Cita√ß√Ķes sobre Disparates

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Os factos são como os bonecos dos ventríloquos. Sentados no joelho de um homem sábio articularão palavras de sabedoria; noutros joelhos, não dirão nada ou dirão disparates, ou comprazer-se-ão em puro diabolismo.

Viver torna-se uma t√£o est√ļpida obsess√£o que dormir bem – sempre mais do que se precisaria, esticando a ronha at√© ao limite do olho fechado – √© cada vez mais considerado como um abra√ßo acamado que se d√° √† Morte. Que disparate: dormir √© viver bem.

Tantos disparates contam as pessoas sobre os casamentos felizes! Um homem apenas pode ser feliz com uma mulher durante o tempo em que a n√£o ame.

Técnicas de Narrador

Os que me conheceram aos quatro anos dizem que era pálido e ensimesmado e que só falava para contar disparates, mas os meus relatos eram em grande parte episódios simples da vida diária, que eu tornava mais atraentes com pormenores fantásticos para que os adultos me prestassem atenção. A minha melhor fonte de inspiração eram as conversas que os mais velhos mantinham diante de mim, porque pensavam que não as entendia, ou as que cifravam de propósito para que não as entendesse. E, de facto, acontecia o contrário: absorvia-as como uma esponja, desmontava-as em peças, alterava-as para escamotear a origem, e quando as contava aos mesmos que as tinham contado ficavam perplexos pelas coincidências entre o que eu dizia e o que eles pensavam.

Às vezes não sabia o que fazer com a minha consciência e procurava dissimular com um rápido pestanejar. Tanto era assim que algum racionalista da família decidiu que eu fosse observado por um médico da vista, que atribuiu o meu pestanejar a uma infecção das amígdalas e me receitou um xarope de rábano iodado que me fez muito bem para aliviar os adultos. A avó, por seu lado, chegou à conclusão providencial de que o neto era adivinho.

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Os Falsos Cultos

A maior parte das pessoas, ao entregarem-se √†s chamadas ocupa√ß√Ķes intelectuais, considerando como tais o ler e o escrever (n√£o o escrever cartas, mas o escrever como autor), n√£o fazem de modo algum o que julgam fazer: porque nem embelezam a sua cultura – ¬ęampliar¬Ľ a sua cultura, como se costuma dizer, √© um disparate horroroso – nem agu√ßam o seu entendimento, nem enriquecem a sua experi√™ncia, e n√£o produzem mais nem nada mais importante que aqueles rapazes que remexem a terra √† beira de um charco, deitam pedras para a √°gua turva, etc., em suma, um nada em grande az√°fama.
Nenhum bocado da superf√≠cie de uma figura pode ser criado sen√£o a partir do seu √Ęmago.

Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… Eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
est√° guardado um dedo da tua m√£o direita num relic√°rio.
Palavra de honra que est√°!
As voltas que o mundo d√°!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calend√°rio.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milh√Ķes de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar ‚Äď que disparate, Galileo!
‚Äď e jurava a p√©s juntos e apostava a cabe√ßa
sem a menor hesita√ß√£o ‚Äď
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados s√£o.

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A sagacidade te guardará e a prudência te protegerá para te livrar do mau caminho do homem

A sagacidade te guardará e a prudência te protegerá para te livrar do mau caminho do homem que diz disparates.

O Homem Irracional

Cubram-no de todos os bens terrenos, mergulhem-no na felicidade com a cabeça imersa de modo a só umas bolhas rebentarem à superfície; dêem-lhe uma prosperidade económica tal que não tenha mais nada que fazer senão dormir, comer doces e tratar da continuidade ininterrupta da história universal Рentão ele, o homem, mesmo assim, só por ingratidão, por maldade, far-vos-á uma pulhice qualquer. Arriscará até os doces e desejará propositadamente o mais prejudicial dos absurdos, o mais antieconómico disparate, unicamente para misturar com toda essa sensatez positiva o seu nocivo elemento fantástico. Desejará conservar precisamente os seus sonhos fantásticos, a sua estupidez mais ordinária, unicamente para confirmar a si mesmo (como se fosse assim tão indispensável) que as pessoas continuam a ser pessoas e não teclas de piano em que sejam as próprias leis da natureza a tocar, mas prometendo tocar a tal ponto que se tornará já impossível desejar qualquer coisa para além do calendário.
Mais ainda: mesmo que o homem se tornasse realmente uma tecla de piano, mesmo que tal facto lhe fosse provado por meio das ciências naturais e da matemática, não ganharia juízo, mas faria, de propósito, qualquer coisa contra, apenas por ingratidão; só para continuar na sua!

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A Mediocridade que Vulgariza o Talento

N√£o se tem ideia como abunda a mediocridade. (…) S√£o pessoas como essas que travam sempre, em todos os lados, a m√°quina accionada pelos homens de talento. Os homens superiores s√£o por natureza inovadores. Quando surgem deparam com o disparate e a mediocridade por todos os lados (ela que tudo domina e que se manifesta em tudo o que se faz). O seu impulso natural √© assentar tudo de novo em terreno s√≥lido e experimentar caminhos novos, para fugir a essa vulgaridade e parvo√≠ce. Se por acaso eles triunfam e acabam por levar a melhor sobre a rotina, t√™m de ser ver a contas, por seu turno, com os incapazes – que fazem ponto de honra da c√≥pia grosseira dos seus processos e estragam tudo o que lhes vem √†s m√£os.
Depois deste primeiro movimento, que leva os inovadores a sairem das sendas j√° tra√ßadas, segue-se quase sempre outro que os faz, no fim da sua carreira, conter o indiscreto entusiasmo que vai sempre demasiado longe e que, pelo exagero, arruina o que inventaram. Ao se darem conta do triste uso que √© feito das inova√ß√Ķes que eles lan√ßaram no mundo, come√ßam a elogiar aquilo que, afinal, gra√ßas a eles,

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Tamb√©m li os jornais Dia e Novidades. V√™em, como era natural, destemperados. Os Republicanos era natural saltassem de todo. Quanto ao Correio da Noite, acho-o um pouco mais manso do que eu imaginava que ele viesse. S√©culo e Not√≠cias parecem-me estar ¬ę√† capa¬Ľ, a ver em que isto p√°ra. Estou ainda convencido que se houver ju√≠zo ainda se poder√° vencer mais esta campanha, o que √© preciso √© n√£o perder os Dissidentes de vista porque podem fazer um disparate qualquer.

Reagir à Saudade e à Tristeza

A maneira de reagir √† saudade e √† tristeza √© ter um cora√ß√£o bom e uma cabe√ßa viva. A saudade e a tristeza n√£o s√£o doen√ßas, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos pa√≠ses do Norte. S√£o verdades, condi√ß√Ķes, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. √Č banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento n√£o anula outro. Mas acompanha-o. Para isto √© preciso intelig√™ncia e bondade.
Aquilo que resta s√£o as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as √ļnicas que h√°. N√£o falo nas alegrias que passam, como passam quase todas as paix√Ķes.
Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balc√£o, dormir junto do mar, dizer disparates, beber de mais, rir. Coisas assim. S√£o essas coisas ‚ÄĒ entre as quais o amor ‚ÄĒ que n√£o se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro.

Testamento do Homem Sensato

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: ¬ęEle era assim…¬Ľ
mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
com uma luz, mais que distante, breve.

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artes√£o na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-import√Ęncia
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na inf√Ęncia.

Nos olhos uma folha de hortel√£
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavr√£o de mach√£o no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Uma Mulher sem Areia Nenhuma

Tenho o santo horror da frieza calculada, da boa educa√ß√£o, do prudente ju√≠zo duma mulher. Aos homens pertence tudo isso, e a mulher deve ser muito feminina, muito espont√Ęnea, muito cheia de pequeninos nadas que encantem e que embalem. Meu amigo, se esperas ter uma mulher sem areia nenhuma, morres de aborrecimento e de frio ao p√© dela e n√£o ser√° com certeza ao p√© de mim… Comigo h√°s-de ter sempre que pensar e que fazer. H√°s-de rir das minhas tolices, h√°s-de ralhar quando elas passarem a disparates (h√£o-de ser pequeninos…) e h√°s-de gostar mais de mim assim, do que se eu fosse a pr√≥pria deusa Minerva com todo o ju√≠zo que todos os deuses lhe deram.

Os Homens não Sabem o que é o Amor

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho. Conhecem o desejo, o desejo sexual em estado bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhes tinha dado filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante Рentão chegavam a ter prazer por dormirem na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal-entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte Рe mesmo quando eles sentiam uma excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos.

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Quando um Ocidental encontra alguém de um país pobre, sente profundo desprezo. Ele assume que a cabeça do pobre homem está cheia de todos os disparates que mergulharam o seu país na pobreza e no desespero.

Deixemos a Humanidade à Sua Ordem Natural

N√£o aleijemos a pobre humanidade mais do que ela j√° est√° com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. N√£o sejamos t√£o crian√ßas que queiramos levantar ao ar a esfera pretendendo agarr√°-la apenas pelo hemisf√©rio da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisf√©rio superior, porque a √ļnica maneira de agarr√°-la bem t√£o-pouco √© p√īr-lhe as m√£os por baixo, nem ainda abra√ßando-a com os dois bra√ßos e os dedos metidos uns nos outros para n√£o deixar escapar as m√£os e com o pr√≥prio peito do lado de c√° a ajudar tamb√©m; a √ļnica maneira de equilibrar a esfera no ar √© deix√°-la estar no ar como a p√īs Deus Nosso Senhor, √°s voltas √† roda do sol, como a lua √† roda de n√≥s e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.