Citação de

Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.
Irm√£o de muitos rios.
E fiquei irmão de uma certa idéia,
e tive sorte, n√£o me assassinaram
como a milhares de meus irm√£os,
e provei a mim mesmo
a minha fidelidade.
Fiquei irm√£o de muito cidad√£o de nome certo.
Fiquei irm√£o de uma certa bebida,
uma certa bebida que se chama ceva orvalhada.
Um ritual de estima: amigos, futebol, poesia,
minha doce donzela de vestido amarelo
e mais as outras tantas donzelas
de vermelho, gren√°, cinza, branquelo,
os vestidos mais belos e os mais singelos!
Eu gosto de mim, de meu porte nem sei,
de minha doce e embalante imaginação,
de minha fr√°gil e destemida poesia.

A verdade é que, um grito na minha boca
é igual a um grito na boca da noite?
O que é uma palavra descansada?
Haver√° sempre no mundo as palavras
descansadas ou haver√° ainda outras,

as que n√£o se cansam nunca, as mortas?
As palavras morrem ou s√£o esquecidas?
As palavras que est√£o no dicion√°rio, elas
est√£o recuperadas, est√£o salvas ou apenas
prisioneiras; quem ser√° que tem interesse

na pris√£o das palavras? As palavras simples
navegar√£o num mundo complicado com a verve
de sempre ou perder√£o a compostura?
Haver√°, no meio delas, as tontas, as virgens,
as palavras desavergonhadas, as vesgas?

Que pode acontecer com as palavras ocas,
as que estiveram num desastre ou que vivem
nos becos ou nos lupanares imundos, ou as
que esqueceram suas raz√Ķes, como se b√™badas
e depois da noite sufocante tornaram-se ocas?

Haver√° mesmo palavra que tenha em si a fuga
dos sentidos? Haver√°, entre elas, uma apenas
que resguardando-se do t√©dio, p√īde ministrar
no silêncio sua dor e sua mentira, para sorrir
na hora H, quando todos estiverem apagados?

As palavras est√£o no mundo representando
o seu papel, elas est√£o acovardadas ou n√£o?
Qual é a palavra mais sensata para quando
houver o desastre de avi√£o e tudo ficar em segredo
por falta da caixa preta? Em verdade, existe, sim,

a sensatez das palavras; (vejam, a palavra infinito!.
Que tola!) como se pode agir quando aparecer
na cena um homem sensato, se n√£o temos ordem
de aplicar a palavra exata? Pêsames,mesmo
a palavra exata? Que palavra mais fina devo dizer

ao morto antes dele morrer? que palavra mais crua
devo dizer ao vivo antes dele me mandar à Merda?
Um trem-de-ferro chegou, amigo, na estação Soledade.
Que foi que trazia nos seus vag√Ķes, o trem de Soledade?
Trazia nos seus vag√Ķes os sonetos da ‚ÄúGera√ß√£o de 1889‚ÄĚ

Ninguém pra receber na estação noturna de Soledade!
As palavras ficaram bem arrumadas, na boquinha, na boquinha!
As palavras arrumadas em nosso Dom Casmurro soneto!
Os vag√Ķes estavam resplandecentes! Os vag√Ķes de P√™sames!
As palavras vagas nos vag√Ķes virgens nos manequins vesgos!