Passagens sobre Balas

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Frases sobre balas, poemas sobre balas e outras passagens sobre balas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Para Voltar

A ver-te
Um só instante,
A ti,
Que és mais bela que a lua,
Antes que a manh√£ recolha
As estrelas
Uma a uma
E as guarde
Do outro lado do céu,

Vou atravessar
O rio
Coberto de holofotes,
Que transformam o verde claro
Numa fosforescência
De √°gua assustada.

Se n√£o me matarem
Nem me apanharem vivo,
Mantém-te alerta
Mantém alerta
O desejo mais antigo
e o mais novo.

Vou passar
Do lado de fora
Da parede
Perfurada
Pelas balas:

Passa-me um lenço
De seda
Com o teu perfume.

Marca-o com o segredo
Dos teus l√°bios.

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
√Č dia de passar a m√£o pelo rosto das crian√ßas,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
√Č dia de pensar nos outros ‚Äď coitadinhos ‚Äď nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que n√£o merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
√Č s√≥ abrir o r√°dio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?)
N√£o seja est√ļpido! Compre imediatamente um rel√≥gio de pulso antimagn√©tico.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente acotovela,

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Poeta Castrado, N√£o!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corol√°rio
poema de m√£o em m√£o
l√£zudo publicit√°rio
malabarista cabr√£o.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado n√£o!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como j√° disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome j√° n√£o se fala
– √© t√£o vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte √© branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?

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Poema da Terra Adubada

Por detr√°s das √°rvores n√£o se escondem faunos, n√£o.
Por detr√°s das √°rvores escondem-se os soldados
com granadas de m√£o.

As √°rvores s√£o belas com os troncos dourados.
S√£o boas e largas para esconder soldados.

Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
S√£o os corpos dos soldados rastejando no ch√£o.

O brilho s√ļbito n√£o √© do limbo das folhas verdes reluzentes.
√Č das l√Ęminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.

As rubras flores vermelhas n√£o s√£o papoilas, n√£o.
√Č o sangue dos soldados que est√° vertido no ch√£o.

N√£o s√£o vespas, nem besoiros, nem p√°ssaros a assobiar.
S√£o os silvos das balas cortando a espessura do ar.

Depois os lavradores
rasgar√£o a terra com a l√Ęmina aguda dos arados,
e a terra dar√° vinho e p√£o e flores
adubada com os corpos dos soldados.

Poderiam ordenar-me: Mata-te na guerra. Teu nome ser√° o √ļltimo co√°gulo de sangue em meus l√°bios rasgados pelas balas.

Se Te Disserem

Se te disserem que um gorila salvou a tua irm√£
E que não é bonito pensares a todo o momento
Na caixa de correio vazia
Pensa bem, mano, na fórmula que adoptaste
Para uma sociedade sem classes
Onde n√£o adianta patinar na relva como os ursos.
Só eles possuem o dom do peso
Aliado à levitação,
Mas a um qualquer é permitido rir
E falar alto como se acordasse em forma.
Fora do orabolas em que foste criado
Há muita coisa à espera de ser vista
Pela primeira vez
Se guardi√£o-centauro de crespas unhas
Pronto ao disparo da saliva
Em vez de balas.
Não te rias de quem sofre à beira de água
Porque deles é também o reino da luta.
Na feira onde o loureiro medra ao qu√Įl√≥metro dezassete
E se afoga a virtude em c√Ęntaros de √°gua
Não há lugar para a débil panaceia de risos.
As √°rvores crescem e tu com todas
Fora do ped√ļnculo
Junto à terra

Carta de Amor

(A Eugénio de Andrade)

Um dia destes
vou-te matar
Uma manh√£ qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tes√£o das flores
ali no jardim de S. L√°zaro
um tiro de pistola e…
N√£o te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. Jo√£o da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade

Adeus pois mares de Setembro e dunas de F√£o
Um dia destes vou-te matar…
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

Os Cavalleiros

– Onde vaes tu, cavalleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d’elle a ventar…
N√£o responde o cavalleiro,
Que vae absorto a scismar.
– Onde vaes tu, torna o vento,
N’esse doido galopar?
Vaes bater a algum convento?
Eu ensino-te a rezar.
E a lua surge, um momento,
A lua, convento do Ar.
– Vaes levar uma mensagem?
D√°-m’a que eu vou-t’a entregar:
Ir√°s em meia viagem
E eu j√° de volta hei-de estar.
E o cavalleiro, √° passagem,
Faz as arvores vergar.
– Vaes escalar um mosteiro?
Eu ajudo-t’o a escalar:
N√£o ha no mundo pedreiro
Que a mim se possa egualar!
N√£o responde o cavalleiro
E o vento torna a fallar:
– Dize, dize! vaes p’ra guerra?
Monta em mim, vou-te levar:
N√£o ha cavallo na Terra
Que tenha t√£o bom andar…
E os trov√Ķes rolam na serra
Como vagas a arrolar!
– E as guerras has-de ganhal-as,
Que por ti hei-de velar:
Ponho-me √° frente das balas
Para a força lhes tirar!

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O progresso marca-o a dist√Ęncia do salto do tigre, que √© de dez metros, ao curso da bala, que √© de vinte quil√≥metros. A fera, a dez passos, perturba-nos; o homem √© a fera dilatada.

As Balas

D√° o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
D√° a cama e a mesa o verde pinho
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama d√° calor
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos cora√ß√Ķes d√° amor renascido
As balas d√£o o sangue derramado

D√° o Sol as searas pelo Ver√£o
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno d√° o p√£o
As balas d√£o o sangue derramado

D√° cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
D√° a conquista um puro sentimento
As balas d√£o o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
D√° sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas d√£o o sangue derramado

D√° a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.

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Farto de voar

Farto de voar
Pouso as palavras no ch√£o
Entro no mar
Sinto o sal de m√£o em m√£o
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arp√£o
no arp√£o

Levo a dormir
Sonhos que andei para tr√°s
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de rasp√£o
de rasp√£o

Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão

Farto de voar
Pouso as palavras no ch√£o
Entro no mar
Sinto o sal de m√£o em m√£o
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arp√£o
no arp√£o

Febre Vermelha

Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
Para que em vosso seio o labio meu se atole:
Beber até cair, bebedo, para o lado!
Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
As ondas como o oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ophelias de luar…

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
Desabrochae, √° lua, a ancia dos vossos calis!
Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
E d√°-me o teu veneno, √≥ rubra digitalis…

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
√ď favos rubros! os meus labios s√£o abelhas,
E eu ando a construir meu corti√ßo de mel…

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os cora√ß√Ķes e as balas!…

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
N’uma raiva de cor, n’uma erup√ß√£o de luz!
Escancarae a bocca, √°s vermelhas rizadas,
Cancros de Lazaro!

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Um Silêncio Cauto e Prudente é o Cofre da Sensatez

– (…) V√≥s quereis tentar a sorte na grande cidade, e sabeis bem que √© l√° que deveis gastar essa aura de valentia que a longa inac√ß√£o dentro destas muralhas vos houver concedido. Procurareis tamb√©m a fortuna, e devereis ser h√°bil a obt√™-la. Se aqui aprendeste a escapar √† bala de um mosquete, l√° deveis aprender a saber escapar √† inveja, ao ci√ļme, √† rapacidade, batendo-vos com armas iguais com os vossos advers√°rios, ou seja, com todos. E portanto escutai-me. H√° meia hora que me interrompeis dizendo o que pensais, e com o ar de interrogar quereis mostrar-me que me engano. Nunca mais o fa√ßais, especialmente com os poderosos. √Äs vezes a confian√ßa na vossa arg√ļcia e o sentimento de dever testemunhar a verdade poderiam impelir-vos a dar um bom conselho a quem √© mais do que v√≥s. Nunca o fa√ßais. Toda a vit√≥ria produz √≥dio no vencido, e se se obtiver sobre o nosso pr√≥prio senhor, ou √© est√ļpida ou √© prejudicial. Os pr√≠ncipes desejam ser ajudados mas n√£o superados.
Mas sede prudente também com os vossos iguais. Não humilheis com as vossas virtudes. Nunca falei de vós mesmos: ou vos gabaríeis, que é vaidade, ou vos vituperaríeis,

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A Guerra

Musa, pois cuidas que é sal
o fel de autores perversos,
e o mundo levas a mal,
porque leste quatro versos
de Hor√°cio e de Juvenal,

Agora os ver√°s queimar,
j√° que em v√£o os fecho e os sumo;
e leve o vol√ļvel ar,
de envolta como turvo fumo,
o teu furor de rimar.

Se tu de ferir n√£o cessas,
que serve ser bom o intento?
Mais carapuças não teças;
que importa d√°-las ao vento,
se podem achar cabeças?

Tendo as s√°tiras por boas,
do Parnaso nos dois cumes
em hora negra revoas;
tu d√°s golpes nos costumes,
e cuidam que é nas pessoas.

Deixa esquipar Inglaterra
cem naus de alterosa popa,
deixa regar sangue a terra.
Que te importa que na Europa
haja paz ou haja guerra?

Deixa que os bons e a gentalha
brigar ao Casaca v√£o,
e que, enquanto a turba ralha,
v√° recebendo o balc√£o
os despojos da batalha.

Que tens tu que ornada história
diga que peitos ferinos,

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Somos o Mistério

No fim desta √©poca, como se toda a longa viagem tivesse sido in√ļtil, volto a ficar sozinho nos territ√≥rios rec√©m-descobertos. Como na crise do nascimento, como no come√ßo alarmante e alarmado do terror metaf√≠sico donde brota o manancial dos meus primeiros versos, como num novo crep√ļsculo que a minha pr√≥pria cria√ß√£o provocou, entro numa nova agonia e na segunda solid√£o. Para onde ir? Para onde regressar, conduzir, calar ou palpitar? Olho para todos os pontos da claridade e da obscuridade e n√£o encontro sen√£o o vazio que as minhas pr√≥prias m√£os elaboraram com persist√™ncia fatal.

Mas o mais pr√≥ximo, o mais fundamental, o mais extenso, o mais incalcul√°vel, n√£o apareceria, afinal, sen√£o neste momento no meu caminho. Tinha pensado em todos os mundos, mas n√£o no homem. Tinha explorado com crueldade e agonia o cora√ß√£o do homem. Sem pensar nos homens, tinha visto cidades, mas cidades vazias. Tinha visto f√°bricas de tr√°gico aspecto, mas n√£o vira o sofrimento debaixo dos tectos, sobre as ruas, em todas as esta√ß√Ķes, nas cidades e no campo.

√Äs primeiras balas que trespassaram as violas de Espanha, quando, em vez de sons, sa√≠ram delas borbot√Ķes de sangue, a minha poesia deteve-se como um fantasma no meio das ruas da ang√ļstia humana e come√ßou a subir por ela uma torrente de ra√≠zes e de sangue.

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Havia na Manch√ļria um batalh√£o do ex√©rcito chin√™s formado somente por adeptos de certa seita religiosa. Eles usavam preso ao abd√īmen um talism√£ e possu√≠am a seguinte f√© inabal√°vel: ‚ÄėAs balas n√£o atingem; mesmo que me atinjam, n√£o morrerei; mesmo que eu morra, ressuscitarei‚Äô. Esses soldados investiam destemidamente contra os inimigos, causando-lhes s√©rios danos. Nem as rajadas de metralhadoras conseguiam det√™-los. Mesmo recebendo duas ou tr√™s balas no corpo, eles n√£o esmoreciam; quando ca√≠am, levantavam-se e avan√ßavam de novo. Por isso, quando se enfrentava esse batalh√£o, era inevit√°vel acabar em luta corpo-a-corpo, com baionetas. Consta que, ao final da luta, examinando-se os corpos de alguns desses soldados, que jaziam mortos, podia-se constatar em cada um deles dezenas de perfura√ß√Ķes √† bala, o que significava que, apesar desses ferimentos, eles continuaram avan√ßando e finalmente foram mortos a baionetadas. Como √© grande o poder da f√©! Aquele que se apavora porque teve hemoptise algumas vezes, deve envergonhar-se diante do exemplo desses soldados chineses. Aquele que n√£o consegue reerguer-se porque fracassou algumas vezes na vida deve envergonhar-se de sua fraqueza. Fracassar e cair n√£o √© vergonha; vergonhoso √© perder a coragem para se reerguer. Quando se faz limpeza no po√ßo, este parece secar temporariamente,

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