinha o peito de amianto.
N√£o voaria mais, como o avi√£o
Nos longos t√ļneis de cristal do espa√ßo…

Muda de Vida ou Muda de Poema

Um poema n√£o √© uma coisa que se coloca sobre o teu dia como um condimento sobre o teu almo√ßo. A vida de uma pessoa n√£o tem material semelhante a nada que conhe√ßas. Existir √© feito de pe√ßas imposs√≠veis de copiar. E a poesia n√£o entra nesse material √ļnico – a vida de uma pessoa – como o avi√£o no ar ou o acidente do avi√£o na terra dura. Um poema n√£o √© manso nem meigo, n√£o √© mau nem ilegal.
Os homens não se medem pelos poemas que leram, mas talvez fosse melhor. O que é a fita métrica comparada com algo intenso? Há poemas que explicam trinta graus de uma vida e poemas que são um ofício de demolição completa: o edifício é trocado por outro, como se um edifício fosse uma camisa. Muda de vida ou, claro, muda de poema.

Gonçalo M.

Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.

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A Grande Vantagem da Vida

– A grande vantagem da vida √© ensinar-nos outra vez a chorar. A vida infantiliza. Fica-se maior no que nos faz ser mais pequenos. Cresce-se fora o que se vai perdendo por dentro. Passamos a inf√Ęncia a querer crescer, a adolesc√™ncia a querer crescer. E depois percebemos que s√≥ quer crescer quem ainda se sente pequeno. Um adulto sente-se pequeno mas pensa ao contr√°rio. Sente-se pequeno e quer ficar mais pequeno. Voltar ao tempo em que havia sonhos.
‚Äď Onde se perdem os sonhos?
‚Äď Todos os sonhos se perdem. Mesmo aqueles que vais ganhar, e vais ganhar muitos, se v√£o perder. Porque j√° deixaram de ser sonhos. Sonhaste aquilo, tiveste aquilo. E acabou. L√° se foi o sonho. O segredo √© conseguir gerar novos sonhos. Sonhos que consigam ocupar o espa√ßo em branco deixado pelo sonho perdido.
‚Äď Mesmo que tenha sido ganho.
‚Äď Mesmo que tenha sido ganho.
‚Äď Queria ser como tu.
‚Äď E eu queria ser como tu. Queria olhar para a frente e ver que o caminho n√£o acaba, o caminho a perder de vista.
‚Äď O teu n√£o se perde de vista?
‚Äď O meu faz-me perder a vista.

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Um Homem Simples

Eu tenho sido um homem demasiado simples ‚ÄĒ √© esta a minha honra e a minha vergonha. Acompanhei a far√Ęndola dos meus companheiros e invejei-lhes a brilhante plumagem, as sat√Ęnicas atitudes, os avi√Ķes de papel e at√© as vacas, que talvez tenham algo que ver, de forma misteriosa, com a literatura. De qualquer maneira, parece-me que n√£o nasci para condenar, mas para amar. At√© mesmo os divisionistas que me atacam, os que se re√ļnem aos montes para me arrancar os olhos e que antes se nutriram com a minha poesia, merecem pelo menos o meu sil√™ncio. Nunca tive medo de cont√°gio penetrando na multid√£o dos meus pr√≥prios inimigos, porque os √ļnicos que tenho s√£o os inimigos do povo.

Ler ou Copiar um Texto

O efeito de uma estrada campestre n√£o √© o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avi√£o. De igual modo, o efeito de um texto n√£o √© o mesmo quando ele √© lido ou copiado. O passageiro do avi√£o v√™ apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padr√£o do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a p√© se d√° conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa n√£o passa de um terreno indiferenciado, afloram dist√Ęncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva […]. Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa, ao passo que o mero leitor jamais descobre os novos aspectos do seu ser profundo que s√£o abertos pelo texto como uma estrada talhada na sua floresta interior, sempre a fechar-se atr√°s de si. Pois o leitor segue os movimentos de sua mente no v√īo livre do devaneio, ao passo que o copiador os submete ao seu comando. A pr√°tica chinesa de copiar livros era assim uma incompar√°vel garantia de cultura liter√°ria, e a arte de fazer transcri√ß√Ķes,

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Emprego e Desemprego do Poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo ver√£o as manh√£s de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo n√£o est√° para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez at√© alguns milh√Ķes de exemplares
haver√° coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
p√ļblia hort√™nsia de castro ou vit√≥ria colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
n√£o fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra mai√ļsculas-min√ļsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irm√£os
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que j√° nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como s√£o compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde p√īr as m√£os

Pensamos de Mais e Sentimos de Menos

Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desvi√°mo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de √≥dio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgra√ßa e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A m√°quina que produz a abund√Ęncia empobreceu-nos. A nossa ci√™ncia tornou-nos c√≠nicos; a nossa intelig√™ncia, cru√©is e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de m√°quinas. Se temos necessidade de intelig√™ncia, temos ainda mais necessidade de bondade e do√ßura. Sem estas qualidades, a vida ser√° violenta e tudo estar√° perdido.
O avi√£o e a r√°dio aproximaram-nos. A pr√≥pria natureza destes inventos √© um apelo √† fraternidade universal, √† uni√£o de todos. Neste momento, a minha voz alcan√ßa milh√Ķes de pessoas atrav√©s do mundo, milh√Ķes de homens sem esperan√ßa, de mulheres, de crian√ßas, v√≠timas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes.

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N√£o Ser√° Tempo de Voltarmos aos Sentidos?

N√£o somos apenas o nosso corpo, estamos tamb√©m integrados num corpus social, que solicita, expande e reprime a nossa sensibilidade. Basta ouvir aquele que foi o maior te√≥rico da comunica√ß√£o do s√©culo XX, Marshall McLuhan, para perceber at√© que ponto isso √© aproveitado pela sociedade de comunica√ß√£o global, para quem o indiv√≠duo passa a ser uma presa. O que diz McLuhan sobre a televis√£o, por exemplo, √© imensamente elucidativo: ¬ęUm dos efeitos da televis√£o √© retirar a identidade pessoal. S√≥ por ver televis√£o, as pessoas tornam-se num grupo coletivo de iguais. Perdem o interesse pela singularidade pessoal.¬Ľ Se repararmos, os meios que lideram a comunica√ß√£o humana contempor√Ęnea (da televis√£o ao telefone, do e-mail √†s redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais √† dist√Ęncia: fundamentalmente a vis√£o e a audi√ß√£o. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participa√ß√£o no real. ¬ęViste aquilo?¬Ľ, ¬ęj√° ouviste a √ļltima do…¬Ľ: os nossos quotidianos s√£o continuamente bombardeados pela press√£o do ver e do ouvir. O mesmo se passa com a locomo√ß√£o: seja a pilotar um avi√£o, a conduzir um autom√≥vel, ou seja o pe√£o a deslocar-se nas art√©rias das cidades modernas,

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