Textos sobre Casais

21 resultados
Textos de casais escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Fraqueza Infantil do Orgulho

Todos querem a paz, mas h√° muita gente que n√£o se disp√Ķe a fazer as pazes. Parece que n√£o acreditam que duas pessoas zangadas ou um casal desavindo se possam reconciliar. Preferem afirmar posi√ß√Ķes. De facto, o orgulhoso n√£o √© inteligente! Se fosse inteligente, j√° teria percebido que a coisa mais humana √© levantar-se dos seus erros e recome√ßar cada dia. N√£o o tentar e agarrar-se aos seus direitos parece for√ßa, mas √© fraqueza infantil.

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Dialogar em Vez de Discutir

Est√° o casal aos gritos, est√£o os pol√≠ticos aos berros… E comenta-se a prop√≥sito: “√Č preciso discutir para chegar a algum lado, da discuss√£o nasce a luz”. Bem, a verdade √© que n√£o se v√™ nada. S√≥ quando sou capaz de ouvir, quando sinceramente admito que o outro pode ter raz√£o ou parte dela, √© que posso come√ßar a ver. √Č isso que acontece? Deus queira… Discutir √© querer ganhar. Dialogar √© procurar a verdade com o que h√° de bom em cada um.

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Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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Somos os Comandantes das Nossas Vidas

Se alguém te disser que aquilo que queres não interessa para nada, desinteressa-te dessa pessoa.

Somos os comandantes das nossas vidas.

Somos n√≥s, portanto, que escolhemos com quem queremos caminhar, e ai de algu√©m que acredite que pode entrar √† for√ßa na nossa vida sem a devida autoriza√ß√£o. Na minha n√£o entram, disso podes ter a certeza. E se todos pens√°ssemos assim, se todos ag√≠ssemos em conformidade com esta breve alus√£o ao nosso poder pessoal, viver√≠amos todos num aut√™ntico mar de rosas. Mas n√£o. Este princ√≠pio b√°sico √© o terror de muita gente. A maioria talvez. Malta que acredita que tem de aguentar o supl√≠cio de viver ou conviver com quem lhe quer mal ou lhe √© indiferente. √Č uma desgra√ßa. √Č o reinado do medo. Do medo de ficar sozinho, de nunca mais sentir nada por ningu√©m, de tudo o que possam dizer ou pensar se agirem como desejam, da rea√ß√£o do outro, de mago√°-lo, enfim, o medo de tudo. Ora bem, esta onda de passividade e permissividade gera a extin√ß√£o da confian√ßa, fomenta o canibalismo do amor-pr√≥prio e inverte todo e qualquer tipo de educa√ß√£o apropriada. Como √© que algum filho, por exemplo, pode desenvolver-se em amor se tudo o que v√™ em casa s√£o duas pessoas que mal se olham ou que se atacam,

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A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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Reinventar o Mistério

Cada vez acredito mais nisso: pode efectivamente haver bom sexo sem pecado. Mas n√£o pode, nunca p√īde, nem nunca poder√° haver bom sexo sem mist√©rio. Se muitos casais perdem o desejo ao fim de alguns anos, √© porque o mist√©rio desapareceu. Se outros tantos o mant√™m latejante ao fim de v√°rias d√©cadas, √© porque encontraram uma forma de reinventar o mist√©rio. Feitas as contas, tem de haver sempre alguma espontaneidade – at√© alguma pressa, alguma urg√™ncia. E o melhor, apesar de tudo, √© que o sexo seja muitas vezes bom e todas as restantes apenas assim-assim. No exacto instante em que for perfeito perder√° dois ter√ßos do interesse, se n√£o o interesse todo. Da pr√≥xima j√° n√£o poder√° ser melhor.

√Č claro: quatro quintos dos portugueses discordar√£o aberta e ostensivamente disto. Nos estudos sociol√≥gicos e nas conversas de caf√©, nas telenovelas e nas reportagens ¬ędo social¬Ľ, n√£o encontro outra coisa sen√£o atletas sexuais – e nenhum atleta sexual alguma vez poder√° ser surpreendido a aceitar que a sua √ļltima sess√£o foi apenas assim-assim (e muito menos que a pr√≥xima poder√° ser assim-assim tamb√©m).

O Esplendor da Heterossexualidade, pelo Desejo

Somos um objecto, na paixão, totalmente submissos, sem poder prever os golpes que sofremos; aí reside a grandeza, a loucura, o assombro da paixão.
Para mim, o desejo só pode ter lugar entre o masculino e o feminino, entre sexos diferentes.
O outro desejo é um autodesejo, é, para mim, como que o prolongamento da prática masturbatória do homem ou da mulher. O esplendor da paixão, a sua imensidade, o seu sofrimento, o seu inferno, reside no facto de só poder verificar-se entre géneros irreconciliáveis, o masculino e o feminino. Tanto a paixão como o desejo.

Os casais homossexuais são muito mais estáveis do que os casais heterossexuais, porque na homosexualidade há uma prática simples e cómoda do desejo. A prática heterossexual é ainda selvagem, é ainda a floresta do desejo.
Na prática homossexual não creio que exista esse fenómeno de posse que existe na heterossexual. Na prática homossexual existe uma espécie de intermutabilidade do prazer, as pessoas nunca pertencem na homossexualidade como pertencem na heterossexualidade.
√Č um inferno n√£o se poder escapar ao desejo de uma pessoa, √© a isso que eu chamo, quando a mim, o esplendor da heterossexualidade.

A Idade do Divórcio

Devia haver uma idade para o div√≥rcio como h√° para o casamento. As desilus√Ķes dom√©sticas t√™m o seu tempo para se transformarem em cicatrizes que v√£o desaparecendo com o passar dos anos. Por isso √© que nos velhos casais h√° uma recorda√ß√£o da vida em comum que se assemelha √† santidade. Contam perip√©cias leves e d√£o ao passado um colorido quase caricato pela for√ßa do distanciamento em que se encontram. A verdade √© que sofreram os mesmos desenganos e turbul√™ncias que os jovens arrumam e p√Ķem de lado sem dar tempo a transformarem-nos em recalques.

SMS

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na m√£o o telem√≥vel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperan√ßa. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira √† praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, √† frente do peito, sem apertar os bot√Ķes. Cruza os bra√ßos. Uma folha de jornal passa por ela a esvoa√ßar, not√≠cias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os bot√Ķes do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento,

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Analisar as Nossas Rela√ß√Ķes

Nenhuma mudança psíquica sustentável ocorre rapidamente. São necessários o autoconhecimento, a educação, o treino, a utilização de ferramentas e, em especial, a compreensão básica do mais complexo dos universos, a mente humana.
Qualquer mulher gostaria de remover a impaciência, a ansiedade, as fobias, o humor depressivo e a timidez da sua mente. Mas a vontade consciente de mudança ou superação de um conflito, por mais forte e poderosa que seja, não é eficiente. Não basta o Eu querer reorganizar a sua personalidade, é preciso utilizar estratégias adequadas. Até um psicopata gostaria de ser gentil e afetivo em toda a sua agenda psíquica, mas, no calor das crises, os monstros alojados no seu inconsciente devoram-no e magoam os outros.

O Eu deve ser equipado, em especial, para ser o Autor da sua hist√≥ria. Porque brilhamos no mundo exterior, mas somos t√£o opacos no mundo interior? Porque √© que as guerras, os homic√≠dios, as discrimina√ß√Ķes, os dist√ļrbios ps√≠quicos, os conflitos sociais fazem a pauta da nossa hist√≥ria? Por que raz√£o sonham os pais em proporcionar a melhor educa√ß√£o aos seus filhos, mas nem sempre t√™m √™xito? Porque √© que casais apaixonados que fazem juras de amor podem acabar inimigos?

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A Poesia n√£o se Inventou para Cantar o Amor

A poesia n√£o se inventou para cantar o amor ‚ÄĒ que de resto n√£o existia ainda quando os primeiros homens cantaram. Ela nasceu com a necessidade de celebrar magnificamente os deuses, e de conservar na mem√≥ria, pela sedu√ß√£o do ritmo, as leis da tribo. A adora√ß√£o ou capta√ß√£o da divindade e a estabilidade social, eram ent√£o os dois altos e √ļnicos cuidados humanos: ‚ÄĒ e a poesia tendeu sempre, e tender√° constantemente a resumir, nos conceitos mais puros, mais belos e mais concisos, as ideias que est√£o interessando e conduzindo os homens. Se a grande preocupa√ß√£o do nosso tempo fosse o amor ‚ÄĒ ainda admitir√≠amos que se arquivasse, por meio das artes da imprensa, cada suspiro de cada Francesca. Mas o amor √© um sentimento extremamente raro entre as ra√ßas velhas e enfraquecidas. Os Romeus, as Julietas (para citar s√≥ este casal cl√°ssico) j√° n√£o se repetem nem s√£o quase poss√≠veis nas nossas democracias, saturadas de cultura, torturadas pela ansia do bem-estar, c√©pticas, portanto ego√≠stas, e movidas pelo vapor e pela electricidade. Mesmo nos crimes de amor, em que parece reviver, com a sua for√ßa primitiva e dominante, a paix√£o das ra√ßas novas, se descobrem logo factores lamentavelmente alheios ao amor,

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Vim para os Teus Braços Chicoteada pela Vida

Ent√£o tu pensas que h√° muitos casais como n√≥s por esse mundo? Os nossos mimos, a nossa intimidade, as nossas car√≠cias s√£o s√≥ nossas; no nosso amor n√£o h√° cansa√ßos, n√£o h√° fastios, meu pequenito adorado! Como o meu desequilibrado e inconstante cora√ß√£o d’artista se prendeu a ti! Como um raminho de hera que criou ra√≠zes e que se agarra cada vez mais. Vim para os teus bra√ßos chicoteada pela vida e quando √†s vezes deito a cabe√ßa no teu peito, passa nos meus olhos, como uma vis√£o de horror, a minha solid√£o tamanha no meio de tanta gente! A minha imensa solid√£o de dantes que me p√īs frio na alma. Eu era um pequenino inverno que tremia sempre; era como essa roseira que temos na varanda do Castelo que est√° quase sempre cheia de bot√Ķes mas que nunca d√° rosas! Na vida, agora h√° s√≥ tu e eu, mais ningu√©m. De mim n√£o sei que mais te dizer: como bem mas durmo mal; falta-me todas as manh√£s o primeiro olhar duns lindos olhos claros que s√£o todo o meu bem.

Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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A Velha Angra

Olhou sobre a velha Angra, aninhada aos p√©s do Monte Brasil, as arauc√°rias erguendo-se contra o c√©u cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e pal√°cios, as suas igrejas. Imaginou marinheiros e mercadores, saltimbancos e aventureiros a caminho das sete partidas do mundo. Charlat√£es bebiam vinho com mission√°rios, soldados negociavam servi√ßos com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao servi√ßo do rei sobre novas e mais rent√°veis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro. Havia escravos e b√™bedos, burocratas e crian√ßas furtivas, freiras e casais de condenados com destino ao Brasil, e toda essa gente circulava pela cidade como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um cora√ß√£o descompassado que era o pr√≥prio movimento do mar, furioso, naufragando naus e gale√Ķes como numa tela de Vernet.

Os √önicos Casamentos Felizes

√Č evidente que os √ļnicos casamentos felizes s√£o os de conveni√™ncia, funcionam √†s mil maravilhas, sem conflitos, porque cada um sabe que a realiza√ß√£o das suas ambi√ß√Ķes depende da alian√ßa com o outro. D√° gosto ver como trabalham em equipa os casais que entenderam essa ideia (casamento = sociedade limitada). Desenvolvem-se como uma empresa, apoiando-se um ao outro sem hesitar, cada um deles especializado numa determinada atividade para obterem o m√°ximo rendimento do seu investimento, pois sabem que os ganhos de um beneficiar√£o os dois. As discuss√Ķes em p√ļblico, as desaven√ßas, os an√ļncios de separa√ß√£o fazem cair as a√ß√Ķes da bolsa social e prejudicam a economia dom√©stica, h√° que evitar toda essa merda que os jovens e alguns imbecis publicitam aos quatro ventos, sem se darem conta de que est√£o a desvalorizar-se. Acreditam no amor e no desamor, na trai√ß√£o e no ci√ļme, sem entenderem que, quando se mete de permeio isso a que os romances e as revistas cor-de-rosa chamam amor, est√° tudo fodido. √Č o fim da paz. Quando algu√©m te diz que te amar√° para sempre, a hist√≥ria j√° come√ßou a meter √°gua. O montanhista n√£o pode ficar eternamente parado no cume que conquistou. J√° alcan√ßou o topo.

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A D√ļvida, a Solid√£o, logo… a Escrita

Na vida, chega um momento – e penso que ele √© fatal – ao qual n√£o √© poss√≠vel escapar, em que tudo √© posto em causa: o casamento, os amigos, sobretudo os amigos do casal. Tudo menos a crian√ßa. A crian√ßa nunca √© posta em d√ļvida. E essa d√ļvida cresce √† sua volta. Essa d√ļvida, est√° s√≥, √© a da solid√£o. Nasce dela, da solid√£o. Podemos j√° nomear a palavra. Creio que h√° muita gente que n√£o poderia suportar o que aqui digo, que fugiria. Talvez seja por essa raz√£o que nem todos os homens s√£o escritores. Sim. Essa √© a diferen√ßa. Essa √© a verdade. Mais nada. A d√ļvida √© escrever. √Č, portanto, tamb√©m, o escritor. E com o escritor todo o mundo escreve. √Č algo que sempre se soube.
Creio tamb√©m que sem esta d√ļvida primeira do gesto em direc√ß√£o √† escrita n√£o existe solid√£o. Nunca ningu√©m escreveu a duas vozes. Foi poss√≠vel cantar a duas vozes, ou fazer m√ļsica tamb√©m, e jogar t√©nis, mas escrever, n√£o. Nunca.

Os Dias Ricos

√Č bom ter um dia complicado se formos n√≥s a complic√°-lo, √† medida que vamos andando. S√£o os dias ricos. Nunca sabemos o que vamos fazer a seguir mas fazemos sempre qualquer coisa a seguir, para n√£o interromper a cadeia.

Em vez de jantarmos em casa ou jantarmos fora, entramos num restaurante onde costumamos jantar e comemos apenas um petisco, um aperitivo. Os anfitri√Ķes tamb√©m apreciam a mudan√ßa. √Č como ir cumpriment√°-los.

Metemos conversa com um casal que s√≥ nos parece japon√™s porque queremos que seja, para lhes perguntar como preparam a massa Shirataki, que tem zero calorias. Perguntamos de onde s√£o? Da Holanda, respondem. Os preconceitos, no sentido de pr√©-ju√≠zos ou pensamentos j√° feitos (na verdade, substitutos e obst√°culos do conhecimento), s√£o cada vez mais in√ļteis.

Os hábitos são diferentes. Para celebrá-los, nem é preciso esquecê-los ou trocá-los por alternativas, felizes ou desagradáveis. O melhor é interrompê-los e acrescentar-lhes desvios espontaneamente decididos que enaltecem, através da diversão, a felicidade subjacente.

Os dias ricos levam outro dia inteiro a contar. Só fazer a lista do que se fez cansa tão bem como nadar um quilómetro, devagarinho, num oceano vivo que nos consente.

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O Casal Comum

Depois da √©poca de palavras de amor, de palavras de raiva, de palavras, as rela√ß√Ķes entre os dois tornaram-se aos poucos imposs√≠veis de resultar numa frase ou numa realidade clara. √Ä medida que estavam casados h√° tanto tempo, as diverg√™ncias, as desconfian√ßas, certa rivalidade jamais chegavam √† tona, embora elas existissem entre eles como o plano dentro do qual se entendiam. Esse estado quase impedia uma ofensa e uma defesa, e jamais uma explica√ß√£o. Formavam o que se chama um casal comum.

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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As Decis√Ķes Nas Fam√≠lias

As decis√Ķes nas fam√≠lias ou se tomam no caso de um perfeito acordo entre os c√īnjuges ou, ent√£o, quando existe uma separa√ß√£o completa entre eles. Se as rela√ß√Ķes entre eles flutuam entre os dois extremos nada √© poss√≠vel decidir. Muitos casais levam anos e anos numa esp√©cie de ponto-morto, inc√≥modo para ambos, s√≥ porque n√£o existe entre eles nem acordo nem separa√ß√£o absoluta.