Passagens sobre Dicion√°rio

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Frases sobre dicion√°rio, poemas sobre dicion√°rio e outras passagens sobre dicion√°rio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Onde Nasceu a Ciência e o Juízo?

MOTE

‚ÄĒ Onde nasceu a ci√™ncia?…
‚ÄĒ Onde nasceu o ju√≠zo?…
Calculo que ninguém tem
Tudo quanto lhe é preciso!

GLOSAS

Onde nasceu o autor
Com for√ßas p’ra trabalhar
E fazer a terra dar
As plantas de toda a cor?
Onde nasceu tal valor?…
Seria uma força imensa
E h√° muita gente que pensa
Que o poder nos vem de Cristo;
Mas antes de tudo isto,
Onde nasceu a ci√™ncia?…

De onde nasceu o saber?…
Do homem, naturalmente.
Mas quem gerou tal vivente
Sem no mundo nada haver?
Gostava de conhecer
Quem é que formou o piso
Que a todos nós é preciso
At√© o mundo ter fim…
N√£o h√° quem me diga a mim
Onde nasceu o ju√≠zo?…

Sei que h√° homens educados
Que tiveram muito estudo.
Mas esses n√£o sabem tudo,
Também vivem enganados;
Depois dos dias contados
Morrem quando a morte vem.
Há muito quem se entretém
A ler um bom dicion√°rio…
Mas tudo o que é necessário
Calculo que ninguém tem.

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A Religião e o Jornalismo São as Únicas Forças Verdadeiras

Todas as artes s√£o uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem √† visualidade, al√©m de serem √ļnicos os seus produtos, e perec√≠veis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, n√£o existem sen√£o para criar ambiente agrad√°vel, para distrair ou entreter ‚ÄĒ exactamente como as artes de representar, de cantar, de dan√ßar, que todos reconhecem como sendo inferiores em rela√ß√£o √†s outras. A pr√≥pria m√ļsica n√£o existe sen√£o enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representa√ß√£o. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa n√£o √© como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia est√° em que s√£o partituras acess√≠veis a todos os que sabem ler, existindo ali para a interpreta√ß√£o imediata de quem l√™, e n√£o para a interpreta√ß√£o do executante, transmitida depois ao ouvinte.
As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão,

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Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.

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Os Portugueses não gostam de falar de dicionários, porque têm uma noção pacóvia de que é prova de falta de cultura. Pensam ser melhor fingir que não precisam deles.

A vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora.

Eu fiz soprar um vento revolucion√°rio. Pus um barrete vermelho no velho dicion√°rio.

N√£o √© decorando todo o dicion√°rio que aprendemos os voc√°bulos, mas consultando-o segundo a necessidade. As li√ß√Ķes mais importantes da vida tamb√©m aprendemos atrav√™s da necessidade de resolvermos os problemas que surgem.

Achar que o mundo não tem um criador é o mesmo que afirmar que um dicionário é o resultado de uma explosão numa tipografia.

Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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A Palavra

J√° n√£o quero dicion√°rios
consultados em v√£o.
Quero só a palavra
que nunca estar√° neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunh√£o,
mudos,
saboreando-a.

Também leio livros, muitos livros: mas com eles aprendo menos do que com a vida. Apenas um livro me ensinou muito: o dicionário. Oh, o dicionário, adoro-o. Mas também adoro a estrada, um dicionário muito mais maravilhoso.

O Dicion√°rio da Vida

A vida √© o nosso dicion√°rio. Os anos foram bem gastos quando os demos aos trabalhos do campo, ou ao com√©rcio, √†s manufacturas, √†s rela√ß√Ķes sinceras com grande n√ļmero de homens e mulheres… isto com o √ļnico fim de aprender em todas as suas realidades uma linguagem capaz de ilustrar e de encarnar as nossas percep√ß√Ķes. A pobreza ou a riqueza do discurso de quem fala ensina-me imediatamente em que medida ele j√° viveu.

Arte sincera, pol√≠tica sincera, amor sincero… E o que isto √©, explicado por um dicion√°rio! O s√°bio que disse que os m√ļsculos da laringe √© que pensavam, disse bem. S√£o eles, na verdade, que pensam e articulam as palavras. O pior √© o que permanece inexprim√≠vel na alma de cada um.

As Sem Raz√Ķes do Amor

Eu te amo porque te amo.
N√£o precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor n√£o se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicion√°rios
e a regulamentos v√°rios.

Eu te amo porque n√£o amo
bastante ou de mais a mim.
Porque amor n√£o se troca,
n√£o se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Saudade

Saudade – O que ser√°… n√£o sei… procurei sab√™-lo
em dicion√°rios antigos e poeirentos
e noutros livros onde n√£o achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis s√£o as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e m√£os.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe – t√£o longe! – de minhas redes tranquilas.

Saudade… Oi√ßa, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
N√£o… e me treme na boca seu tremor delicado…
Saudade…
Tradução de Rui Lage