Passagens sobre Cigarros

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Frases sobre cigarros, poemas sobre cigarros e outras passagens sobre cigarros para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Alheamento

Meu corpo estira√ßado, l√Ęnguido, ao logo do leito.

O cigarro vago azulando os meus dedos.

O r√°dio… a m√ļsica…

A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da m√ļsica…

Ausência!, minha doce fuga!

Estranha coisa esta, a poesia,
que vai entornando m√°goa nas horas
como um orvalho de l√°grimas, escorrendo dos vidros
duma janela,

numa tarde vaga, vaga…

Fume maconha e n√£o cigarros, pois neur√īnios voc√™ tem milh√Ķes, mas pulm√Ķes voc√™ s√≥ tem dois.

A Minha Felicidade Resume-se a Isto

Um dos poucos divertimentos intelectuais que ainda restam ao que ainda resta de intelectual na humanidade √© a leitura de romances policiais. Entre o n√ļmero √°ureo e reduzido das horas felizes que a Vida deixa que eu passe, conto por do melhor ano aquelas em que a leitura de Conan Doyle ou de Arthur Morrison me pega na consci√™ncia ao colo.
Um volume de um destes autores, um cigarro de 45 ao pacote, a ideia de uma ch√°vena de caf√© ‚ÄĒ trindade cujo ser-uma √© o conjugar a felicidade para mim ‚ÄĒ resume-se nisto a minha felicidade. Seria pouco para muitos, a verdade √© que n√£o pode aspirar a muito mais uma criatura com sentimentos intelectuais e est√©ticos no meio europeu actual.
Talvez seja para os senhores como que causa de pasmo, n√£o o eu ter estes por meus autores predilectos ‚ÄĒe de quarto de cama, mas o eu confessar que nesta conta pessoal assim os tenho.

Ser Escritor

E, então, porque não podemos viver de outra maneira, escrevemos. E cai-nos o cabelo e apodrecem-nos os dentes, como dizia Flannery O’Connor.

E somos uns chatos. E somos maus maridos e maus filhos e maus amigos. E sentimos culpa, e sentimo-nos indignos de estima, e continuamos, mesmo assim, a n√£o responder quando falam connosco.

E n√£o telefonamos nos anos, nem aparecemos nos churrascos, nem vamos ao caf√©. E, se vamos, a √ļnica coisa de que falamos √© disso: do livro. E tudo aquilo sobre que se conversa pode servir ao livro, caso contr√°rio n√£o nos importa.

E somos os maiores quando um par√°grafo nos sai bem, e ficamos de rastos quando n√£o encontramos um verbo. E sabemos que tem de ser mesmo assim, porque se n√£o for o romance fica uma merda. Mas sentimos culpa na mesma.

E não pagamos as contas, e esquecemo-nos de pedir a garrafa do gás, e calçamos meias de pares diferentes. E de repente queremos fumar dois maços de cigarros e beber meia garrafa de uísque, sozinhos no jardim, a olhar para a noite e a chorar.

E temos de fazer um esforço para mudar de roupa,

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As Empregadas Fabris

Arregaçam a manhã (as empregadas fabris)
pernas como tesouras
recortando a calçada
ferem o lenho da mesa com
sortes
de boletim. Uma sirene as trouxe aqui
(às
empregadas febris)
ancas de esboço perfeito sob
vestes de oper√°ria
tocam umas nas outras como
inda fossem meninas mas a
delas que vai noivar j√°
traz o primeiro a caminho. E
quando o cigarro se apaga
(ou a
cerveja se escoa) o
que resta é a dor da tarde
que nem esta chuva afaga
o
gasóleo dos rapazes que
lhes cantam a cantiga e
as tomam pela cintura. Um
foguete fecha a festa
(pelo lado de dentro da coxa)
h√° nelas a incerteza de
n√£o saberem se s√£o
incompletamente infelizes.

Quimeras

H√° na minha vida quimeras distantes,
Quais nuvens errantes, em dias atrozes.
Eu corro atr√°s delas, mas elas, por fim,
Perdem-se de mim, no horizonte, velozes.

H√° no meu di√°rio silenciosas dores,
Quais flores que o vento desfaz de manh√£.
Com elas me embalo nos dias soturnos,
Dir-se-iam ¬ęNocturnos¬Ľ, como os de Chopin.

Há no meu caminho nem sei bem o quê.
Alguém que me vê e que eu não visiono.
S√£o meus dias passados, meus dias de inf√Ęncia,
Sabendo √† fragr√Ęncia das tardes de Outono.

Saudades, saudades, sentido da vida,
Um dia vivida e que n√£o volta mais.
Meus dias passados, sobre eles me debruço,
No eterno soluço das coisas mortais.

Há na minha vida um viver fictício,
Fogo de artifício, esplendente e altivo.
Eu vejo-o enlevado, um instante fugaz,
Depois se desfaz na noite em que eu vivo.

H√° na minha vida ignotas tristezas,
Pequenas certezas a que me apeguei.
Com elas eu vivo, com elas eu morro,
Para meu socorro é que eu as criei.

Quimeras, quimeras,

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Eu não sei o que é que é light, sei o que é light em relação a cigarros. Há literatura, e não há literatura. Pois a literatura não é isso, é uma coisa nobre, a literatura é o que faz o Dostoievski.

Sombras da Madrugada

Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra j√° esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu n√£o queres
mas j√° te amou!

√Č madrugada n√£o importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu n√£o te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.

Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
j√° n√£o tem nada
anda perdida
quando a manh√£, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!

Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos,

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O Amor √© um Acidente, uma Ren√ļncia, um H√°bito, uma Maldi√ß√£o

O amor é um acidente.
Eu estava sentada no regaço de uma mulher de cobre, uma escultura de Henry Moore, e Bill debruçou-se sobre mim e beijou-me nos lábios. E de repente eu amava-o. Amava-o e só isso importava. Reparei nas mãos dele, mãos de pianista. Mãos preparadas para o amor. Ainda hoje gosto de lhe ver as mãos enquanto folheia um livro, enquanto lê um jornal. As mãos dele envelheceram, envelheceram a apertar outras mãos, milhares de outras mãos, a jogar golfe, a assinar autógrafos e documentos importantes. Envelheceram, sim, mas continuam belas. Continuam a excitar-me.
O amor √© uma ren√ļncia. Amar algu√©m √© desistir de amar outros, √© desistir por esse amor do amor de outros. Eu desisti de tudo. A partir desse dia dei-lhe todos os meus dias. Entreguei-lhe os meus sonhos, os meus segredos, as minhas convic√ß√Ķes mais profundas. N√£o me queixo!
N√£o sou ing√©nua nem est√ļpida. Quando digo que o amor √© uma ren√ļncia, quero dizer que foi assim para mim. Para Bill foi sempre uma outra coisa. Eu sabia que ele reparava noutras mulheres, e que outras mulheres reparavam nele. Um homem feio, com poder, √© quase bonito. Um homem bonito,

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O Amor Eterno

E agora que as mãos da incrédula
rapariga te empurram para a saída,
onde ir√° chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impress√£o
h√ļmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da √°gua
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
l√°grimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia – e como
se n√£o soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as in√ļteis
promessas de eternidade.

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A Frescura

Ah a frescura na face de n√£o cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que ref√ļgio o n√£o se poder ter confian√ßa em n√≥s!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para l√°, que’eu saberia que n√£o vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente √† mesma hora…
Est√° bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em it√°lico.
√Č t√£o engra√ßada esta parte assistente da vida!
At√© n√£o consigo acender o cigarro seguinte… Se √© um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Humilha√ß√Ķes

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Jó,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos sal√Ķes dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.

L√° cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o g√°s;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E enquanto v√£o passando as cortes√£s e os brilhos,
Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação dum drama de Feuillet,
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e v√£ que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Ro√ßavam no veludo as guarni√ß√Ķes das rendas;
E, muito embora tu, burguês, me não entendas,
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque n√£o podia abandon√°-la em paz!
√ď minha pobre bolsa, amortalhou-se a id√©ia
De vê-la aproximar, sentado na platéia,
De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos bot√Ķes;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
‚ÄĒ Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se c√° fora as ova√ß√Ķes.

Que desvanecimento!

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Sinto na Ang√ļstia o Quem me Lembrasse

Sinto na ang√ļstia o quem me lembrasse
e do lembrar a mim como uma ponte
onde de noite já ninguém passasse
viesse a notícia desse outro horizonte

em que o meu grito preso na garganta
dissesse à voz que não ouvi e veio
quanto cansaço inverosímil, quanta
fadiga me enternece como um seio.

Vibr√°til voga vaga pela tarde
que em cigarros distrai o eu estar só
a chama obscura que visível arde
quando arde ao sol o pó.

L√†-bas, Je Ne Sais O√Ļ…

V√©spera de viagem, campainha…
N√£o me sobreavisem estridentemente!
Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo,
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do est√īmago,
Antes de p√īr no estribo um p√©
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.
Quero, neste momento, fumando no apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida in√ļtil, que era melhor deixar, que √© uma cela?
Que importa?
Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.

Sabe-me a n√°usea pr√≥xima o cigarro. O comboio j√° partiu da outra esta√ß√£o…
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que n√£o veio despedir-se de mim,
Minha fam√≠lia abstrata e imposs√≠vel…
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida ‚ÄĒ
“E esta? Ent√£o n√£o houve um tipo que deixou isto aqui?”

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A fun√ß√£o da juventude depende do lugar em que residem. Por exemplo: para que servem os rapazes e as mo√ßas da Am√©rica? Resposta: para consumirem maci√ßamente. E os corol√°rios desse tipo de consumo s√£o: comunica√ß√Ķes em massa, publicidade em massa. Narc√≥ticos em massa (sob a forma de televis√£o, tranquilizantes, pensamentos positivos e cigarro). Agora que a Europa tamb√©m ingressou na produ√ß√£o em massa, para que servir√£o os seus rapazes e mo√ßas? Para consumirem maci√ßamente, exatamente como a juventude da Am√©rica. [‚Ķ] O destino da mocidade deve ser apenas se desenvolver harmoniosamente e se transformar em adultos plenamente realizados.

homenagem a ces√°rio verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um √ļltimo cigarro
um feij√£o branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Ces√°rio Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

Barrow-On-Furness III

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjetiva!
Qual “leva ao mar”! Tua presen√ßa esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que n√£o se ativa,
Morre a p√īr etiquetas ao grande ar…

Escancarado Furness, mais três dias
Te, aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibil√≠ssimas vistorias…

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu ir√°s do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso…

Versos √ćntimos

Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua √ļltima quimera.
S√≥mente a Ingratid√£o – esta pantera –
Foi tua companheira insepar√°vel!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miser√°vel,
Mora, entre feras, sente inevit√°vel
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa m√£o vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!